Protestos estudantis levam centenas de milhares às ruas na França

Centenas de milhares de estudantes protestaram na França contra cortes de verbas, falta de professores e problemas na infraestrutura das escolas. As manifestações também tiveram apoio de universitários, sindicatos e setores da esquerda.

Centenas de milhares de estudantes participaram na terça-feira (6) de uma nova jornada de protestos em diferentes regiões da França. O movimento, iniciado em setembro entre estudantes do ensino médio, ganhou força nas últimas semanas com a adesão de universitários, sindicatos e organizações políticas de esquerda.

Segundo o Ministério do Interior francês, mais de 250 mil pessoas participaram das manifestações em todo o país, sendo 56 mil em Paris. As organizações estudantis, porém, apresentaram uma estimativa maior: 450 mil participantes nacionalmente e 100 mil na capital francesa.

Os protestos devem continuar nesta quarta-feira (7), segundo as entidades que organizam a mobilização.

A principal reivindicação dos estudantes está relacionada à situação das escolas e universidades, com críticas à falta de investimentos, à precariedade da infraestrutura, às salas superlotadas e à ausência de professores para substituir profissionais afastados.

“Há pessoas da periferia, pessoas de Paris, alunos de escolas privadas e públicas, de todas as religiões e origens. Isso nos une porque sentimos que há necessidade de mudança”, afirmou à AFP Diane, estudante do segundo ano do ensino médio em Paris.

Outra manifestante, Lilia, de 19 anos, resumiu o sentimento de parte dos jovens durante os atos.

“A geração Z está se levantando e quer ser ouvida”, declarou à AFP.

A estudante também fez críticas às prioridades do governo francês. “Em vez de financiar guerras, ele deveria investir no próprio país”, disse.

Cerca de 900 escolas tiveram atividades afetadas

A mobilização teve impacto direto no funcionamento das instituições de ensino.

De acordo com o Ministério da Educação da França, quase 900 das cerca de 3.700 escolas de ensino médio do país tiveram as aulas suspensas ou foram afetadas pelos protestos na terça-feira. O número corresponde a aproximadamente um quarto dos estabelecimentos.

As universidades também aderiram ao movimento. Cerca de 40% das instituições públicas de ensino superior foram afetadas pela mobilização.

Os bloqueios de escolas começaram em meados de setembro nos arredores de Paris e, desde então, se espalharam para outras cidades.

Entre as reclamações estão a falta de professores para substituir profissionais ausentes, a precariedade das instalações e o excesso de alunos nas salas de aula. Os estudantes também protestam contra medidas de redução de gastos públicos que, segundo eles, podem atingir diretamente a educação e os jovens.

Protestos tiveram apoio de sindicatos e esquerda

A mobilização estudantil recebeu apoio de sindicatos de professores e de diferentes representantes da esquerda francesa.

Entre os políticos que participaram ou manifestaram apoio aos atos estão Jean-Luc Mélenchon, líder do partido França Insubmissa; Marine Tondelier, líder do partido ecologista; e Olivier Faure, primeiro-secretário do Partido Socialista.

Familiares de estudantes também participaram de alguns protestos, inclusive com o objetivo de acompanhar os jovens durante as manifestações.

Apesar de a maior parte dos atos ter ocorrido sem incidentes graves, confrontos foram registrados em Paris e em outras cidades, como Lyon, Nantes, Rennes e Toulouse.

Quase 500 pessoas foram detidas

Em Paris, a manifestação terminou por volta das 18h locais de terça-feira. Nas proximidades da Praça da Nação, no sudeste da capital, policiais cercaram algumas avenidas para dispersar os manifestantes.

Segundo as autoridades de segurança, aproximadamente 300 pessoas consideradas hostis entraram em confronto com policiais. Doze pessoas foram detidas na capital.

Em todo o país, o Ministério do Interior informou que 488 pessoas foram detidas durante a jornada de protestos. Ao menos 43 integrantes das forças de segurança ficaram feridos.

As manifestações também foram marcadas por denúncias de violência policial. Até o momento, 11 investigações foram abertas para apurar possíveis abusos cometidos durante os atos.

Entre os casos citados pelas organizações está o de um estudante de 16 anos que perdeu a visão de um dos olhos durante um protesto em Tours, na semana passada.

Outro episódio ocorreu na segunda-feira (5), quando um adolescente de 15 anos teve uma das mãos amputada após a explosão de uma granada lançada pela polícia em Lens, no norte da França.

Em Metz, uma estudante de 14 anos também denunciou uma abordagem policial durante a qual seu corpo teria sido apalpado enquanto ela era imobilizada. O momento foi filmado e provocou reações nas redes sociais.

Governo acusa oposição de tentar criar instabilidade

Diante do crescimento da mobilização, o governo francês tenta conter os protestos.

Em discurso na Assembleia Nacional, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu pediu que os estudantes retornassem às escolas nesta quarta-feira (7). Segundo ele, os estabelecimentos poderiam promover um “momento de democracia interna” com os alunos.

O primeiro-ministro também acusou setores da esquerda radical de tentar “tumultuar o país” às vésperas das eleições presidenciais previstas para abril e maio de 2027.

Lecornu afirmou que existe um “projeto político” para “semear o caos” e condenou os episódios de violência registrados durante as manifestações.

“Não podemos abrir espaço para a tolerância à violência”, afirmou o primeiro-ministro.

O governo também rejeitou as acusações de que esteja promovendo uma política de repressão contra os estudantes.

Macron reúne ministros para avaliar crise

O presidente francês, Emmanuel Macron, convocou uma reunião no Palácio do Eliseu na noite de terça-feira para avaliar a situação.

Participaram da reunião o primeiro-ministro Sébastien Lecornu, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, e o ministro da Educação Nacional, Édouard Geffray.

A preocupação do governo ocorre em meio a um cenário político e econômico delicado na França, marcado por pressões sobre as contas públicas, debates sobre cortes de gastos e aumento do custo de vida.

Para os estudantes, porém, as questões econômicas se refletem diretamente na vida escolar e nas perspectivas para o futuro.

Movimento deve continuar nesta quarta-feira

As organizações que representam estudantes do ensino médio e universitários afirmaram que pretendem manter a mobilização.

O movimento, que começou com bloqueios de escolas em setembro e ganhou dimensão nacional, agora reúne diferentes setores em torno de reivindicações relacionadas à educação, aos investimentos públicos e às condições de vida dos jovens.

Com a continuidade dos protestos nesta quarta-feira (7), o governo francês enfrenta o desafio de conter a mobilização sem ampliar a tensão nas ruas.

A dimensão dos próximos atos poderá indicar se o movimento estudantil continuará crescendo e se transformará em uma crise social mais ampla no país.

 

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