O percurso acadêmico e a escrita científica em Portugal podem ser excepcionalmente desafiadores para estudantes e pesquisadores imigrantes.
Pressão por produtividade, solidão, diferenças culturais e a ausência de orientação prática para a escrita científica estão entre os obstáculos mais comuns. Foi a partir dessa realidade que a investigadora brasileira Patrícia Anzini criou, há seis anos, o projeto Virando a Página.
Desde então, a iniciativa tem atraído mestrandos, doutorandos e jovens investigadores, sobretudo imigrantes, que buscam apoio para enfrentar as exigências da escrita acadêmica e o impacto emocional dessa etapa decisiva da vida universitária.
“A escrita acadêmica não precisa ser solitária; quando há comunidade, recursos e clareza, a página deixa de ser obstáculo”, afirma Anzini. “O objetivo é que cada investigador ou investigadora encontre autenticidade no seu texto e um ritmo sustentável, sem perder de vista a saúde mental e emocional que o percurso exige.”
Uma abordagem que vai além da técnica
Professora, investigadora e facilitadora de Biodanza na Academia, Patrícia Anzini explica que o Virando a Página combina técnica de escrita, consciência emocional e criação de comunidade.
A proposta surgiu da necessidade de oferecer suporte a estudantes e pesquisadores que chegam às universidades portuguesas sentindo-se sobrecarregados, bloqueados ou sem acompanhamento adequado para concluir dissertações, teses e artigos científicos.
Segundo a criadora, a metodologia do projeto assenta em três pilares centrais:
- Ferramentas estilísticas de escrita científica, com foco em clareza, estrutura e voz autoral;
- Uso consciente das emoções, reconhecendo bloqueios, ansiedade e exaustão como parte do processo;
- Construção de uma rede de prática e partilha, que combate o isolamento comum na pós-graduação.
Espaço de integração para imigrantes
A procura crescente de brasileiros recém-chegados a Portugal transformou o projeto também em um espaço de integração cultural.
Além das questões técnicas da escrita, o Virando a Página ajuda os participantes a lidar com as especificidades do português europeu, com as normas acadêmicas locais e com os desafios emocionais de viver e produzir conhecimento fora do país de origem.
Radicada em Portugal desde 2018, Patrícia Anzini é formada em Letras pela Universidade Estadual Paulista, possui mestrado em Estudos Literários realizado entre Brasil e Canadá e doutoramento em Literatura Comparada pela Northwestern University, nos Estados Unidos.
Da experiência pessoal ao apoio coletivo
A criação do Virando a Página foi fortemente inspirada na trajetória pessoal da pesquisadora.
Anzini relata ter vivenciado isolamento, precariedade e burnout ao longo do próprio percurso acadêmico, experiências que hoje orientam a construção de um ambiente mais acolhedor, humano e sustentável para quem escreve ciência.
“O que faltou para mim durante muitos anos é exatamente o que tento oferecer hoje: escuta, orientação prática e um espaço onde a escrita não seja vivida como sofrimento constante”, explica.
Atividades ao longo do ano
O projeto oferece treinos, workshops, retiros e mentoria individual em escrita científica, com atividades tanto online quanto presenciais ao longo do ano.
Os formatos variam conforme o nível acadêmico e as necessidades dos participantes, atendendo desde estudantes em fase inicial até pesquisadores em publicação contínua.
Informações sobre modalidades de participação, calendário e inscrições estão disponíveis no site oficial do projeto Virando a Página.
Num contexto de crescente internacionalização das universidades portuguesas, iniciativas como essa mostram que produzir ciência também passa por cuidado, pertencimento e construção coletiva, especialmente para quem atravessou fronteiras para estudar e pesquisar em Portugal.