O primeiro turno das eleições municipais na França, realizado neste domingo, reforçou uma tendência que já vinha ganhando força nos últimos anos: o avanço consistente da extrema direita francesa em 2026 também no nível local, um terreno que historicamente enfrentava mais resistência.
Os resultados vão além da disputa por prefeituras. Funcionam como um verdadeiro ensaio geral para a eleição presidencial de 2027.
O crescimento do Rassemblement National
O grande protagonista desse avanço é o Rassemblement National (RN), liderado por Marine Le Pen e presidido por Jordan Bardella.
O partido, que nasceu como Front National em 1972, passou por um processo de rebranding e expansão eleitoral. Hoje, já é a maior força da Assembleia Nacional francesa e aparece como favorito em diversos cenários para 2027.
Os números das municipais confirmam esse crescimento:
- Mais de 500 listas ligadas ao RN ultrapassaram 10% dos votos
- O partido liderou em pelo menos 75 municípios
- O desempenho mais que dobrou em relação a 2020
Esse avanço mostra que o RN deixou de ser apenas um fenômeno nacional e passou a construir base sólida no território.
Interior forte, cidades grandes em disputa
Apesar do crescimento expressivo, o avanço ainda é mais consistente em cidades pequenas.
Grande parte das vitórias no primeiro turno ocorreu em municípios com menos de 10 mil habitantes, regiões onde o partido já vinha investindo há anos.
O verdadeiro teste, porém, está nas grandes cidades.
A disputa mais emblemática ocorre em Marselha, onde o prefeito socialista Benoît Payan lidera por margem apertada contra o candidato do RN, Franck Allisio.
Com múltiplos candidatos no segundo turno, o cenário é altamente imprevisível, e simboliza o momento político do país.
Em Nice, o aliado da direita Éric Ciotti também ganhou força, enquanto em Perpignan o RN consolidou sua presença com a reeleição de Louis Aliot já no primeiro turno.
Abstenção preocupa e favorece extremos
Outro dado importante foi a baixa participação.
A taxa de comparecimento ficou entre 56% e 58,5%, abaixo de eleições anteriores. Especialistas classificaram o número como um dos mais baixos da história recente da Quinta República.
Esse fator não é neutro.
A abstenção tende a favorecer partidos com eleitorado mais mobilizado — e o RN tem demonstrado exatamente essa capacidade. Seus apoiadores votam com maior disciplina, ampliando o peso eleitoral do partido mesmo em cenários de baixa participação.
O colapso das alianças tradicionais
Talvez o ponto mais crítico seja o enfraquecimento do chamado cordon sanitaire, a estratégia histórica de união entre partidos para barrar a extrema direita.
Esse mecanismo, que funcionou durante décadas, mostra sinais claros de desgaste.
A esquerda francesa está fragmentada entre o Partido Socialista e o La France Insoumise, liderado por Jean-Luc Mélenchon.
Em algumas cidades, como Toulouse, há tentativas de aliança. Em outras, como Paris, os partidos seguem divididos, o que pode beneficiar diretamente o RN.
Do lado da direita, o discurso já mudou. Bardella defende abertamente alianças com setores conservadores, tentando ampliar sua base e romper o isolamento político do partido.
Segurança e imigração dominam o debate
Os temas centrais da eleição ajudam a explicar o avanço da extrema direita.
Segurança pública, imigração e custo de vida aparecem como principais preocupações dos eleitores — áreas em que o RN construiu sua narrativa política.
Em cidades como Marselha, historicamente associadas a desafios urbanos e violência, esse discurso ganha ainda mais força.
O que esperar para 2027
O resultado das municipais não define o futuro político da França, mas aponta uma direção clara.
Pela primeira vez, o Rassemblement National tem base territorial, presença institucional e capital político suficientes para disputar o poder de forma consistente em todos os níveis.
Se o desempenho nas grandes cidades se confirmar no segundo turno, o partido pode chegar a 2027 não apenas como favorito, mas como uma força plenamente consolidada.