Golpe de Estado na França? Vídeo feito por IA engana milhões e cria crise para Macron

Um vídeo de IA sobre um suposto golpe de Estado na França viralizou nas redes sociais, ultrapassou 12 milhões de visualizações e levou o presidente Emmanuel Macron a agir pessoalmente após a Meta recusar a remoção do conteúdo.

Um vídeo de IA sobre um golpe de Estado na França se transformou em uma dor de cabeça diplomática e política para o presidente Emmanuel Macron. 

Produzido com inteligência artificial, o conteúdo simulava cenas de instabilidade militar, multidões nas ruas e uma âncora de telejornal anunciando a suposta queda do chefe de Estado francês. Nada daquilo era real, mas milhões de pessoas acreditaram.

O vídeo começou a circular no Facebook e rapidamente acumulou mais de 12 milhões de visualizações, espalhando-se sobretudo em países africanos e entre comunidades francófonas. 

A desinformação chegou a tal ponto que Macron tomou conhecimento do caso após receber uma mensagem preocupada de um líder africano.

“Um dos meus homólogos africanos escreveu perguntando o que estava acontecendo e dizendo que estava muito preocupado”, contou Macron em entrevista ao jornal La Provence, no dia 16 de dezembro.

Um golpe que nunca existiu

O vídeo mostra imagens altamente realistas: um helicóptero girando no ar, militares posicionados, multidões reunidas e uma apresentadora de TV anunciando “relatos não oficiais” de um golpe liderado por um coronel não identificado. 

A narrativa sugere a destituição de Macron, sem qualquer confirmação oficial.

Apesar da aparência profissional, todo o material foi criado com inteligência artificial. Não houve qualquer tentativa real de golpe de Estado na França.

Meta se recusou a retirar o vídeo

Ao descobrir a origem falsa do conteúdo, Macron acionou o Pharos, plataforma da polícia francesa responsável por sinalizar conteúdos ilícitos online. 

O pedido era claro: que a Meta, dona do Facebook, removesse o vídeo. A resposta foi negativa. 

A empresa alegou que o material não violava as regras da plataforma, apesar do impacto político e do potencial de desinformação internacional.

Diante da recusa, o presidente francês decidiu agir pessoalmente. “Tenho mais poder para pressionar do que outras pessoas, mas nem isso funcionou”, afirmou Macron. “Essas pessoas não se preocupam com a democracia nem com a serenidade do debate público. Estão nos colocando em perigo.”

O vídeo só foi retirado mais de uma semana depois, após forte repercussão política e mediática.

Quem está por trás da fake news?

A publicação original partiu de uma conta chamada “Islam”, que, apesar do nome, não divulga conteúdo religioso. 

Segundo apuração do portal Euronews, a conta é administrada por um adolescente residente em Burkina Faso, que vende cursos ensinando como lucrar com ferramentas de inteligência artificial.

Alguns dos vídeos divulgados pela conta exibiam apresentadores gerados por IA segurando microfones com o logotipo da Radio France Internationale (RFI), o que aumentou ainda mais a credibilidade do material.

Em diversos casos, os vídeos continham a marca d’água “Sora”, ferramenta de geração de vídeos hiper-realistas criada pela OpenAI.

Tecnologia cada vez mais difícil de identificar

O Sora, lançado em outubro, permite criar vídeos realistas de até 10 segundos a partir de comandos de texto. 

A tecnologia tem sido alvo de críticas por facilitar a criação de conteúdos falsos altamente convincentes. Embora a marca d’água possa indicar a origem do vídeo, ela pode ser removida durante a edição.

Desde o lançamento da ferramenta, cresceu exponencialmente o número de deepfakes políticos, dificultando a distinção entre informação real e fabricada nas redes sociais.

Democracia sob pressão digital

O caso reacendeu o debate sobre responsabilidade das plataformas digitais, regulação da inteligência artificial e proteção dos processos democráticos. Para Macron, a proliferação de conteúdos falsos representa um risco concreto à estabilidade política global.

Especialistas alertam que, sem mecanismos mais eficazes de verificação e remoção rápida, vídeos falsos de IA podem provocar crises diplomáticas, instabilidade social e manipulação eleitoral.

O episódio francês serve como alerta: a inteligência artificial já não é uma tecnologia do futuro, é uma força presente, capaz de moldar narrativas, confundir governos e testar os limites da democracia.

Comente

Neste Artigo

Sobre o autor