m hospital público de referência em Portugal está testando uma mudança que pode transformar a relação entre pacientes, animais de estimação e ambiente hospitalar.
Desde julho, o Hospital de São João, no Porto, permite que cães, gatos e até alguns animais considerados exóticos visitem pacientes diretamente nas enfermarias. A iniciativa, chamada “Pets and Company”, foi criada para ajudar a reduzir o isolamento provocado por internações prolongadas e oferecer conforto emocional aos pacientes.
A proposta parte de uma ideia simples: para muitas pessoas, o animal de estimação é parte da família. Por isso, ficar semanas ou meses internado também significa ficar longe de uma presença afetiva importante.
O projeto reúne profissionais do programa One Health São João, da Unidade de Prevenção e Controle da Infecção e Resistência aos Antimicrobianos e do serviço de Humanização do hospital.
Como funciona a visita dos animais?
As visitas não estão disponíveis automaticamente para todos os pacientes.
O pedido precisa ser feito por um médico ou enfermeiro responsável pelo paciente, que avalia se o encontro pode trazer benefícios. Depois, a equipe do projeto analisa individualmente os riscos e verifica se existem condições adequadas para a visita.
Também é necessário levar em consideração os outros pacientes internados na mesma área. Eles são consultados para saber se estão confortáveis com a presença do animal.
Se a visita for autorizada, a família precisa apresentar um atestado médico-veterinário comprovando que o animal está com vacinação e desparasitação em dia.
Além disso, o comportamento do animal também é avaliado.
“Qualquer profissional, desde o segurança ao médico ou enfermeiro, que verifique que alguma coisa não está de acordo com o protocolo pode interromper a visita”, afirma Filipa Ceia, porta-voz do Grupo One Health São João.
Quais animais podem entrar?
O projeto permite a entrada de cães, gatos e até espécies mais exóticas, desde que todos os requisitos de segurança sejam cumpridos.
Enquanto estiver dentro do hospital, o animal precisa permanecer acompanhado por um adulto.
Também existem situações em que a visita é imediatamente interrompida.
Se o animal estiver “ansioso” por causa do “barulho da enfermaria”, apresentar comportamento “agressivo” ou estiver “visivelmente sujo”, a visita é “imediatamente abortada”, explica Filipa Ceia, que também é médica infeciologista e veterinária.
Cada visita dura aproximadamente 30 minutos e pode ocorrer uma vez a cada sete dias.
O projeto dá prioridade principalmente a pacientes em internamentos prolongados ou em fase terminal, para os quais a presença do animal pode ter um significado emocional ainda maior.
Por que o hospital decidiu permitir os animais?
A presença de animais em ambientes de saúde não é uma ideia nova.
Intervenções assistidas por animais são utilizadas há décadas e já foram estudadas em diferentes contextos. Pesquisas indicam que essas interações podem contribuir para a redução da pressão arterial e para a diminuição de respostas relacionadas ao estresse e à ansiedade.
No caso dos próprios animais de estimação, a equipe do São João acredita que o benefício emocional pode ser ainda maior justamente porque existe uma relação afetiva prévia entre o paciente e o animal.
A intenção, portanto, não é simplesmente permitir uma visita diferente. O objetivo é utilizar esse vínculo como parte do processo de humanização do atendimento hospitalar.
Um reencontro que mostra o objetivo do projeto
Um dos encontros acompanhados pela Euronews foi entre António, de 65 anos, e sua cadela, Princesa.
O homem está internado há cerca de três meses para fazer reabilitação devido a dificuldades de equilíbrio e de locomoção. A cadela foi resgatada da rua e passou a fazer parte da família há cinco anos.
Quando Princesa chegou ao hospital, a reação dos dois foi imediata.
“O coração bateu muito de alegria. É como se fosse família. É uma filha para mim”, contou António.
Depois do reencontro, o paciente também relatou uma sensação de motivação para continuar a recuperação.
“Parece que quero andar melhor e tudo. Isto é o gozo que uma pessoa tem”, afirmou.
Para Filipa Ceia, momentos como esse podem contribuir para o tratamento.
Os reencontros proporcionam “sorrisos, colaboração no tratamento e um incentivo a sair do hospital”, além de possíveis benefícios para os próprios animais e para os profissionais de saúde.
Homens são os que mais pedem as visitas
Embora o número de casos ainda seja pequeno e não permita conclusões definitivas, uma característica chamou a atenção da equipe: os pacientes homens são os que mais têm solicitado a presença dos animais.
Filipa Ceia acredita que isso pode estar relacionado à forma como alguns homens lidam com a própria vulnerabilidade durante uma doença.
“Provavelmente a fragilidade nos homens doentes é maior. Eles apercebem-se de que há coisas com muita importância na vida e querem tê-las por perto durante o internamento”, afirma.
E o risco de infecções?
Essa é uma das principais questões quando se fala em permitir animais dentro de um hospital.
O projeto foi criado justamente para tentar equilibrar o benefício emocional das visitas com as exigências de controle de infecções.
Desde o início da iniciativa, não houve registro de infecções relacionadas às visitas, segundo a equipe responsável.
O protocolo estabelece várias barreiras de segurança: avaliação individual do paciente, autorização da equipe de saúde, avaliação do animal, vacinação e desparasitação atualizadas, acompanhamento permanente por um adulto e possibilidade de interrupção imediata da visita caso alguma regra seja descumprida.
Para Filipa Ceia, o risco de transmissão de doenças entre animais e humanos pode ser superestimado em determinadas situações.
“Há um receio excessivo de transmissão de zoonoses que depois não se corrobora nos estudos”, afirma.
Segundo a médica, “é mais fácil a transmissão da maioria das doenças de humano para humano do que de um animal para um humano”.
Ela também destaca que o paciente continuará convivendo com seu animal depois de receber alta.
“Como tentamos ao máximo que a segurança seja preservada e como o doente, quando for para casa, vai conviver com o seu animal, o risco é mesmo residual. Temos de perceber se, para mitigar o risco, não estamos a impedir os doentes de terem o benefício”, reforça.
Um modelo diferente do adotado em outros países
A experiência do São João também chama atenção porque segue um caminho diferente do adotado em algumas regiões do norte e centro da Europa.
Em vários hospitais, as regras são mais restritivas e as visitas de animais particulares costumam ocorrer apenas em situações específicas, principalmente para pacientes em cuidados paliativos ou internamentos prolongados.
Na Bélgica, por exemplo, o Hospital Sint-Trudo criou um pavilhão separado do edifício principal para permitir que pacientes terminais ou internados por longos períodos encontrem seus animais. Os bichos entram no espaço por uma área externa e não podem circular pelo interior do hospital.
O São João escolheu outra estratégia: em vez de criar uma estrutura isolada, desenvolveu um protocolo próprio para permitir que os animais entrem em determinadas áreas do hospital sob condições controladas.
Um possível novo paradigma para os hospitais?
A experiência portuguesa ainda está em fase inicial e deverá ser avaliada posteriormente pela própria equipe para identificar possíveis falhas e aperfeiçoar os procedimentos.
Mas a proposta levanta uma discussão maior sobre o papel da humanização na assistência médica.
Durante uma internação longa, o paciente não deixa de ter vínculos familiares, afetivos e sociais. Para quem possui um animal de estimação, a separação pode representar mais uma fonte de sofrimento justamente em um momento de fragilidade.
A proposta do Hospital de São João tenta encontrar um ponto de equilíbrio: não ignorar os riscos sanitários, mas também não tratar o animal como algo necessariamente incompatível com o ambiente hospitalar.
Como resume Filipa Ceia, a questão é avaliar se as medidas de segurança conseguem preservar o benefício emocional sem aumentar de forma relevante o risco para pacientes e profissionais.
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