A demora na transcrição das certidões de cidadania italiana reconhecidas por decisão judicial segue como um dos maiores obstáculos para descendentes de italianos que já obtiveram sentença favorável na Justiça.
Apesar de o reconhecimento estar formalmente concluído, a etapa seguinte, que seria o registro da decisão nos livros do Ufficio dello Stato Civile do comune competente tem se convertido em uma espera prolongada e sem prazo definido.
Estrutura reduzida e aumento da demanda
Entre as justificativas mais recorrentes apresentadas pelas prefeituras italianas, sobretudo nas comunas de pequeno porte, está a limitação estrutural. Cidades com dois ou três mil habitantes operam com quadros enxutos, e é comum que um mesmo servidor acumule diversas atribuições administrativas.
Nos últimos anos, o crescimento expressivo das ações judiciais favoráveis à cidadania italiana elevou significativamente o número de decisões a serem transcritas. O resultado é a sobrecarga de estruturas que já funcionavam no limite.
Ainda assim, o problema não se restringe às pequenas localidades.
Atrasos também atingem grandes centros
Municípios de maior porte e com estrutura administrativa mais robusta também enfrentam acúmulo relevante de processos. O caso mais emblemático é o de Roma, onde circulam estimativas que apontam para cerca de 120 mil certidões aguardando transcrição.
O volume revela que a dificuldade vai além da falta de servidores em vilarejos do interior e expõe sinais de saturação no próprio sistema administrativo italiano, inclusive na capital do país.
Taxas mais altas, prazos indefinidos
Desde 1º de janeiro de 2025, os municípios italianos passaram a ter autorização para cobrar taxas de até 600 euros em processos administrativos de reconhecimento de cidadania e até 300 euros para emissão de certidões antigas.
A medida foi apresentada como alternativa para reforçar o orçamento das comunas e melhorar a eficiência dos serviços. Na prática, porém, advogados e requerentes relatam que os prazos continuam indefinidos e que as respostas oficiais seguem escassas.
Parte dos especialistas avalia que o aumento das cobranças não produziu efeito concreto na redução do estoque de transcrições pendentes. Além disso, declarações de autoridades locais indicando que as taxas também poderiam desestimular novos pedidos reacenderam críticas.
Segundo advogados da área, a medida tende a atingir de forma mais sensível os chamados oriundi, descendentes de italianos que vivem fora do país e exercem um direito garantido pela legislação italiana.
Entrave estrutural
A lentidão observada em muitos processos de reconhecimento da cidadania italiana tem origem em fatores que vão além da simples limitação de pessoal nos órgãos responsáveis. Especialistas da área apontam que o próprio funcionamento administrativo ainda carrega desafios históricos que impactam diretamente a agilidade das análises.
Entre esses obstáculos estão a digitalização incompleta de registros civis antigos, diferenças nos procedimentos adotados por cada comune italiano e rotinas administrativas que permanecem altamente burocráticas. Na prática, isso cria um ambiente pouco preparado para lidar com o crescimento constante das demandas judiciais ligadas ao reconhecimento da cidadania por descendência.
Nos últimos anos, o número de ações relacionadas ao tema aumentou de forma significativa, impulsionado pelo interesse de descendentes espalhados pelo mundo. No entanto, a estrutura administrativa responsável por analisar e executar essas decisões não avançou na mesma velocidade.
Como consequência, milhares de ítalo-descendentes permanecem aguardando a finalização de seus processos. Para alguns, a espera já ultrapassa meses; para outros, o desfecho pode levar anos, refletindo as limitações atuais do sistema.
Cooperação pode reduzir atrasos
Mesmo diante das dificuldades enfrentadas atualmente, especialistas apontam que algumas medidas operacionais poderiam contribuir para diminuir o tempo de tramitação dos processos de cidadania italiana, sem que isso dependa necessariamente de reformas legislativas ou de investimentos públicos de grande escala.
Uma das propostas discutidas no setor envolve uma colaboração mais direta entre advogados, consultores e as administrações municipais italianas responsáveis pelos registros civis. A ideia é tornar mais eficiente a etapa de transcrição dos documentos nos comuni, que costuma exigir grande volume de trabalho manual.
Uma possibilidade seria o envio prévio das traduções juramentadas e apostiladas no Brasil também em formato digital editável, permitindo que os funcionários dos municípios utilizem esses arquivos como base para conferência e validação das informações. Dessa forma, seria possível evitar a necessidade de redigitar integralmente os dados durante o processo de registro.
Atualmente, em muitos casos, os servidores precisam reescrever manualmente todas as informações nos livros de registro civil, o que torna o procedimento mais demorado e aumenta a possibilidade de erros materiais.
A disponibilização dos textos já estruturados em formato editável poderia acelerar essa etapa administrativa e representar uma forma de cooperação prática entre profissionais que atuam nos processos e as autoridades locais responsáveis pela formalização dos registros.
Em um contexto de alta demanda e estrutura limitada, iniciativas simples de organização e compartilhamento de informações podem contribuir para tornar o andamento dos processos mais ágil.
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