O racismo com Vinícius Júnior voltou ao centro do debate no futebol europeu depois de um incidente no Estádio da Luz, durante o jogo Benfica–Real Madrid, quando o brasileiro denunciou ter sido alvo de insultos racistas por parte de Gianluca Prestianni.
A UEFA confirmou a nomeação de um Inspetor de Ética e Disciplina para investigar o caso, que incluiu a ativação do protocolo antirracista e uma interrupção de cerca de dez minutos na partida.
O episódio aconteceu aos 50 minutos, pouco depois de Vinícius marcar um gol de belo efeito e celebrar junto à bandeirola de canto.
No momento seguinte, houve troca de palavras com jogadores do Benfica — em especial Prestianni — e Vini correu em direção ao árbitro François Letexier para relatar o que teria ouvido. Prestianni nega ter proferido insultos racistas.
O que aconteceu no Estádio da Luz
Após a denúncia, Letexier sinalizou o procedimento de combate ao racismo e chamou os capitães (Otamendi e Valverde) para explicar o protocolo, num processo que culminou numa paralisação temporária do encontro.
A situação elevou a tensão em campo, com discussões entre jogadores e relatos de que atletas do Real Madrid chegaram a ponderar abandonar o relvado.
O jogo foi retomado e terminou com vitória do Real Madrid por 1-0, mas o foco pós-jogo deslocou-se para a acusação e para o desfecho disciplinar.
UEFA abre inquérito e pode aplicar sanções
A UEFA informou que os relatórios oficiais do jogo estão a ser analisados e, caso existam elementos reportados, serão abertas as respectivas investigações — processo que, neste caso, já avançou com a nomeação de um inspetor para apurar os factos.
Se a acusação for comprovada, a punição pode ser pesada. O regulamento disciplinar da UEFA prevê que insultos discriminatórios (incluindo racismo) podem resultar em suspensão mínima de 10 jogos, além de outras sanções consideradas adequadas.
Reações de Mbappé a Mourinho, versões opostas e pressão pública
O avançado francês Kylian Mbappé foi a voz mais dura do lado do Real Madrid no pós-jogo. Ele afirmou que Prestianni teria chamado Vinícius de “macaco” repetidas vezes e defendeu punições exemplares, dizendo que tolerar esse tipo de conduta esvazia “os valores do futebol”.
Mourinho pede cautela e crítica a leitura automática
José Mourinho, por sua vez, contestou a leitura imediata do episódio como racismo sem confirmação objetiva do que foi dito. O treinador destacou que ouviu versões diferentes de Vinícius e de Prestianni e sugeriu que a celebração do brasileiro “mexeu com o estádio”, defendendo que um gol daquela qualidade deveria ser celebrado sem escalada de conflito.
Prestianni nega racismo e fala em mal-entendido
O argentino negou publicamente as acusações, dizendo que Vinícius “interpretou mal” o que teria escutado. Afirmou ainda ter recebido ameaças e garantiu que nunca foi racista “com ninguém”.
Histórico: por que o caso reacende o debate no futebol europeu
O caso na Luz somou-se a um histórico já longo de denúncias envolvendo Vinícius Júnior desde a sua chegada ao futebol espanhol. Entre os episódios mais citados estão:
- insultos no Camp Nou (2021), posteriormente arquivados por falta de identificação dos autores;
- cânticos e ataques verbais antes de jogos com o Atlético (2022), acompanhados do debate sobre “parar de dançar”;
- incidentes com insultos em Valladolid (2022), com punições a adeptos identificados;
- o boneco pendurado simulando enforcamento em Madrid (janeiro de 2023), caso que chocou o mundo;
- o episódio no Mestalla (Valencia, maio de 2023), considerado um ponto de viragem na pressão por medidas estruturais.
Esse histórico amplifica a repercussão de qualquer nova denúncia, porque coloca novamente em causa a eficácia das punições e dos protocolos no combate ao racismo no futebol.
O que pode acontecer agora
Com a investigação aberta, o desfecho passa a depender da recolha de elementos: relatórios do árbitro e delegados, eventuais imagens, áudio disponível, testemunhos e análise disciplinar.
Se houver comprovação do insulto racista, a UEFA pode avançar com sanção desportiva ao jogador e/ou outras medidas disciplinares. Se não houver prova suficiente, o caso tende a alimentar o debate sobre impunidade, limites da prova em campo e a execução prática do protocolo antirracista.