Aluguéis caros e imóveis vazios deixam italianos sob risco de despejo

Alta dos preços, redução da oferta nas áreas mais disputadas e milhões de habitações sem moradores expõem o problema habitacional na Itália

A Itália enfrenta um problema habitacional marcado por um paradoxo: enquanto milhões de imóveis permanecem sem moradores, encontrar uma casa para alugar a um preço compatível com a renda se tornou cada vez mais difícil em grandes cidades e regiões turísticas.

Os preços dos imóveis continuam avançando, os aluguéis seguem sob pressão e milhares de famílias enfrentam dificuldades para manter suas despesas com moradia. Em 2024, mais de 40 mil ordens de despejo foram emitidas no país, segundo dados do Ministério do Interior citados pelo Senado italiano.

O cenário ganhou destaque nesta semana após uma reportagem do jornal La Repubblica apontar que cerca de 100 mil pessoas estariam sob risco de despejo na Itália.

A situação é especialmente delicada nos grandes centros urbanos, onde a procura por imóveis é elevada e a oferta de unidades disponíveis para residência permanente não acompanha a demanda.

Preços dos imóveis continuam subindo

Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística da Itália (Istat) mostram que o mercado imobiliário continua em alta.

No primeiro trimestre de 2026, os preços das habitações aumentaram 5,2% em relação ao mesmo período de 2025. O avanço foi de 6,7% para imóveis novos e de 4,8% para imóveis usados.

Na comparação com o trimestre anterior, os preços também subiram: a alta média foi de 1%.

O movimento ocorre em um mercado no qual a oferta de imóveis à venda também vem se reduzindo. Em levantamento da Banca d’Italia, agentes imobiliários relataram queda no número de novos imóveis colocados à venda no fim de 2025. Ao mesmo tempo, os aluguéis continuaram aumentando, ainda que em ritmo mais lento.

Aluguel pesa principalmente nas grandes cidades

A dificuldade de acesso à moradia é maior para quem depende do aluguel e vive em áreas onde os preços são elevados.

Um relatório da Comissão Europeia sobre a Itália publicado em junho de 2026 aponta que 19,4% dos inquilinos italianos enfrentam uma situação de sobrecarga com os custos de moradia.

Em média, as famílias que alugam um imóvel destinam 20,2% da renda disponível ao pagamento do aluguel. Entre as famílias abaixo da linha da pobreza, essa proporção sobe para 31,1%.

Em algumas regiões, o peso é ainda maior. Em cerca de um décimo das províncias italianas, o aluguel representa mais de um terço do salário médio.

Nas grandes cidades, a relação entre aluguel e renda pode ser particularmente elevada: o relatório cita índices de 76% em Milão, 65% em Roma e 48% em Bolonha.

Isso significa que, para uma parcela dos moradores, o problema não é apenas encontrar um imóvel, mas conseguir permanecer na cidade onde trabalha ou estuda sem comprometer uma parte excessiva da renda.

Milhões de imóveis não são ocupados por residentes

Ao mesmo tempo em que existe dificuldade para encontrar moradia acessível, a Itália possui um enorme estoque de imóveis que não são ocupados permanentemente por moradores.

Segundo o Censo Permanente de 2023, o país tinha 35,6 milhões de habitações. Mais de 26 milhões eram ocupadas por pessoas residentes, enquanto 9,5 milhões estavam desocupadas ou eram ocupadas por pessoas que não residem oficialmente no imóvel.

O dado, porém, não significa que existam 9,5 milhões de casas vazias prontas para serem alugadas.

A categoria utilizada pelo Istat inclui tanto imóveis efetivamente desocupados quanto aqueles utilizados por pessoas que não possuem residência no local. Também estão incluídas situações como segundas residências, comuns em regiões turísticas.

Ainda assim, o volume evidencia a dimensão do patrimônio habitacional que não é utilizado como residência permanente.

A distribuição desses imóveis também varia bastante pelo país. Em 2023, 73,2% das habitações italianas eram ocupadas por residentes. No Sul, a proporção era de 68,2%, enquanto nas ilhas chegava a apenas 65,3%.

Aluguéis de curta duração entram no debate

Nas cidades mais procuradas por turistas, outro fator passou a fazer parte da discussão sobre a oferta de moradia: o crescimento dos aluguéis de curta duração.

A Banca d’Italia aponta que a presença de imóveis destinados a esse tipo de locação continua significativa em várias cidades e contribui para o crescimento dos aluguéis.

A Comissão Europeia estima que os imóveis destinados a aluguéis de curta duração representam cerca de 12% do estoque habitacional disponível em Florença, 11% em Veneza, 6% em Milão e 4% em Roma, considerando o estoque que não corresponde às residências principais. A concentração é ainda maior nos centros históricos.

O efeito é particularmente importante em áreas turísticas, onde um imóvel pode ser mais rentável para o proprietário quando destinado a visitantes por períodos curtos do que quando alugado para um morador em contrato de longa duração.

Isso pode reduzir a oferta de imóveis para residentes e aumentar a concorrência entre aqueles que procuram uma casa para viver.

Despejos mostram o impacto sobre as famílias

A dificuldade de pagar o aluguel também aparece nos dados sobre despejos.

Em 2024, foram emitidas 40.158 ordens de despejo para imóveis residenciais na Itália. Segundo dados do Ministério do Interior apresentados em documento do Senado, 74,8% dos casos estavam relacionados à inadimplência ou a outras situações de falta de pagamento.

No mesmo ano, foram registradas 81.054 solicitações de execução de despejo e 21.337 despejos foram efetivamente realizados com intervenção do oficial de justiça.

Os números não significam que todas essas famílias estejam relacionadas à atual escalada dos preços dos imóveis, mas mostram a dimensão que a dificuldade de manter um contrato de aluguel pode alcançar no país.

Casa própria é maioria, mas não resolve o problema

Apesar da pressão sobre o mercado de aluguel, a maior parte das famílias italianas vive em imóvel próprio.

Segundo o Istat, 73,9% das famílias italianas moravam em casa própria em 2023, enquanto 19,6% viviam de aluguel e 6,5% ocupavam o imóvel por outras modalidades, como cessão gratuita.

Essa característica ajuda a diferenciar o mercado italiano de outros países europeus, mas não elimina o problema habitacional.

A dificuldade está concentrada principalmente entre quem não possui imóvel e precisa recorrer ao aluguel, sobretudo em grandes cidades, áreas turísticas e regiões onde os salários não acompanham os preços praticados pelo mercado.

A própria Comissão Europeia identifica um descompasso entre o custo da habitação e os salários em diversas cidades italianas. Segundo o relatório, essa situação pode dificultar inclusive a mobilidade dos trabalhadores e contribuir para a falta de mão de obra em determinadas regiões.

Governo tenta ampliar a oferta de moradia acessível

A crise habitacional também levou o governo italiano a colocar a questão da moradia entre as prioridades de política pública.

O Plano Casa, adotado em maio de 2026, prevê intervenções para recuperar parte do estoque de habitação pública e ampliar a oferta de imóveis com preços acessíveis.

A Comissão Europeia destaca que a Itália possui um estoque limitado de habitação social e longas listas de espera. O gasto público destinado à proteção social relacionada à moradia também permanece abaixo da média da União Europeia.

A estratégia inclui a recuperação de imóveis públicos que atualmente não estão disponíveis para famílias por falta de manutenção ou reformas, além da participação do setor privado na ampliação da oferta.

O paradoxo do mercado imobiliário italiano

O problema habitacional italiano, portanto, não pode ser resumido à falta de imóveis.

De um lado, 9,5 milhões de habitações não são ocupadas por residentes. De outro, os preços dos imóveis continuam subindo e os aluguéis pesam cada vez mais no orçamento de quem precisa morar nas áreas de maior demanda.

O desafio está em fazer com que uma parcela maior do estoque existente esteja efetivamente disponível para quem precisa de uma residência permanente, especialmente nas cidades onde o custo da moradia já supera a capacidade financeira de muitas famílias.

Enquanto isso, para quem depende do aluguel, o aumento dos preços pode significar uma escolha cada vez mais difícil entre comprometer uma parcela maior da renda, mudar para regiões mais afastadas ou deixar a cidade onde vive e trabalha.

É esse descompasso entre imóveis disponíveis, preços e renda que está no centro do atual debate sobre a moradia na Itália.

 

Leia também: Roma vai revitalizar avenida histórica entre o Coliseu e os Fóruns Imperiais

Comente

Neste Artigo

Sobre o autor