Bulgária adota euro em meio a protestos, temores de inflação e crise política

A Bulgária adota o euro como moeda oficial, tornando-se o 21º membro da zona do euro, em um cenário marcado por protestos, receios de inflação e forte instabilidade política.

A Bulgária adota o euro oficialmente nesta quarta-feira e passa a integrar a zona do euro como o seu 21º membro. 

Tal mudança, aprovada em julho pelo Conselho da União Europeia, ocorre num contexto de protestos populares, instabilidade governamental e desconfiança generalizada quanto aos benefícios da moeda única no país mais pobre da União Europeia.

A taxa de conversão foi fixada em 1,95583 levs por euro, valor que já vigorava desde 1999 no mecanismo de câmbio europeu. 

Embora a decisão represente a culminação de um processo iniciado após a adesão do país à UE, em 2007, a transição expõe tensões profundas na sociedade búlgara.

População dividida e receio de aumento de preços

Pesquisas indicam que a maioria da população permanece cética.

Um levantamento recente da Rádio Nacional Búlgara mostrou que 57% dos cidadãos são contrários à adoção do euro, enquanto apenas 39% apoiam a mudança. 

A resistência é mais forte em regiões rurais e economicamente frágeis, onde o uso de dinheiro em espécie é predominante e a literacia financeira é menor.

O principal temor é a inflação. Dados oficiais mostram que os preços dos alimentos subiram 5% em novembro, mais que o dobro da média da zona do euro. 

Comerciantes relatam confusão com a dupla exibição de preços e receiam abusos e desorganização nos primeiros meses da transição.

Economistas, porém, relativizam o risco. A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, afirmou que experiências anteriores mostraram impacto inflacionário limitado, entre 0,2 e 0,4 ponto porcentual. Especialistas apontam que o efeito tende a ser temporário.

Adoção do euro ocorre em meio a crise política

A decisão acontece em um momento delicado para o país. 

O governo renunciou no início do mês após grandes protestos anticorrupção em Sofia, levando a Bulgária à sua oitava eleição antecipada em apenas cinco anos.

Manifestações contra o euro se intensificaram ao longo do ano. Em fevereiro, apoiadores do partido de extrema-direita Vazrazhdane tentaram invadir a sede da missão da União Europeia na capital. 

O movimento, de orientação pró-Rússia, organizou centenas de atos, alguns com vandalismo e confrontos com a polícia.

Benefícios econômicos e desafios estruturais

Apesar da resistência, sucessivos governos mantiveram o compromisso com a moeda única. 

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a adesão ao euro deve fortalecer a economia búlgara, estimular investimentos e facilitar o acesso ao financiamento.

Estudos indicam que pequenas e médias empresas poderão economizar cerca de 1 bilhão de levs por ano apenas com custos de conversão cambial. 

Atualmente, 65% das exportações búlgaras vão para a UE, sendo 45% destinadas a países da zona do euro. O setor de turismo, responsável por cerca de 8% do PIB, também deve ser beneficiado.

Analistas alertam, contudo, que a instabilidade política e os elevados níveis de corrupção — a Bulgária é classificada como o país mais corrupto da UE pela Transparência Internacional — podem limitar os ganhos econômicos se reformas estruturais forem adiadas.

Medidas de proteção e transição gradual

Para conter abusos, o Parlamento criou órgãos de supervisão com poderes para investigar aumentos injustificados de preços. 

A dupla exibição de valores em levs e euros será obrigatória até o final de 2026.

Durante o primeiro mês, ambas as moedas serão aceitas como meio legal de pagamento. Bancos e correios trocarão levs por euros gratuitamente até junho de 2026, facilitando a adaptação da população.

A decisão de que a Bulgária adote o euro encerra um longo ciclo iniciado após a hiperinflação dos anos 1990, quando o país passou a atrelar sua moeda ao marco alemão e, depois, ao euro. 

A adoção formal simboliza integração europeia e estabilidade monetária, mas também revela as tensões entre expectativas econômicas, soberania nacional e insegurança social.

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