A Câmara dos Deputados da Itália aprovou, em primeira votação, uma ampla reforma da lei eleitoral que altera a forma como os parlamentares são eleitos e modifica a representação política dos italianos que vivem fora do país.
O texto recebeu 217 votos favoráveis, 152 contrários e duas abstenções e agora seguirá para análise do Senado. Caso seja aprovado também pelos senadores, o novo sistema poderá representar uma das maiores mudanças nas regras eleitorais italianas desde a criação do chamado Rosatellum, em 2017.
Entre os pontos que mais geraram debate está a reformulação da Circunscrição Exterior, responsável pela eleição dos representantes dos milhões de italianos residentes no exterior.
Como funciona atualmente a representação dos italianos no exterior?
Hoje, os cidadãos italianos que vivem fora da Itália elegem seus próprios representantes por meio de uma divisão em quatro áreas geográficas:
- Europa;
- América do Sul;
- América do Norte e Central;
- África, Ásia, Oceania e Antártida.
Esse modelo permite que comunidades com características e necessidades diferentes tenham representantes específicos no Parlamento italiano.
A reforma aprovada pela Câmara propõe uma mudança significativa nesse formato.
Exterior passará a ter apenas duas grandes áreas eleitorais
Pela nova proposta, as quatro circunscrições atuais da Câmara seriam reduzidas para apenas duas.
Uma delas reuniria os italianos residentes na Europa. A outra concentraria todas as demais regiões do mundo, incluindo Américas, África, Ásia, Oceania e Antártida.
Na prática, comunidades italianas que hoje possuem representação regional própria passariam a disputar vagas dentro de áreas eleitorais muito maiores.
A mudança também afeta o Senado. Atualmente, os senadores eleitos no exterior são escolhidos dentro das divisões geográficas existentes. Com a reforma, todos os eleitores italianos fora da Itália passariam a formar um único colégio eleitoral mundial para a escolha dos representantes no Senado.
Mudanças nas regras de escolha dos candidatos
A reforma também altera o sistema de voto preferencial para os italianos que vivem fora do país.
Na eleição para a Câmara, o eleitor poderá indicar:
- Uma preferência nas circunscrições que elegem apenas um deputado;
- Duas preferências nas áreas que elegem dois ou mais parlamentares.
No Senado, será possível indicar sempre duas preferências.
O texto ainda prevê que o governo terá três meses, após a eventual aprovação definitiva da reforma, para atualizar o regulamento da chamada Lei Tremaglia, norma que estabelece as regras do voto dos italianos no exterior.
O objetivo declarado é reforçar garantias relacionadas à liberdade, segurança e sigilo do voto.
Críticas: representantes dizem que comunidades menores podem perder espaço
A alteração provocou críticas entre parlamentares eleitos pelos italianos no exterior.
O deputado Fabio Porta, do Partido Democrata, afirmou que a mudança reduz a capacidade de representação das comunidades italianas espalhadas pelo mundo.
Segundo ele, unir regiões tão diferentes em grandes blocos eleitorais pode prejudicar comunidades menores e mais distantes, que teriam mais dificuldade para eleger representantes.
O parlamentar também relacionou a mudança a outras medidas recentes envolvendo os italianos no exterior, como a reforma das regras de cidadania italiana.
Para Porta, a representação política dos italianos fora do país deve considerar as diferenças históricas, culturais e sociais entre cada comunidade.
Governo defende mudança e fala em equilíbrio na representação
A avaliação da maioria governista é diferente.
O relator do projeto, Angelo Rossi, do Fratelli d’Italia, afirmou que a redução do número de parlamentares aprovada nos últimos anos criou desequilíbrios no sistema de representação dos eleitores que vivem fora da Itália.
Segundo o governo, a reorganização das circunscrições busca distribuir melhor o peso dos votos e adaptar o sistema ao novo número de cadeiras disponíveis no Parlamento.
Reforma também muda o sistema eleitoral italiano
Além das alterações para os italianos no exterior, o projeto modifica o funcionamento geral das eleições na Itália.
A proposta cria um modelo proporcional com prêmio de maioria. Pela regra, a lista ou coalizão que alcançar pelo menos 42% dos votos receberá um bônus de cadeiras: 70 deputados e 35 senadores, respeitando um limite máximo previsto pela legislação.
Caso nenhum grupo político alcance esse percentual, a distribuição das cadeiras continuará seguindo o sistema proporcional.
Fim dos distritos individuais e novas regras para primeiro-ministro
Outra mudança prevista é o fim dos chamados distritos uninominais, em que o eleitor escolhe diretamente um candidato específico.
Com a nova regra, o voto será direcionado às listas partidárias. Os partidos deverão indicar previamente quem será o nome apresentado para o cargo de primeiro-ministro, mas essa escolha não aparecerá diretamente na cédula eleitoral.
Próximos passos da reforma
A aprovação na Câmara é apenas a primeira etapa. O texto ainda precisa passar pelo Senado italiano antes de entrar oficialmente em vigor.
Se confirmada, a reforma deverá alterar tanto a dinâmica política interna da Itália quanto a forma como milhões de italianos que vivem no exterior participam das decisões políticas do país.
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