Europa acelera transição para edifícios de baixo consumo energético diante da meta de 2030

Europa acelera a transição para edifícios de baixo consumo energético diante da meta de 2030, com novas regras, crescimento do mercado verde e desafios para reformar um parque imobiliário envelhecido.

A Europa está acelerando sua transição para edifícios de baixo consumo energético, numa tentativa de cumprir as metas climáticas estabelecidas para 2030 e alcançar a neutralidade carbônica até 2050. 

O setor da construção, responsável por cerca de 40% do consumo total de energia no continente, se tornou um dos principais focos das políticas ambientais da União Europeia.

Os números evidenciam a dimensão do desafio: cerca de 85% dos edifícios europeus foram construídos antes de 2000 e aproximadamente 75% apresentam fraco desempenho energético. 

A partir de 2030, todas as novas construções deverão obedecer ao padrão de Edifícios com Necessidades Quase Nulas de Energia (nZEB), que exige elevado isolamento térmico, consumo mínimo de energia e uso predominante de fontes renováveis.

Mercado cresce, mas reformas avançam lentamente

O mercado europeu de construção sustentável está em expansão. Avaliado em US$ 181,55 bilhões em 2024, deverá atingir US$ 462,53 bilhões em 2033, com crescimento anual médio de 10,95%, impulsionado pelo aumento do custo da energia, por regulamentações ambientais mais rigorosas e pela maior conscientização ambiental da sociedade.

Um exemplo desse crescimento é a Olla Home Solution, empresa sediada na Toscana e especializada em edificações ecológicas.

Fundada durante a pandemia, a companhia registrou crescimento superior a 400% na receita entre 2020 e 2023, se tornando uma das empresas europeias de crescimento mais rápido em 2025.

Segundo o fundador, Samuel Olla, o sucesso esteve ligado à oferta de um serviço integrado, especialmente na gestão de processos administrativos relacionados a incentivos estatais. “O mercado estava em expansão, mas cheio de lacunas. Faltava quem cuidasse de todo o processo”, explica.

Superbônus italiano: estímulo e distorções

Grande parte do impulso inicial do setor em Itália esteve associada ao programa Superbônus, criado em 2020 como medida de estímulo pós-pandemia. 

O incentivo oferecia créditos fiscais de até 110% para obras de eficiência energética e reforço sísmico.

O impacto foi expressivo, mas controverso. Segundo análises do Banco da Itália e do CEPR, o programa contribuiu para um aumento dos custos da construção, com alguns materiais a registarem subidas superiores a 400%. 

O ex-primeiro-ministro Mario Draghi chegou a afirmar que o benefício “eliminou o incentivo para negociar preços”.

Diante do impacto fiscal, que chegou a representar até 4% do PIB italiano em 2023, o governo reduziu gradualmente o incentivo, que caiu para 65% em 2025, além de restringir a transferência de créditos fiscais. 

Em apenas três anos, o programa sofreu cerca de 90 alterações regulatórias, criando insegurança jurídica no setor.

Nova diretiva europeia impõe metas ambiciosas

A Diretiva de Desempenho Energético de Edifícios (EPBD), revista e aprovada em 2024, estabelece obrigações claras para os Estados-membros. 

A legislação entrou em vigor em maio de 2024 e deverá ser transposta para as leis nacionais até maio de 2026.

Entre as exigências estão a apresentação de Planos Nacionais de Renovação de Edifícios a cada cinco anos, com metas para 2030, 2040 e 2050. A União Europeia pretende reduzir o consumo energético em 11,7% até 2030, em comparação com as projeções feitas em 2020.

Alguns países avançam mais rapidamente. O Reino Unido lançou em 2024 um padrão piloto para edifícios de carbono líquido zero. Cidades como Amsterdã, Copenhague e Berlim apostam em bairros ecológicos certificados, integrando mobilidade sustentável, energia limpa e arquitetura verde.

Tecnologia e inteligência artificial ganham protagonismo

A incorporação de tecnologias inteligentes é um dos pilares da nova geração de edifícios de baixo consumo energético. 

Sistemas baseados em Internet das Coisas (IoT) e inteligência artificial permitem reduzir até 25% do consumo de energia e cerca de 20% dos custos de manutenção.

Essas soluções incluem automação de iluminação e climatização conforme a ocupação, manutenção preditiva e monitoramento da qualidade do ar. Em 2024, mais de 40% dos novos edifícios comerciais na Europa Ocidental já incorporavam sistemas avançados de automação.

Benefícios ambientais, mas desafios persistem

Entre 2005 e 2023, as emissões de gases de efeito estufa provenientes de edifícios na União Europeia caíram 43%, resultado da melhoria dos padrões de eficiência energética, da descarbonização da eletricidade e da modernização dos sistemas de aquecimento.

Apesar disso, a taxa anual de renovação energética permanece baixa, em torno de 1%, muito aquém do necessário para cumprir as metas de 2030. 

Especialistas alertam que, sem investimentos consistentes e políticas equilibradas, o ritmo atual não será suficiente para transformar o parque imobiliário europeu a tempo.

A experiência italiana mostra que incentivos são fundamentais, mas precisam ser acompanhados de planejamento fiscal, estabilidade regulatória e modernização da infraestrutura energética. 

Com o prazo de 2030 cada vez mais próximo, a Europa enfrenta uma verdadeira corrida contra o tempo para consolidar a transição para edifícios mais eficientes, sustentáveis e resilientes.

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