Uma proposta de mudança nas regras para concessão da cidadania portuguesa transformou milhares de brasileiros em tema central de um intenso debate político no Parlamento de Portugal. O endurecimento da legislação, que altera prazos e critérios para a naturalização, tem mobilizado ativistas, advogados e parlamentares, além de gerar insegurança entre imigrantes que vivem legalmente no país há anos.
Brasileiros formam hoje a maior comunidade estrangeira em Portugal. Estima-se que mais de meio milhão de pessoas estejam diretamente impactadas pelas alterações em discussão.
O que muda nas regras de cidadania
O principal ponto de controvérsia envolve o aumento do tempo mínimo de residência exigido para solicitar a cidadania. A proposta prevê elevar o prazo de cinco para sete anos para brasileiros e cidadãos de países africanos de língua portuguesa.
Além disso, a contagem do tempo passaria a considerar apenas o período após a emissão da autorização formal de residência, desconsiderando os meses, ou até anos, de espera causados pela lentidão do sistema migratório.
Na prática, críticos afirmam que a mudança penaliza imigrantes que cumpriram todas as exigências legais, mas ficaram presos à burocracia estatal.
Brasileiras levam reivindicações ao Parlamento
A reação às mudanças chegou oficialmente ao Parlamento por meio de petições populares que reuniram milhares de assinaturas. Isso garantiu a realização de uma audiência na Comissão de Assuntos Constitucionais, onde representantes da comunidade brasileira apresentaram seus argumentos.
Durante a sessão, ativistas e advogadas destacaram que os imigrantes não são números em estatísticas, mas pessoas que trabalham, pagam impostos e escolheram Portugal como projeto de vida.
Governo e ultradireita caminham juntos
A proposta conta com o apoio do partido do primeiro-ministro Luís Montenegro e da legenda de extrema direita Chega, que defendem regras mais rígidas para o acesso à nacionalidade portuguesa.
Deputados governistas argumentam que a cidadania não deve ser automática e que as mudanças visam corrigir falhas administrativas e possíveis abusos do sistema.
Esse alinhamento entre centro-direita e ultradireita tem sido alvo de críticas de partidos de oposição e organizações civis.
Tribunal Constitucional entra no debate
Parte da lei aprovada anteriormente chegou a ser analisada pelo Tribunal Constitucional, que vetou alguns dispositivos, como a perda de cidadania em caso de crimes graves. No entanto, manteve os pontos relacionados ao tempo de residência, que agora retornam ao Parlamento para nova votação.
Isso mantém o clima de incerteza para milhares de imigrantes que aguardam definições legais.
Impacto direto na vida de famílias
As mudanças não afetam apenas adultos. Um dos pontos mais sensíveis é a alteração nas regras para filhos de imigrantes, que passam a depender de um tempo maior de residência legal dos pais para obter cidadania automática.
Especialistas alertam que a medida pode dificultar a integração de crianças e jovens que já cresceram em território português.
Comunidade brasileira acompanha com apreensão
Enquanto o debate segue no Parlamento, brasileiros em Portugal vivem um período de expectativa e ansiedade. Muitos já iniciaram processos de cidadania ou planejavam fazê-lo nos próximos meses.
Para advogados e entidades de apoio a imigrantes, o temor é que a nova lei represente um retrocesso em relação a políticas anteriores, que viam a imigração como parte estratégica do futuro demográfico e econômico do país.
A decisão final ainda depende de novas votações, mas o tema já expôs uma divisão profunda sobre qual caminho Portugal pretende seguir em relação à imigração e à integração de estrangeiros.
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