Morreu nesta sexta-feira (11), em Roma, aos 78 anos, a ex-ministra das Relações Exteriores da Itália Emma Bonino, uma das figuras mais emblemáticas e reconhecidas da política italiana das últimas décadas.
A morte foi confirmada pelo partido de centro +Europa, legenda fundada por Bonino em 2018. A política estava internada desde 7 de setembro no hospital Santo Spirito, na capital italiana. Na quinta-feira (10), havia deixado a unidade de terapia intensiva (UTI) e sido transferida para uma clínica privada. Seu estado de saúde era considerado delicado.
Conhecida pela atuação em defesa dos direitos civis, Bonino construiu uma carreira política de cerca de cinco décadas, marcada por campanhas pela legalização do aborto, defesa dos direitos das mulheres e dos migrantes, dignidade no fim da vida, legalização da maconha e oposição à energia nuclear.
Uma trajetória marcada pela luta pelos direitos civis
Libertária, laica e feminista, Emma Bonino nasceu em 9 de março de 1948, em Bra, na província de Cuneo, no norte da Itália, em uma família de camponeses.
Desde jovem, rompeu com as expectativas familiares. O pai desejava que ela se tornasse professora, mas Bonino seguiu outro caminho e estudou línguas e literaturas estrangeiras na Universidade Bocconi, em Milão. Sua formação acadêmica teve como tema uma tese sobre a autobiografia do ativista norte-americano Malcolm X.
Sua entrada na política esteve diretamente ligada a uma das principais causas que marcariam sua vida pública: o direito ao aborto.
Em 1974, Bonino procurou um consultório administrado pelo Partido Radical, em Florença, para interromper uma gravidez indesejada. Antes disso, um médico havia dito que ela era infértil.
A experiência a aproximou do movimento radical e de seus principais dirigentes, entre eles Marco Pannella e Gianfranco Spadaccia. Ao lado deles, passou a participar da campanha pela legalização do aborto na Itália.
Prisão e a campanha pela legalização do aborto
Em 1975, Bonino, Pannella e Spadaccia foram presos depois de praticarem abortos e se autodenunciarem às autoridades. A ação fazia parte de uma estratégia de desobediência civil para pressionar o Estado italiano a modificar a legislação.
A mobilização contribuiu para o processo que levou à aprovação, em 1978, da Lei 194, que regulamentou a interrupção voluntária da gravidez na Itália e permanece em vigor no país.
A defesa do direito ao aborto se tornou uma das marcas mais importantes da trajetória de Bonino. Ao longo dos anos, ela também passou a atuar em outras pautas relacionadas às liberdades individuais e aos direitos humanos.
Em entrevistas, Bonino afirmou que nunca quis ter filhos. Segundo ela, tornar-se mãe significava “dizer para sempre” e essa teria sido a única “coragem” que não teve ao longo da vida.
Da política italiana à atuação internacional
Ao longo de sua carreira, Emma Bonino ocupou alguns dos principais cargos da política italiana e europeia.
Foi vice-presidente do Senado italiano, comissária da União Europeia para a Saúde, ministra do Comércio Internacional e das Políticas da União Europeia e, entre 2013 e 2014, ministra das Relações Exteriores.
Em 1999, também apresentou sua candidatura à Presidência da República italiana. Embora não tenha sido eleita, sua candidatura representou um momento marcante, já que o chefe de Estado italiano é escolhido pelo Parlamento.
Bonino também teve atuação relevante em organismos internacionais e em campanhas relacionadas aos direitos humanos.
Ela participou da criação e da promoção do Tribunal Penal Internacional e atuou como delegada da Itália nas Nações Unidas em defesa da moratória da pena de morte.
Também fundou a associação “Non c’è pace senza giustizia” (“Não há paz sem justiça”), dedicada, entre outras questões, ao combate à mutilação genital feminina.
Defesa dos migrantes e outras causas
A atuação política de Bonino não se limitou à questão do aborto.
Ao longo de décadas, tornou-se uma das principais vozes italianas em defesa dos direitos dos migrantes, além de apoiar a legalização da maconha, a liberdade de escolha no fim da vida e a oposição à energia nuclear.
Sua atuação frequentemente a colocou em posições independentes em relação aos principais partidos e correntes políticas italianas.
Essa independência também fez com que Bonino fosse respeitada mesmo por adversários políticos.
Em 2011, a revista Newsweek incluiu seu nome entre as 150 mulheres consideradas capazes de “mover o mundo”.
Dois anos antes, em 2009, ela havia sido apontada como uma das candidatas à chefia do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), mas não conseguiu assumir o cargo.
A luta contra o câncer
Nos últimos anos, Bonino também enfrentou uma batalha contra o câncer de pulmão.
A ex-ministra conviveu durante cerca de oito anos com a doença e anunciou em 2023 que estava curada.
Durante o tratamento, após passar por radioterapia, começou a aparecer publicamente usando turbantes. O acessório acabou se tornando uma de suas marcas visuais mais reconhecidas.
Mesmo durante o período de tratamento, Bonino continuou participando do debate político italiano e mantendo sua atuação pública.
Repercussão após a morte
A morte de Emma Bonino provocou manifestações de pesar entre representantes de diferentes setores da política italiana.
A primeira-ministra Giorgia Meloni, que pertence a uma corrente política distante das posições defendidas historicamente por Bonino, prestou homenagem à ex-ministra nas redes sociais.
“Emma Bonino representou por décadas uma voz forte da política italiana, levando adiante suas ideias com determinação”, disse Meloni no X.
“Nossas histórias e sensibilidades eram distantes, mas isso nunca me impediu de reconhecer o peso e o papel dela na vida pública de nossa nação. Minhas condolências vão para sua família e seus entes queridos”, acrescentou.
Segundo Meloni, o governo italiano está tomando providências para que Bonino receba um funeral com honras de Estado.
A homenagem representa o reconhecimento oficial à trajetória de uma das personalidades mais influentes e controversas da vida pública italiana contemporânea.
Um legado que atravessa gerações
Ao longo de quase 50 anos de atuação política, Emma Bonino se tornou uma referência internacional na defesa das liberdades individuais e dos direitos civis.
Sua trajetória foi marcada tanto por conquistas políticas quanto por derrotas eleitorais e institucionais, mas também pela disposição de defender pautas que, em diferentes momentos, permaneciam à margem do debate político tradicional.
Da campanha pela legalização do aborto nos anos 1970 à defesa dos direitos dos migrantes e de outras liberdades individuais, Bonino manteve uma atuação caracterizada pela independência e pela continuidade de suas convicções.
A ex-ministra deixa um legado que ultrapassa os cargos que ocupou e permanece associado a algumas das principais transformações sociais e debates sobre direitos civis na Itália contemporânea.
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