Referendo na Itália expõe divisão com América do Sul e impõe derrota a Giorgia Meloni

O referendo judicial realizado na Itália revelou uma divisão entre o país e eleitores no exterior. Enquanto os italianos rejeitaram a proposta, países da América do Sul registraram apoio expressivo ao “Sim”, refletindo fatores como desconfiança no Judiciário e influência política local.

O referendo judicial realizado nos dias 22 e 23 de março revelou uma divisão geográfica e ideológica marcante entre a Itália e comunidades de eleitores no exterior. Enquanto os italianos rejeitaram a proposta, impondo uma derrota política à primeira-ministra Giorgia Meloni, países da América do Sul registraram apoio expressivo à reforma.

O contraste é evidente: Venezuela (87,3%), Equador (81,8%) e Brasil (71,5%) apresentaram forte adesão ao “Sim”, em sentido oposto ao resultado geral na Itália, onde a proposta foi rejeitada pela maioria dos eleitores.

Voto no exterior e “espelhamento” político

Para especialistas ouvidos pelo portal Italianismo, o comportamento do eleitorado no exterior pode ser explicado por um fenômeno de “espelhamento” político.

Segundo o sociólogo Daniel Taddone, há um viés de confirmação na interpretação da proposta:

“O brasileiro identifica o ‘Sim’ como algo da direita e votou para regular os juízes, transportando a interpretação do caso brasileiro para o italiano”.

Ele destaca que muitos eleitores projetaram a realidade política brasileira, marcada por tensões entre setores da direita e o Judiciário — sobre o contexto italiano.

“As pessoas com pouco contato com o tema veem que alguma coisa vai regular os juízes e já fazem essa passagem da interpretação do caso brasileiro para o italiano”.

Taddone também aponta o papel das redes sociais e de influenciadores:

“A pessoa não sabe nada da política italiana, mas identifica o ‘Sim’ como sendo algo da direita, então vai lá e joga pelo sim”.

Crise de confiança no Judiciário

A explicação para o forte apoio na América do Sul também passa por um fator estrutural: a percepção de fragilidade institucional.

Em países onde há desconfiança em relação ao sistema de Justiça, propostas de reforma tendem a ser interpretadas como soluções necessárias. Nesse contexto, o voto favorável aparece como um desejo de mudança diante do status quo.

Debate sobre transparência e perfil do eleitor

O advogado Cristiano Girardello afirma que o chamado “voto ideológico” foi determinante no resultado entre eleitores sul-americanos. Ele também levanta questionamentos sobre o processo de votação no exterior:

“Temos um sistema eleitoral com pouca transparência e uma efetividade duvidosa. Infelizmente, votos no exterior podem ser manipulados facilmente por patronatos e associações”.

Girardello ainda destaca o perfil etário dos votantes como um fator relevante:

“Na Itália o não foi majoritário nas faixas mais jovens e na faixa dos mais velhos e nosso eleitorado participativo é formado exatamente por pessoas da faixa etária que votaram maioritariamente pelo sim”.

Reação política e insatisfação

Para o empresário Marcelo de Carvalho Fragali, ex-proprietário da RedeTV! e postulante ao Senado italiano, o resultado entre ítalo-brasileiros também reflete um posicionamento político.

“Nós soubemos votar pelo que é justo. Foi um tapa na cara do governo italiano. Se fôssemos tratados com respeito, seríamos os maiores aliados da Itália no mundo”.

Segundo ele, mesmo diante de insatisfações com medidas recentes, como restrições à cidadania, o eleitorado demonstrou alinhamento ideológico ao apoiar o “Sim”.

Derrota de Meloni

Na Itália, porém, o cenário foi outro. A maioria dos eleitores rejeitou a reforma judicial, que previa, entre outros pontos, a separação das carreiras de juízes e promotores, uma das principais bandeiras do governo.

O resultado representa o primeiro grande revés político de Meloni desde que assumiu o poder, enfraquecendo sua posição no cenário interno e abrindo espaço para a oposição.

Leia também: Itália realizou referendo sobre sistema judiciário nos dias 22 e 23 de março

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