Fim do acordo OAB Portugal impacta advogados brasileiros e vira objeto de estudo científico

Estudo analisa impacto emocional e profissional em advogados brasileiros após fim do acordo.

O fim do acordo de reciprocidade entre a Ordem dos Advogados do Brasil e a Ordem dos Advogados de Portugal, anunciado de forma unilateral em 2023, continua a gerar efeitos, não apenas jurídicos, mas também emocionais e sociais.

Agora, esse impacto começa a ser analisado de forma científica. A psicóloga brasileira Juliana Ribeiro de Souza Revoredo conduz um estudo que busca compreender as consequências dessa decisão na vida de advogados brasileiros que atuavam ou planejavam atuar em Portugal.

Uma ruptura que afetou carreiras e identidades

Durante anos, o acordo entre as duas ordens permitiu que advogados brasileiros exercessem a profissão em Portugal com maior facilidade, criando um fluxo constante de profissionais entre os dois países.

Com o fim abrupto dessa parceria, muitos viram seus planos interrompidos.

Segundo a pesquisadora, o impacto vai muito além da esfera profissional. Trata-se de uma ruptura que atinge diretamente a identidade desses profissionais.

A advocacia, nesse contexto, não é apenas uma carreira, é parte central da construção pessoal. Quando esse elemento é retirado de forma inesperada, surgem sentimentos profundos como:

  • Insegurança
  • Frustração
  • Perda de propósito
  • Desorientação profissional

Relatos compartilhados nas redes sociais e na imprensa ajudaram a evidenciar esse cenário, marcado por incerteza e sensação de injustiça.

O impacto psicológico da imigração interrompida

A pesquisa também lança luz sobre um aspecto muitas vezes negligenciado: o impacto psicológico de mudanças regulatórias na vida de imigrantes qualificados.

De acordo com Juliana, situações como essa ativam mecanismos profundos de estresse, levando os profissionais a questionarem sua própria identidade.

Isso acontece porque a carreira funciona como um eixo estruturante da vida adulta. Quando ela é interrompida, especialmente em contexto migratório, os efeitos podem ser ainda mais intensos.

Entre os fatores que agravam esse impacto estão:

  • Investimentos financeiros já realizados
  • Mudança de país ou planejamento de migração
  • Expectativas de crescimento profissional
  • Responsabilidades familiares

O resultado é um cenário que combina perda material com desgaste emocional.

Da experiência humana à pesquisa científica

O estudo faz parte do mestrado da pesquisadora na Universidade Europeia, na área de Psicologia Social e das Organizações.

A proposta é transformar relatos individuais em dados científicos, analisando três dimensões principais:

  • Identidade profissional
  • Expectativas de futuro
  • Estratégias de adaptação

A pergunta central da pesquisa busca entender como a forte identificação com a profissão influencia a capacidade de reconstrução de carreira após uma mudança brusca no ambiente regulatório.

Trata-se de um tema ainda pouco explorado academicamente, especialmente no contexto europeu.

Questionário aberto a participantes

Para reunir dados, foi criado um questionário direcionado a advogados brasileiros afetados pela decisão.

A participação é voluntária e confidencial, com o objetivo de documentar esse momento como um fenômeno histórico e social.

Segundo a pesquisadora, cada resposta contribui para dar visibilidade a uma experiência coletiva que, até agora, tem sido pouco sistematizada.

Um caso que vai além da advocacia

Embora o foco da pesquisa seja a advocacia, o tema dialoga com uma realidade mais ampla: a vulnerabilidade de profissionais estrangeiros diante de mudanças legais.

O caso evidencia como decisões institucionais podem impactar diretamente:

  • Projetos de vida
  • Mobilidade internacional
  • Estabilidade emocional

E levanta uma discussão importante sobre previsibilidade jurídica e proteção de profissionais em contextos migratórios.

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