Marcon se vê incapaz de firmar acordo Mercosul e União Europeia

A incapacidade de Emmanuel Macron de bloquear o acordo entre a União Europeia e o Mercosul evidencia a fragilidade política da França e fortalece a liderança da Comissão Europeia e da Alemanha em Bruxelas.

A derrota da França na tentativa de bloquear o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul se tornou um símbolo do enfraquecimento político do presidente Emmanuel Macron tanto em Paris quanto em Bruxelas.

Incapaz de reunir uma minoria de bloqueio entre os Estados-membros, o governo francês viu avançar um acordo negociado ao longo de 25 anos com Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, que, se implementado, criará uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, envolvendo cerca de 700 milhões de pessoas.

O episódio marca uma vitória estratégica para a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e para países como Alemanha e Espanha, que lideraram o apoio ao tratado.

Crise interna em Paris enfraquece posição externa

Desde que Macron decidiu dissolver a Assembleia Nacional, em junho de 2024, a França mergulhou em instabilidade política, protestos sociais e ameaças recorrentes de moções de censura. 

Esse contexto interno limitou severamente a capacidade do presidente francês de exercer liderança no plano europeu.

Sob forte pressão de agricultores franceses, Macron tentou travar o acordo, alegando riscos de concorrência desleal com produtos agrícolas da América do Sul. 

No entanto, diplomatas europeus apontam que a oposição francesa teve motivações essencialmente políticas, mais ligadas à sobrevivência interna do governo do que a entraves técnicos ao tratado.

A Comissão Europeia chegou a conceder salvaguardas adicionais ao setor agrícola, mas nem isso foi suficiente para convencer Paris a mudar de posição.

Itália rompe frente com a França

Um dos golpes mais duros para Macron veio da Itália. O apoio italiano era crucial para formar uma minoria de bloqueio que exigiria pelo menos quatro países representando 35% da população da UE.

Roma, porém, decidiu apoiar o acordo após obter concessões relevantes para seus agricultores, incluindo:

  1. Acesso antecipado a 45 mil milhões de euros da Política Agrícola Comum (PAC);
  2. O congelamento retroativo do imposto europeu sobre o carbono aplicado a fertilizantes.

O movimento isolou a França e expôs sua perda de capacidade de articulação no Conselho Europeu.

Vitória política de Ursula von der Leyen

Para Ursula von der Leyen, o avanço do acordo com o Mercosul consolida seu segundo mandato à frente da Comissão Europeia. Ao longo de um ano, a Comissão manteve pressão constante para concluir o acordo, superando resistências internas e externas.

No passado, a oposição francesa teria sido suficiente para travar ou adiar indefinidamente um tratado dessa magnitude. A famosa máxima do ex-presidente da Comissão Jean-Claude Juncker — “La France… c’est la France” — parece perder validade no atual equilíbrio europeu.

Macron perde quadros e influência em Bruxelas

A fragilidade política do presidente francês abriu espaço para manobras dentro da própria Comissão Europeia. Três meses após a dissolução do Parlamento francês, von der Leyen afastou Thierry Breton, um dos mais influentes representantes de Paris em Bruxelas.

Breton foi substituído por Stéphane Séjourné, aliado histórico de Macron, mas visto como menos poderoso. Sua nova pasta, focada em estratégia industrial e mercado único, é consideravelmente mais limitada do que a anterior, que abrangia política digital, defesa e espaço.

Diplomatas europeus observam que a França passou a ser percebida como um país politicamente paralisado, ocupado com crises internas, dívida pública crescente e disputas partidárias.

Influência externa persiste, mas com limites

Apesar da derrota no Mercosul, Macron ainda exerce influência em temas estratégicos. A defesa da política de “Made in Europe” ganhou adesão de outros líderes como resposta à concorrência global.

Na política externa, o presidente francês também se destacou ao levantar a hipótese de envio de forças europeias à Ucrânia, ideia inicialmente rejeitada, mas que ganhou novo fôlego após o regresso de Donald Trump à presidência dos EUA.

Macron passou a dividir protagonismo com o primeiro-ministro britânico Keir Starmer, com quem lidera a chamada “Coligação dos Dispostos”, destinada a discutir garantias de segurança para a Ucrânia. Recentemente, ambos assinaram uma declaração de intenções com o presidente Volodymyr Zelenskyy.

Mercosul expõe o calcanhar de Aquiles de Macron

Ainda assim, o acordo UE–Mercosul revelou o ponto mais sensível da liderança de Macron: a política doméstica. A incapacidade de converter o peso histórico da França em influência efetiva mostrou que, hoje, o poder em Bruxelas depende menos do prestígio passado e mais da estabilidade interna.

O resultado marca uma virada simbólica: a França continua sendo um ator central da União Europeia, mas já não consegue impor vetos sozinha, e isso redefine o equilíbrio político do bloco.

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