A Europa segue em um ritmo acelerado de aquecimento e já supera, com folga, a média global. É o que aponta o 9º relatório do programa Copernicus, divulgado em 29 de abril, que reúne análises de cerca de 100 cientistas sobre o comportamento climático do continente em 2025.
No cenário global, o ano passado foi o terceiro mais quente já registrado, com a temperatura média do ar 1,47°C acima dos níveis pré-industriais. O índice fica atrás apenas de 2024 (+1,6°C) e 2023.
No caso europeu, os dados também impressionam. Dependendo da metodologia, 2025 aparece como o ano mais quente ou o terceiro mais quente da história recente. Além disso, entre 95% e 99% do território europeu enfrentou temperaturas acima da média registrada entre 1991 e 2020, evidenciando uma tendência consistente de aquecimento.
Segundo Samantha Burgess, do Serviço Copernicus de Mudança Climática, o fenômeno já é visível tanto na distribuição geográfica quanto na frequência dos eventos recentes, indicando uma intensificação da crise climática no continente.
Por que a Europa aquece mais rápido?
O relatório aponta que a Europa é o continente que mais se aquece desde os anos 1980, mais que o dobro da média global. Enquanto o planeta registra um aumento de cerca de 0,27°C por década, a Europa chega a 0,56°C no mesmo período.
Uma das principais explicações é geográfica. Como destaca Samantha Burgess:
“A primeira razão é geográfica”
“A Europa inclui uma parte da região Ártica. E o Ártico está se aquecendo três a quatro vezes mais rápido que a média mundial”
Esse efeito puxa a média do continente para cima. Regiões próximas ao Ártico, como a Fenoscândia, vêm registrando eventos extremos inéditos, incluindo longos períodos de calor intenso.
“De modo geral”, contextualiza a cientista, “a maior parte dessa região experimenta até dois dias de forte calor por ano, quando a temperatura percebida atinge 32 graus ou mais.”
Outro fator relevante é a mudança na circulação atmosférica, que intensifica e prolonga as ondas de calor:
“as mudanças na circulação atmosférica favorecem as ondas de calor. Elas são mais frequentes e mais intensas, do Mediterrâneo ao círculo polar ártico”
Curiosamente, a melhora na qualidade do ar também contribui para o aquecimento:
“Temos menos poluentes atmosféricos ou aerossóis. Ora, esses aerossóis formam nuvens que agem como um espelho: elas impedem que a energia solar atinja a terra. Agora que melhoramos a qualidade do ar, a refletividade das nuvens está reduzida. Portanto, recebemos mais radiação solar.”
A redução da cobertura de neve é outro elemento importante. Com menos superfícies claras refletindo luz e mais áreas escuras absorvendo calor, o aquecimento se intensifica, especialmente em regiões montanhosas. Esse processo também acelera o derretimento de geleiras e contribui para a elevação do nível do mar.
Eventos extremos e impactos crescentes
O aumento das temperaturas já tem reflexos diretos. Em 2025, 86% das águas europeias registraram ao menos uma onda de calor marinha, fenômeno que se tornou recorrente. No Mediterrâneo, metade da área enfrentou calor severo ou extremo.
A possibilidade de retorno do fenômeno El Niño também preocupa especialistas. Segundo Celeste Saulo, da Organização Meteorológica Mundial:
“A última atualização mensal do clima sazonal mundial da OMM mostra uma mudança clara no Pacífico equatorial. Isso significa que as temperaturas da superfície do mar estão aumentando rapidamente e sugerem um retorno provável das condições de El Niño já em maio ou julho de 2026.”
“Mas o nível de previsibilidade não é muito alto. É preciso esperar até maio para ver se esse El Niño evolui para um El Niño forte ou fraco. E todos nós conhecemos suas consequências. 2024 foi o ano mais quente já registrado por causa do El Niño.”
Além disso, o continente enfrentou uma sequência de eventos extremos. Tempestades e inundações deixaram mortos e milhares de afetados. Já os incêndios florestais consumiram cerca de 1 milhão de hectares, um recorde histórico.
A Península Ibérica foi uma das regiões mais atingidas. Após um período de chuvas intensas, o calor extremo transformou a vegetação em combustível para grandes incêndios.
“Portugal e Espanha tiveram uma primavera incrivelmente úmida. Houve muitas tempestades e inundações. A vegetação regional cresceu muito rapidamente.”
Com a chegada das altas temperaturas, a vegetação secou rapidamente, favorecendo a propagação do fogo.
Biodiversidade sob pressão e desafios energéticos
A crise climática também afeta diretamente os ecossistemas. Ambientes como turfeiras, importantes reservatórios de carbono, estão secando e se tornando altamente inflamáveis.
“Os incêndios podem se espalhar rapidamente e, sobretudo, arder sob a terra durante semanas ou até vários meses, sendo muito, muito difíceis de apagar”
No ambiente marinho, espécies sensíveis ao calor, como as pradarias de posidônia no Mediterrâneo, também estão ameaçadas.
Por outro lado, o aumento da radiação solar impulsiona a geração de energia renovável:
“Isso não é uma tendência nova, nós a observamos desde os anos 1980”
“Desde a lei europeia sobre a qualidade do ar, as concentrações de aerossóis diminuíram. A cobertura de nuvens também se reduziu.”
Apesar disso, o cenário hídrico preocupa. Os rios europeus registraram níveis abaixo da média na maior parte do ano, afetando a produção de energia hidrelétrica e o funcionamento de usinas.
Como alerta Carlo Buontempo:
“A hidreletricidade, enquanto forma de energia renovável, é um dos setores em que a ligação com o clima é mais importante. Portanto, é preciso se preparar para uma pressão maior durante os períodos de pico de demanda.”
Diante desse panorama, autoridades europeias reconhecem a necessidade de acelerar medidas de adaptação e mitigação climática, especialmente em setores estratégicos como energia, agricultura e infraestrutura
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