No ano em que Marilyn Monroe completaria 100 anos, a Cinemateca Francesa apresenta uma exposição que propõe um novo olhar sobre a atriz. Intitulada Marilyn Monroe: 100 anos!, a mostra percorre sua trajetória entre 1946 e 1962, reunindo filmes, figurinos e arquivos raros para discutir não apenas o ícone, mas a profissional por trás da imagem.
A proposta vai além da celebração. Em vez de reforçar o culto à estrela, a exposição questiona como Marilyn foi construída e frequentemente reduzida dentro do sistema de estúdios de Hollywood.
“Posso ser inteligente quando isso importa, mas a maioria dos homens não gosta disso.”
A frase, dita em Os Homens Preferem as Loiras e escrita por Anita Loos, sintetiza o paradoxo central da carreira da atriz: enquanto era celebrada como símbolo de desejo, sua capacidade artística era frequentemente subestimada.
Diretores também divergiam sobre sua imagem. Alfred Hitchcock afirmou que ela “carregava o sexo no rosto”, enquanto Henry Hathaway destacava “a inteligência de uma atriz extraordinária, que trabalha muito e quer sempre fazer melhor”. Entre essas visões opostas, desenvolveu-se uma carreira marcada por glamour, mas também por limitações impostas pela indústria.
No espaço expositivo, fotos de Eve Arnold, Richard Avedon e Andy Warhol ajudam a ilustrar como Hollywood produzia o brilho enquanto restringia a autonomia de suas estrelas.
A curadora Florence Tissot explica a proposta da mostra:
“mostrar qual estrela hollywoodiana Marilyn Monroe era, e o que isso significava na prática”
Ela também relata as dificuldades do processo:
“No começo, eu confesso que fiquei bem insatisfeita, porque a gente se depara com uma quantidade enorme de análises que acabam sempre voltando para a biografia dela, interpretando – ou até exagerando – a leitura da vida pessoal. No fim, dá um pouco a sensação de que a gente fica girando em círculo. Então tem também essa questão: como se posicionar diante de todos esses relatos. E depois, outra dificuldade que eu senti foi conseguir acesso aos arquivos”
Entre glamour, controle e resistência
A exposição começa antes da fama, quando Marilyn ainda era Norma Jean Baker. Fotografada como pin-up durante a Segunda Guerra Mundial, sua imagem já refletia as contradições da época.
Segundo Tissot, essas primeiras imagens revelam:
“toda a hipocrisia dos anos 50”
O contexto era marcado por transformações culturais nos Estados Unidos, como o surgimento da Playboy e o impacto do Relatório Kinsey, enquanto o rígido Código Hays limitava o que podia ser exibido no cinema.
Nesse cenário, Marilyn tornou-se o símbolo de uma sensualidade permitida, mas controlada. Ainda assim, ela própria criticava o estereótipo que a acompanhava:
“as pessoas associam as loiras, verdadeiras ou falsas, à estupidez. Não sei por quê. É uma visão muito limitada”
Apesar disso, o rótulo de “loira burra” moldou muitos de seus papéis iniciais.
Trabalho, talento e reconhecimento limitado
Longe da imagem de improviso, Marilyn investiu intensamente na formação artística. Antes mesmo de entrar para o Actor’s Studio, já estudava canto, dança e interpretação.
Como explica Tissot:
“Na verdade, desde o começo ela já fazia aulas, por vontade própria. Estudou canto, dança, interpretação e mímica e pantomima”
“Isso não é muito conhecido, mas é importante lembrar, sobretudo diante dessa imagem de atriz meio inconsequente que se criou em torno dela. Na prática, ela queria ser uma boa atriz – isso era fundamental para ela. Era uma pessoa muito determinada”
Mesmo em papéis pequenos, como em A Malvada, críticos identificaram nuances complexas em sua atuação. Ainda assim, sua dedicação foi frequentemente ofuscada por narrativas negativas dos bastidores, muitas vezes reforçadas por diretores como Billy Wilder.
Contratos abusivos e luta por autonomia
O sucesso não significou reconhecimento financeiro equivalente. Em 1953, Marilyn recebeu menos que Jane Russell em Os Homens Preferem as Loiras.
Segundo Tissot:
“Eram contratos abusivos”
“e Marilyn foi muito mal remunerada durante grande parte da carreira”
Ao longo dos anos, ela tentou mudar esse cenário, renegociando contratos e criando sua própria produtora. Ainda assim, continuou recebendo menos que colegas como Elizabeth Taylor.
Essa postura teve consequências. A indústria passou a retratá-la como instável e problemática, especialmente em filmes como A Loira Explosiva.
Entre transgressão e punição
Um dos momentos mais icônicos de sua carreira, a cena do vestido branco em O Pecado Mora ao Lado, ilustra essa tensão.
Segundo Tissot, a cena simboliza o conflito entre exposição e controle:
“O material promocional da estrela passa a se sobrepor à obra”
Ela conclui:
“No fundo, isso mostra toda a complexidade que envolve uma estrela como a Marilyn Monroe. Na França, algo parecido aconteceu com a Brigitte Bardot. É uma década cheia de contradições: ao mesmo tempo em que começa um movimento de emancipação das mulheres, existe um discurso constante que reduz essas figuras à sexualidade. E, no contexto norte-americano, isso se soma a um certo puritanismo. Então fica claro que a imagem da Marilyn Monroe está presa nessa espécie de armadilha”
Um mito maior que os arquivos
Nos últimos anos de vida, filmes como Quanto Mais Quente Melhor e Os Desajustados destacaram sua vulnerabilidade em cena.
Sua morte precoce, em 1962, aos 36 anos, interrompeu a carreira e deu início à construção contínua de seu mito. Segundo Tissot, a escassez de arquivos contribui para isso:
“Isso explica por que as lendas continuam tão fortes”
“Há excesso de discurso, mas pouco acesso aos documentos.”
A exposição busca justamente preencher essa lacuna, reposicionando Marilyn como atriz, profissional e figura histórica central para entender o funcionamento e as contradições de Hollywood.
A mostra fica em cartaz em Paris até 26 de julho de 2026.
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