O que antes era sinônimo de lentidão e frustração para milhares de descendentes de italianos ao redor do mundo agora começa a ganhar contornos inesperados.
O tribunal de Veneza, historicamente visto como um dos maiores gargalos do sistema judicial italiano, vive em 2026 uma transformação que muitos já chamam de “milagre”.
Nos primeiros três meses do ano, a corte já proferiu 4.304 sentenças, um número que, por si só, já seria expressivo. Mas o dado ganha ainda mais relevância quando comparado ao trimestre anterior, encerrado em 2025, que registrou cerca de 1.100 decisões.
O salto representa um aumento impressionante de 291,2% na produtividade em um intervalo extremamente curto.
O que mudou no Tribunal de Veneza
Durante anos, o tribunal foi alvo constante de críticas por parte de advogados e requerentes de cidadania italiana, especialmente brasileiros. Processos que deveriam levar meses se arrastavam por anos, criando uma fila praticamente interminável.
Em 2026, esse cenário começou a mudar, e não por acaso.
A transformação não foi espontânea, mas resultado direto de uma política pública com metas claras, prazos definidos e, sobretudo, incentivos financeiros.
O papel decisivo do PNRR
O principal motor dessa mudança é o Plano Nacional de Recuperação e Resiliência (PNRR), programa financiado com recursos da União Europeia para modernizar estruturas públicas italianas, incluindo o sistema judicial.
O plano estabelece metas rigorosas de redução do acúmulo de processos. Em troca, prevê incentivos financeiros para tribunais e magistrados que cumprirem os objetivos.
Na prática, isso alterou completamente a dinâmica de trabalho.
Juízes passaram a operar com foco em produtividade, priorizando a emissão de decisões em larga escala e reduzindo significativamente o tempo médio de tramitação.
Mais do que uma simples melhora administrativa, trata-se de uma mudança estrutural no funcionamento da justiça italiana.
A força-tarefa de juízes
Outro elemento central dessa transformação foi o reforço no quadro de magistrados.
O Tribunal de Veneza recebeu 22 juízes temporários, deslocados de outras regiões da Itália, como Roma e Caserta. Esses magistrados atuam exclusivamente na redução do estoque de processos, muitos deles ligados à cidadania italiana por descendência (iure sanguinis).
Esse modelo de “juízes emprestados” permitiu atacar diretamente o backlog, algo que antes parecia impossível dentro da estrutura tradicional.
Entre os destaques individuais, alguns nomes chamam atenção pelo volume de decisões:
- Fulvio Tancredi, com 537 sentenças
- Mauro Brambullo, com 394 decisões
- Anita Giuriolo, com 336 decisões
- Silvia Zeminian, com 315 decisões
- Giuseppina Zito, com 270 decisões
Entre os juízes deslocados, também se destacam:
- Sabrina Bonanno
- Marta Cappelluti
Os números individuais ajudam a dimensionar o ritmo acelerado da corte — algo raramente visto no sistema judicial italiano.
Impacto direto para quem busca a cidadania italiana
Para descendentes de italianos, especialmente brasileiros, o impacto é imediato.
O Tribunal de Veneza é um dos principais destinos de ações judiciais de cidadania italiana, sobretudo em casos que envolvem linhas maternas ou bloqueios administrativos.
Com o aumento da produtividade, a expectativa é de:
- Redução significativa no tempo de espera
- Maior previsibilidade nos processos
- Destravar milhares de pedidos acumulados
Isso pode representar uma mudança concreta na vida de quem aguarda reconhecimento há anos.
Mas o “milagre” tem prazo?
Apesar dos resultados impressionantes, especialistas alertam que esse ritmo pode não ser permanente.
Grande parte da aceleração depende diretamente dos incentivos do PNRR e da presença dos juízes temporários. Caso esses fatores sejam reduzidos ou encerrados, o sistema pode voltar a enfrentar dificuldades.
Além disso, o volume de novos processos continua alto, especialmente diante das incertezas jurídicas recentes envolvendo mudanças nas regras de cidadania italiana.