O Parlamento italiano decidiu não conceder isenção ampla da taxa consular para menores residentes no exterior que solicitam o reconhecimento da cidadania italiana. A medida foi aprovada a partir de uma proposta defendida pelo Movimento Associativo Italiani all’Estero, estabelecendo critérios mais restritivos e limitando o alcance do benefício fiscal.
A decisão ocorre no contexto das mudanças introduzidas pela Lei 36/2025 e reacende o debate sobre igualdade de direitos entre cidadãos italianos residentes no país e no exterior, especialmente no que diz respeito ao acesso à cidadania por descendência.
Corte fiscal com impacto jurídico e simbólico
Embora apresentada como uma escolha de racionalização orçamentária, a rejeição da isenção ampla vai além de um simples ajuste fiscal. Trata-se de uma decisão política que restringe direitos em um tema sensível como a cidadania, produzindo efeitos jurídicos, sociais e simbólicos que ultrapassam o debate contábil.
Ao optar pela limitação do benefício, o Estado italiano transfere para as famílias no exterior parte do custo de um sistema consular reconhecidamente sobrecarregado, sem enfrentar as causas estruturais da ineficiência administrativa.
Critério temporal cria cidadãos com direitos distintos
Com a aprovação do novo modelo, apenas menores nascidos após a entrada em vigor da Lei 36/2025 passam a ter direito à isenção da taxa consular de 250 euros. Crianças e adolescentes nascidos anteriormente continuam sujeitos à cobrança, ainda que se encontrem em situação jurídica idêntica.
Especialistas apontam que o critério temporal adotado cria uma fragmentação difícil de justificar do ponto de vista do direito. A cidadania italiana, que deveria representar um status jurídico contínuo e igualitário, passa a ser condicionada por marcos artificiais, estabelecendo categorias de cidadãos com tratamentos distintos perante a mesma legislação.
Sistema consular segue fora do debate
A decisão ocorre em um cenário marcado por filas prolongadas, atrasos excessivos e limitações estruturais da rede consular italiana no exterior. Ainda assim, propostas voltadas ao reforço de pessoal, modernização tecnológica e ampliação da capacidade administrativa continuam fora do centro das discussões parlamentares.
Na prática, a opção legislativa não corrige as falhas do sistema público. Em vez disso, repassa o ônus financeiro às famílias ítalo-descendentes, inclusive àquelas que buscam apenas o reconhecimento formal de um direito considerado originário.
Críticas no Parlamento e acusação de discriminação
Durante os debates, o senador Francesco Giacobbe classificou a medida como discriminatória. Para o parlamentar, a cobrança imposta a menores contradiz o próprio fundamento da cidadania italiana por descendência, que não deveria estar condicionada a barreiras econômicas seletivas.
A crítica expõe uma contradição central do modelo aprovado: se o Estado reconhece a cidadania como um direito que decorre do vínculo familiar e histórico, a imposição de taxas diferenciadas fragiliza o princípio da igualdade jurídica.
Distância entre discurso e prática institucional
O episódio reforça uma tensão recorrente na relação entre a Itália e sua diáspora. Enquanto o discurso institucional valoriza os italianos no exterior como parte integrante da identidade nacional, as decisões concretas indicam um movimento de contenção de direitos e restrição de acesso.
Iniciativas voltadas à ampliação de serviços consulares, fortalecimento cultural e aproximação com as comunidades ítalo-descendentes avançam lentamente, enquanto medidas restritivas encontram menos resistência no processo legislativo.
Um precedente com efeitos duradouros
Ao limitar a isenção da taxa consular para menores, o Parlamento não resolve o problema estrutural da cidadania italiana. A decisão apenas redefine quem arca com os custos da ineficiência administrativa e estabelece um precedente sensível.
Ao admitir a existência de cidadãos com menos direitos em razão de critérios temporais ou financeiros, o Estado enfraquece a noção de cidadania como vínculo permanente e igualitário. O risco apontado por críticos não está apenas na cobrança atual, mas na normalização de exceções que podem, no futuro, ampliar ainda mais as restrições.
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