Os resultados mais recentes do Programa Internacional de Avaliação de Alunos – PISA acenderam um alerta sobre o desempenho escolar de adolescentes em diferentes partes do mundo. O relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico – OCDE aponta uma queda nas competências de leitura e matemática entre estudantes de 15 anos, com resultados que atingiram mínimos históricos nos países da organização.
A avaliação, divulgada na terça-feira, mostra que a deterioração é especialmente preocupante na compreensão de textos. Entre 2015 e 2025, a pontuação média em leitura caiu 28 pontos nos países da OCDE.
Este cenário já provoca reações de governos europeus, que começaram a discutir medidas para recuperar competências consideradas fundamentais para a formação dos estudantes.
O que o PISA avalia?
O PISA é uma avaliação internacional aplicada a estudantes de 15 anos para medir conhecimentos e competências em áreas como leitura, matemática e ciências.
Mais de 760 mil adolescentes de dezenas de países participaram da edição mais recente do programa. Os resultados permitem comparar o desempenho dos sistemas educacionais e identificar tendências ao longo do tempo.
Na União Europeia, Espanha, Croácia, Luxemburgo, Malta, Grécia, Romênia, Chipre e Bulgária ficaram abaixo da média da OCDE nas três áreas avaliadas: leitura, matemática e ciências.
Na outra ponta, Estônia, Finlândia, Irlanda, Áustria, Polônia e Chéquia apresentaram resultados médios superiores à média da organização.
Fora da Europa, China, Singapura, Taiwan, Japão e Coreia do Sul registraram as melhores classificações. Reino Unido e Nova Zelândia também apareceram entre os países com desempenho de destaque.
Queda na leitura preocupa especialistas
Embora matemática também apresente uma deterioração importante, foi a leitura que registrou a queda mais acentuada.
O relatório aponta que os resultados dos estudantes em leitura diminuíram 28 pontos entre 2015 e 2025 nos países da OCDE. A queda atingiu inclusive alunos de famílias mais abastadas.
A OCDE relaciona parte dessa deterioração a mudanças nos hábitos dos adolescentes, como o aumento do tempo diante de telas, a digitalização e a redução da leitura por prazer.
O próprio relatório chama atenção para o impacto dessa tendência em um momento de avanço da inteligência artificial.
“O mais preocupante é o declínio precisamente das competências que mais importam na era da inteligência artificial: avaliar informação, estabelecer ligações entre múltiplas fontes e pensar de forma crítica sobre o que lemos”, lê-se no relatório.
A preocupação não está apenas na capacidade de interpretar um texto. A compreensão leitora também é essencial para que o estudante consiga analisar informações, relacionar diferentes conteúdos e tomar decisões com base no que leu.
França vê excesso de telas como um problema
Na França, o ministro da Educação, Édouard Geffray, classificou a situação como uma espécie de “destruição cognitiva” entre os jovens e afirmou que o país precisa agir para tentar interromper a tendência.
Em entrevista ao jornal Le Monde, Geffray criticou o uso excessivo de redes sociais e chamou atenção para o tempo que alguns estudantes passam distraídos com o celular durante as aulas.
“Os jovens que passam três horas por dia no telemóvel durante as aulas, que estão distraídos mais de três horas por dia, perdem o equivalente a quase dois anos letivos”, afirmou, criticando o “consumo excessivo de redes sociais”.
O ministro também apontou as escolas de ensino básico como uma prioridade para os próximos anos.
“prioridade central do próximo quinquénio para aplicar as práticas pedagógicas mais eficazes”.
A declaração ocorre em meio ao debate europeu sobre como equilibrar o uso de tecnologias na educação e os efeitos da exposição excessiva a dispositivos digitais.
Espanha aponta compreensão leitora como prioridade
Na Espanha, os resultados do PISA também provocaram preocupação. Os estudantes espanhóis registraram seu pior desempenho desde o início da avaliação, em 2000.
A ministra da Educação, Milagros Tolón, afirmou que a dificuldade de compreender textos está na origem de problemas que ultrapassam a própria disciplina de língua.
“Temos de continuar a trabalhar a compreensão leitora, porque é a base de tudo. Se não se percebe o que se lê, é impossível resolver um problema de matemática, física, química ou qualquer outra disciplina”, declarou Tolón à rádio Cadena Ser.
A ministra também reconheceu que a queda no desempenho pode estar relacionada às novas tecnologias.
Segundo Tolón, a OCDE já apontou possíveis relações com o tempo de exposição às telas e com mudanças nos hábitos de leitura dos adolescentes.
“Isto pode ter a ver, como a OCDE já indicou, com o tempo de exposição aos ecrãs, hábitos de leitura apressados e superficiais e a crescente predominância de mensagens curtas na vida digital dos adolescentes”, acrescentou.
Desde 2024, a Espanha mantém programas de cooperação voltados ao reforço da compreensão leitora e da matemática.
Tecnologia: problema ou ferramenta?
Apesar da preocupação com celulares e redes sociais, os dados do PISA não indicam que toda utilização de tecnologia prejudique o aprendizado.
O relatório encontrou uma associação entre o uso de dispositivos digitais para lazer e resultados mais baixos. Por outro lado, quando a tecnologia é utilizada como ferramenta educacional, os efeitos são mais complexos.
Andreas Schleicher, diretor para educação e competências da OCDE, destaca justamente essa diferença.
“Há, sem dúvida, uma forte associação entre o uso de dispositivos digitais para lazer e resultados mais baixos nos testes.”
Segundo os dados apresentados, estudantes do ensino secundário que relataram utilizar dispositivos digitais entre duas e três horas por dia na escola apresentaram melhores resultados. No entanto, as pontuações começaram a cair quando o tempo de utilização ultrapassou esse nível.
Isso indica que o debate não é simplesmente sobre retirar a tecnologia da sala de aula, mas sobre como e quanto ela é utilizada.
Celulares também afetam a concentração em sala
A distração provocada por dispositivos digitais aparece como outro ponto relevante do relatório.
Mais de um quarto dos estudantes de países de elevado rendimento afirmou que os colegas se distraem com dispositivos digitais na maioria ou em todas as aulas de ciências.
O relatório também identificou níveis menores de distração em países que adotam políticas mais rigorosas para controlar o uso de celulares dentro das escolas.
A questão, portanto, envolve não apenas o tempo total diante das telas, mas também o contexto em que os dispositivos são utilizados.
Participação das famílias também caiu
A tecnologia, porém, não é o único fator analisado pelo PISA.
Um questionário complementar respondido pelos estudantes revelou uma redução, em comparação com 2022, no apoio das famílias à educação dos filhos em praticamente todos os países avaliados.
A queda foi especialmente observada entre os rapazes. Entre os indicadores analisados estavam comportamentos simples, como os pais perguntarem aos filhos sobre o dia na escola ou demonstrarem interesse pelo que estavam aprendendo.
Os dados sugerem uma relação importante entre esse envolvimento e o desempenho acadêmico.
Estudantes que afirmaram ter pelo menos uma vez por semana um familiar perguntando o que fizeram na escola naquele dia obtiveram cerca de 35 pontos a mais no teste de ciências do PISA do que aqueles cujas famílias demonstravam menos interesse.
A diferença equivale a mais de um ano e meio de aprendizagem e já considera ajustes relacionados às condições socioeconômicas dos estudantes.
Para Schleicher, a mudança na relação entre famílias e escolas também merece atenção.
“Os pais veem-se mais como clientes da escola, e não como alguém que assume um interesse pessoal”, afirmou.
Países começam a anunciar medidas
Os resultados do PISA já começam a produzir respostas em diferentes países europeus.
Na França, o governo sinaliza a necessidade de reforçar práticas pedagógicas consideradas eficazes, especialmente nas escolas de ensino básico.
Na Espanha, programas de cooperação voltados para leitura e matemática já estão em andamento desde 2024.
Nos Países Baixos, o cenário também preocupa. Segundo os resultados do PISA, quase quatro em cada dez crianças correm o risco de terminar a escolaridade com baixos níveis de literacia. O país apresentou desempenho abaixo da média europeia ao longo da última década.
A secretária de Estado da Educação dos Países Baixos, Judith Thielen, anunciou que pretende apresentar no outono um plano de ação para enfrentar os baixos níveis de literacia.
“É minha ambição travar esta tendência negativa e revertê-la”, afirmou. “Quero ver melhores resultados dentro de três anos.”
Um desafio que vai além da sala de aula
Os resultados do PISA colocam os sistemas educacionais diante de um problema que não parece ter uma única causa ou solução.
A queda nas competências de leitura e matemática ocorre ao mesmo tempo em que os adolescentes passam mais tempo conectados, os hábitos de leitura mudam e a participação das famílias na vida escolar diminui.
Ao mesmo tempo, os próprios dados mostram que a tecnologia não precisa ser necessariamente um obstáculo. Quando utilizada de maneira adequada para fins educacionais, ela pode fazer parte do processo de aprendizagem.
O principal desafio para os países europeus será encontrar um equilíbrio entre tecnologia, métodos pedagógicos, participação das famílias e desenvolvimento das competências básicas.
A preocupação ganha ainda mais peso em uma época em que a inteligência artificial torna cada vez mais importante saber interpretar informações, comparar fontes e pensar criticamente sobre aquilo que se lê.
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