O governo da Espanha e as autoridades de Ceuta fizeram novos apelos à calma nesta sexta-feira (28), após uma sequência de episódios violentos registrados no enclave espanhol no Norte da África. Os incidentes ocorreram em meio à crescente tensão entre moradores e migrantes que permanecem no território após a entrada em massa de pessoas vindas do Marrocos no fim de julho.
O ministro do Interior espanhol, Fernando Grande-Marlaska, afirmou ao Parlamento, em Madri, que a violência não pode ser utilizada para resolver a crise migratória que atinge Ceuta.
“Faço um apelo à calma e ao fim de todas as formas de violência, porque (…) a violência não é a solução para resolver um problema tão complexo”, declarou o ministro.
A declaração ocorreu um dia depois de manifestantes bloquearem veículos da Cruz Vermelha que transportavam água e alimentos para migrantes e de novos confrontos serem registrados entre pessoas que vivem no enclave e a polícia.
Tensão aumenta após chegada em massa de migrantes
Ceuta, território espanhol de apenas 18,5 quilômetros quadrados localizado no Norte da África, atravessa um dos períodos de maior tensão dos últimos anos.
Nos dias 30 e 31 de julho, cerca de 80 mil pessoas chegaram ao enclave vindas do Marrocos. A maioria deixou o território posteriormente, mas milhares ainda permanecem em Ceuta.
O número exato de migrantes que continuam no local é motivo de divergência entre as autoridades. O governo central, de esquerda, estima que aproximadamente 5 mil pessoas ainda estejam no enclave. Já as autoridades locais trabalham com uma estimativa de até 10 mil.
Ceuta tem cerca de 80 mil habitantes. Com a permanência dos migrantes, muitos deles passaram a circular pelas ruas e a dormir em acampamentos improvisados ou nas praias.
A situação provocou manifestações de moradores, que cobram a saída dos migrantes e afirmam estar preocupados com questões relacionadas à segurança.
Acampamento de migrantes é incendiado
Na quinta-feira (27), parte de um acampamento onde migrantes estavam abrigados foi incendiada na Praia de Benítez.
O local ainda era ocupado por pessoas que permaneciam em barracas improvisadas. O episódio ocorreu no mesmo dia em que outros protestos provocaram bloqueios à chegada de ajuda humanitária.
Cerca de cem manifestantes, muitos deles portando bandeiras da Espanha, impediram inicialmente a passagem de caminhões da Cruz Vermelha que se dirigiam à vizinha Praia de Trampolín para distribuir água e alimentos.
A organização humanitária conseguiu chegar ao local por uma rota alternativa depois da intervenção das forças policiais.
O bloqueio da assistência provocou críticas das autoridades, que reforçaram os pedidos para que os protestos não ultrapassem os limites da manifestação pacífica.
Doze marroquinos são detidos após confronto
Ainda na quinta-feira, outro episódio de violência foi registrado envolvendo migrantes e militares espanhóis.
Segundo as informações divulgadas pelas autoridades, 12 cidadãos marroquinos foram detidos depois de atirarem pedras contra um veículo que transportava quatro soldados espanhóis.
Um dos militares ficou ferido durante o ataque.
O episódio ocorreu em meio ao aumento da tensão no território, embora a noite de quinta-feira tenha transcorrido sem novos incidentes de maior gravidade.
As autoridades locais e o governo central condenaram os episódios e reforçaram a necessidade de evitar novos confrontos.
Presidente de Ceuta também condena violência
O presidente do governo local de Ceuta, Juan Vivas, do Partido Popular (PP), também pediu o fim dos atos violentos.
“Ninguém pode nem deve fazer justiça com as próprias mãos”, afirmou nesta sexta-feira.
Em uma declaração solene, Vivas rejeitou “nos termos mais veementes o uso de qualquer forma de violência”. Ao mesmo tempo, afirmou considerar “legítimos e totalmente justificados” os protestos que defendem o “retorno à normalidade” no enclave.
A posição do presidente local evidencia a tensão política em torno da crise. Enquanto as autoridades condenam episódios de violência, parte dos moradores continua pressionando o governo para que adote medidas para retirar os migrantes que ainda permanecem no território.
Direita exige repatriação dos migrantes
A crise migratória também ampliou o confronto político na Espanha.
O Partido Popular, principal força de oposição, classificou os episódios recentes como uma “consequência de um governo irresponsável” e defende a repatriação dos migrantes que continuam em Ceuta.
Setores da direita e da extrema direita também pressionam pela devolução imediata dessas pessoas ao Marrocos.
O governo central, entretanto, sustenta que não é possível realizar uma devolução coletiva sem antes analisar individualmente a situação de cada migrante.
Segundo o Executivo espanhol, é necessário verificar quais pessoas podem ter direito à proteção internacional ou ao pedido de asilo e quais podem ser devolvidas ao país de origem.
Esse processo exige tempo e análise individual dos casos.
Ministro acusa direita de alimentar tensão
Durante seu discurso no Parlamento, Grande-Marlaska criticou duramente os setores da direita e da extrema direita que vêm cobrando uma resposta mais rápida do governo.
O ministro acusou esses grupos de disseminarem desinformação e de utilizarem a crise migratória para obter ganhos políticos.
Segundo ele, há setores tentando “obter capital político com a situação ou, pior ainda, incitar o ódio e o confronto entre as pessoas nas ruas de Ceuta”.
Grande-Marlaska também reconheceu a dimensão do desafio enfrentado pelo país.
A chegada em massa de migrantes no fim de julho, segundo o ministro, representou “um dos maiores desafios recentes da Espanha” na área migratória.
Apesar da redução no número de pessoas que permanecem no território, ele afirmou que a situação ainda deve ser considerada uma “emergência”.
Governo enfrenta divergência sobre alertas de inteligência
Além da disputa sobre como lidar com os migrantes, o governo espanhol enfrenta uma divergência interna relacionada à preparação para a chegada em massa ocorrida no fim de julho.
A ministra da Defesa, Margarita Robles, afirmou que o Centro Nacional de Inteligência (CNI) havia alertado previamente sobre a possibilidade de uma entrada em massa de migrantes em Ceuta.
A declaração, porém, foi contestada por Grande-Marlaska.
O ministro evitou comentar diretamente o impasse durante seu pronunciamento desta sexta-feira, concentrando sua fala nos episódios de violência e na necessidade de preservar a ordem pública.
Ceuta continua sob tensão
Quase um mês depois da chegada de dezenas de milhares de pessoas vindas do Marrocos, Ceuta ainda enfrenta os efeitos da crise migratória.
Embora a maior parte dos migrantes já tenha deixado o território, milhares continuam nas ruas, em praias e em acampamentos improvisados.
Ao mesmo tempo, moradores mantêm protestos e cobram uma solução para a situação. O governo central defende que os pedidos de proteção e as possibilidades de retorno sejam analisados individualmente, enquanto a oposição pressiona por repatriações imediatas.
Diante da escalada dos últimos dias, as autoridades espanholas tentam evitar que a tensão se transforme em novos confrontos.
O apelo de Grande-Marlaska resume a posição do governo diante do cenário: “a violência não é a solução” para uma crise que envolve migração, segurança, pedidos de asilo e uma forte disputa política dentro da Espanha.
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