A mais de 9 mil quilômetros de Veneza, no interior do Rio Grande do Sul, existe uma cidade onde a herança da imigração italiana permanece viva não apenas na arquitetura, na culinária ou nas tradições familiares, mas também na língua falada pelas pessoas.
Em Serafina Corrêa, município com cerca de 15 mil habitantes, ainda é comum ouvir conversas em Talian, uma língua de origem italiana que nasceu no Brasil a partir dos dialetos levados pelos imigrantes que chegaram ao país no final do século XIX.
Em supermercados, praças, comércios, igrejas e reuniões familiares, muitos moradores alternam naturalmente entre o português e o Talian, preservando uma tradição linguística que atravessou gerações.
Hoje, a cidade é considerada um dos maiores símbolos da preservação da cultura ítalo-brasileira e uma referência nacional na valorização do patrimônio linguístico dos descendentes de italianos.
O que é o Talian?
Apesar de muitas pessoas o chamarem de “dialeto”, o Talian é reconhecido como uma língua.
Ele surgiu a partir da convivência entre milhares de imigrantes italianos que desembarcaram no Brasil a partir de 1875, principalmente vindos da região do Vêneto, mas também do Trentino, Lombardia, Friuli-Venezia Giulia e outras áreas do norte da Itália.
Naquela época, a unificação italiana ainda era recente. O italiano padrão era pouco utilizado pela população, enquanto a maioria das pessoas se comunicava por meio dos dialetos regionais.
Ao chegarem ao Brasil, esses grupos passaram a viver em colônias agrícolas relativamente isoladas. Como a maior parte dos imigrantes era originária do Vêneto, o dialeto vêneto tornou-se predominante e, ao longo das décadas, misturou-se com outras variedades linguísticas italianas e incorporou diversas palavras do português.
Desse processo nasceu o Talian, considerado pelos linguistas uma koiné, ou seja, uma língua formada pela fusão de diferentes variedades que evoluíram para um sistema comum de comunicação.
Serafina Corrêa tornou-se referência mundial
Fundada por imigrantes italianos, Serafina Corrêa possui uma população formada majoritariamente por descendentes desses pioneiros.
Em 1988, o município entrou para a história ao reconhecer oficialmente o Talian como língua cooficial ao lado do português, tornando-se uma das primeiras cidades brasileiras a adotar esse tipo de legislação.
O reconhecimento foi ampliado em 2009, quando uma nova lei fortaleceu as políticas públicas de preservação da língua.
Desde então, o município incentiva projetos culturais, ações educativas e eventos voltados à valorização do Talian, reforçando sua identidade ligada à imigração italiana.
Todos os anos, no fim de julho, a cidade realiza uma semana dedicada à cultura italiana, reunindo apresentações artísticas, gastronomia, música, teatro e atividades voltadas à preservação da língua.
Uma língua que continua presente no dia a dia
Ao contrário do que muitos imaginam, o Talian não sobrevive apenas em registros históricos.
A língua continua sendo utilizada por milhares de famílias do Sul do Brasil, especialmente entre as gerações mais antigas, mas também por jovens envolvidos em iniciativas de preservação cultural.
Em algumas localidades, ainda existem programas de rádio transmitidos em Talian, além de jornais, grupos de teatro, festivais culturais e celebrações religiosas realizadas parcialmente na língua.
Também há escolas e projetos educacionais que oferecem contato com o idioma, contribuindo para que ele continue sendo transmitido às novas gerações.
Segundo estimativas, mais de 500 mil pessoas falam Talian atualmente em cerca de 1.300 municípios brasileiros, principalmente nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Além disso, milhões de descendentes de italianos conseguem compreender parte da língua, mesmo sem utilizá-la diariamente.
O reconhecimento como patrimônio cultural
O trabalho de preservação do Talian ganhou força nas últimas décadas.
Em 2009, a língua foi reconhecida como patrimônio linguístico do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
Poucos anos depois, em 18 de novembro de 2014, o Ministério da Cultura declarou oficialmente o Talian como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
O reconhecimento marcou um momento histórico por ser a primeira língua de imigração do país a receber esse título em âmbito federal, destacando sua importância para a formação da identidade cultural brasileira.
Uma literatura própria
O desenvolvimento do Talian foi tão significativo que a língua criou sua própria produção literária.
Uma das obras mais conhecidas é “Vita e storia de Nanetto Pipetta”, publicada originalmente na década de 1920 e considerada um dos maiores clássicos da literatura em Talian.
O romance continua sendo reeditado e representa um importante registro da vida dos primeiros imigrantes italianos no Brasil, preservando expressões, costumes e modos de falar que atravessaram mais de um século.
Quando falar italiano era proibido
A trajetória do Talian também foi marcada por períodos de perseguição.
Durante o Estado Novo, sob o governo de Getúlio Vargas, a política de nacionalização proibiu o uso público de idiomas considerados estrangeiros.
Escolas comunitárias foram fechadas, jornais em italiano deixaram de circular, programas de rádio foram interrompidos e manifestações culturais ligadas às comunidades de imigrantes passaram a ser reprimidas.
Em diversas localidades, famílias deixaram de ensinar o Talian aos filhos por medo de punições ou discriminação.
Esse período provocou uma forte redução no número de falantes e interrompeu a transmissão natural da língua entre gerações.
A redescoberta da identidade ítalo-brasileira
A valorização do Talian começou a ganhar força novamente a partir das comemorações do centenário da imigração italiana no Brasil, em 1975.
Desde então, universidades, pesquisadores, associações culturais e administrações municipais passaram a desenvolver projetos voltados ao resgate da língua e da memória da imigração.
O reconhecimento oficial conquistado nas décadas seguintes impulsionou novas iniciativas de preservação e fortaleceu o orgulho de milhares de descendentes italianos espalhados pelo país.
Conexão entre Brasil e Itália
Mais de 150 anos após a chegada dos primeiros imigrantes italianos ao Brasil, o Talian permanece como uma das maiores demonstrações da força da herança cultural deixada por essas famílias.
Em cidades como Serafina Corrêa, a língua continua sendo muito mais do que um meio de comunicação. Ela representa memória, pertencimento e identidade, mantendo viva a ligação entre Brasil e Itália e mostrando que a imigração italiana continua presente não apenas nos sobrenomes, mas também nas palavras que ainda ecoam no cotidiano de milhares de brasileiros.
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