A coalizão liderada pela primeira-ministra Giorgia Meloni sofreu um revés político na última terça-feira (14) após a Câmara dos Deputados da Itália rejeitar, por apenas um voto, uma emenda apresentada pela própria base governista durante a discussão da reforma eleitoral.
O texto, que previa a reintrodução do voto de preferência no novo sistema eleitoral italiano, recebeu 187 votos favoráveis e 188 contrários. A votação ocorreu de forma secreta, após solicitação da oposição, e expôs divisões internas entre os partidos que sustentam o governo.
Embora Lega e Forza Italia tenham declarado apoio à proposta antes da votação, o resultado indica que parte dos parlamentares da maioria votou contra a orientação oficial. Estimativas apontam que cerca de 30 deputados governistas romperam com a base durante a votação secreta. O Partido Democrático calcula 36 dissidentes, enquanto o líder da Lega na Câmara, Riccardo Molinari, fala em 31.
Emenda previa mudanças no sistema de votação
A proposta foi apresentada por Fratelli d’Italia, Noi Moderati e UDC e fazia parte da discussão sobre a reforma eleitoral. Entre as mudanças previstas estavam uma cédula com sete candidatos, o bloqueio do primeiro nome da lista e a possibilidade de voto de preferência com alternância de gênero.
O governo e os relatores da maioria haviam emitido parecer favorável ao texto, o que tornou a derrota ainda mais significativa para o Palácio Chigi.
Meloni reconhece falhas na própria coalizão
Após o resultado, Giorgia Meloni admitiu que a base governista não conseguiu reunir todos os votos necessários para aprovar a emenda e afirmou que o episódio exige uma avaliação política entre os aliados.
“Venceu de novo o pântano.”
A primeira-ministra também criticou a reação da oposição, que comemorou o resultado no plenário.
O clima de tensão entre os partidos da coalizão já havia sido antecipado pelo jornal Corriere della Sera, que relatou insatisfação de deputados da Lega, da Forza Italia e até mesmo de integrantes do Fratelli d’Italia em relação ao texto. O parlamentar Roberto Vannacci, da Lega, chegou a classificar a proposta como um acordo de bastidores que, segundo ele, enganava os eleitores.
Oposição cobra renúncia e defende nova eleição
Depois da derrota da maioria, parlamentares oposicionistas passaram a pedir eleições antecipadas dentro da Câmara, entoando gritos de “eleições, eleições” durante a sessão.
O ex-primeiro-ministro Matteo Renzi afirmou que o resultado evidencia o enfraquecimento da base governista.
“Meloni vá ao Quirinale imediatamente e renuncie.”
Já Giuseppe Conte, líder do Movimento 5 Estrelas, declarou que a própria coalizão retirou apoio político à chefe de governo.
“A base retirou a confiança da presidente do Conselho.”
A secretária do Partido Democrático, Elly Schlein, também criticou o governo.
“Fracassaram e é hora de irem para casa.”
Mesmo entre os aliados, houve reconhecimento do impacto político da derrota. Maurizio Lupi, líder do Noi Moderati, afirmou:
“O valor político do que aconteceu não se esconde.”
Governo permanece, mas derrota expõe fragilidade
Apesar da derrota, o resultado não representa automaticamente uma ameaça à permanência do governo Meloni. A votação tratava apenas de uma emenda ao projeto de reforma eleitoral e não de uma moção de confiança, mecanismo que poderia colocar oficialmente o Executivo em risco.
Após rejeitar um pedido para suspender os trabalhos, a Câmara deu continuidade à análise da reforma eleitoral ainda na noite de terça-feira, mantendo o calendário de novas votações secretas sobre o texto.