Os descendentes de emigrantes trentinos ganharam um novo apoio político na Itália. O Conselho Provincial de Trento aprovou por unanimidade uma proposta que solicita ao Parlamento e ao Governo italiano a criação de uma nova norma para permitir o reconhecimento da cidadania italiana aos descendentes de pessoas que deixaram o território antes de 1918.
A aprovação reuniu votos da base governista e da oposição, um consenso considerado incomum na política italiana. Embora a medida não altere imediatamente a legislação, ela fortalece a pressão sobre Roma para que volte a discutir o tema após as mudanças promovidas pela reforma da cidadania de 2025.
Para milhares de famílias no Brasil, Argentina e outros países que receberam emigrantes trentinos, a decisão representa um importante avanço político na tentativa de reabrir um caminho que foi fechado pela legislação mais recente.
Por que os descendentes de trentinos enfrentam dificuldades?
O problema tem origem na própria história da região.
Até o fim da Primeira Guerra Mundial, o Trentino não fazia parte da Itália. O território integrava o Império Austro-Húngaro e somente passou a ser oficialmente italiano em 1919, após o Tratado de Saint-Germain.
Isso significa que milhares de pessoas que emigraram para países como Brasil e Argentina antes de 1918 deixaram a Europa quando ainda não eram juridicamente cidadãos italianos.
Como consequência, seus descendentes encontram dificuldades para comprovar a continuidade da cidadania exigida pelas regras tradicionais do jus sanguinis (direito de sangue), já que o antepassado nasceu em um território que, à época, ainda não pertencia à Itália.
Lei de 2000 já havia reconhecido essa situação
Essa não é a primeira vez que o Estado italiano discute essa questão.
Em 2000, foi aprovada a Lei nº 379, que criou um procedimento extraordinário para reconhecer a cidadania italiana de descendentes de emigrantes oriundos dos antigos territórios austro-húngaros incorporados posteriormente à Itália.
Graças à legislação, mais de 7 mil pessoas conseguiram obter o reconhecimento da cidadania italiana.
Entretanto, com a reforma promovida em março de 2025, as possibilidades de reconhecimento voltaram a ser restringidas, reacendendo o debate sobre a necessidade de uma nova solução legislativa para essas famílias.
Proposta busca corrigir uma “anomalia histórica”
O texto aprovado pelo Conselho Provincial foi apresentado pelo conselheiro Michele Malfer, do partido Campobase.
Segundo ele, o objetivo não é criar privilégios, mas reconhecer uma condição histórica específica enfrentada pelos descendentes de trentinos.
“Não pedimos privilégios territoriais, mas o reconhecimento de uma trajetória histórica particular.”
A proposta solicita formalmente que o Parlamento e o Governo italiano elaborem uma solução legislativa capaz de restaurar a possibilidade de reconhecimento da cidadania para essas famílias.
Mobilização começou em 2025
A aprovação é resultado de uma articulação política iniciada em setembro de 2025, quando Michele Malfer apresentou a proposta ao Conselho Provincial de Trento.
Meses depois, em fevereiro de 2026, o Conselho Regional do Trentino-Alto Ádige também aprovou um texto semelhante, defendendo a eliminação das restrições impostas pelo Decreto-Lei nº 36/2025 aos descendentes de emigrantes que deixaram a região antes de 1920.
Com a nova votação, tanto o Conselho Regional quanto o Conselho Provincial passam a defender oficialmente a mesma posição perante o governo italiano.
Governo provincial também declarou apoio
Durante a discussão da proposta, representantes do governo provincial destacaram a importância histórica da comunidade trentina espalhada pelo mundo.
O assessor provincial Mattia Gottardi ressaltou o valor cultural e identitário da iniciativa e lembrou que o tema também foi debatido durante a Conferência Mundial dos Trentinos no Mundo.
Já a conselheira Stefania Segnana citou a missão institucional realizada ao Brasil durante as comemorações pelos 150 anos da imigração trentina, enquanto Walter Kaswalder chamou atenção para as desigualdades criadas pela legislação atual, que, em alguns casos, permite que membros da mesma família tenham situações jurídicas diferentes.
Debate também abordou cidadania de filhos de imigrantes
Durante a sessão, alguns parlamentares aproveitaram a discussão para abordar outro tema relacionado à cidadania italiana: o reconhecimento da cidadania para filhos de imigrantes nascidos ou criados na Itália.
As conselheiras Francesca Parolari e Lucia Coppola defenderam uma ampliação das formas de reconhecimento do pertencimento ao país.
Por outro lado, os conselheiros Mirko Bisesti e Daniele Biada entenderam que os dois debates deveriam permanecer separados, por tratarem de situações jurídicas distintas.
Na conclusão da discussão, Michele Malfer voltou a defender que sua proposta trata exclusivamente da reparação de uma situação histórica específica.
“Não pedimos privilégios territoriais, mas o reconhecimento de uma trajetória histórica particular.”
O que muda na prática?
Apesar da aprovação unânime, a decisão não altera automaticamente a legislação italiana.
A chamada “proposta di voto” é um instrumento político utilizado pelos conselhos provinciais e regionais para solicitar formalmente que o Parlamento e o Governo nacional atuem sobre temas que não são de competência das administrações locais.
Na prática, o documento não obriga Roma a aprovar uma nova lei nem estabelece prazo para resposta.
Seu principal efeito é político: ao ser aprovado por unanimidade, o texto demonstra amplo consenso institucional e aumenta a pressão para que o governo italiano volte a discutir o reconhecimento da cidadania para descendentes de trentinos emigrados antes de 1918.
Agora, caberá ao Parlamento e ao Governo da Itália decidir se irão transformar esse pedido em uma proposta legislativa capaz de reabrir o caminho para milhares de famílias que aguardam uma solução desde a reforma da cidadania de 2025.
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