A União Europeia (UE) e a China chegaram a um entendimento para limitar as exportações de veículos híbridos chineses ao mercado europeu e facilitar o fornecimento de terras raras e ímanes permanentes. O acordo foi anunciado pelo comissário europeu do Comércio, Maroš Šefčovič, após dois dias de negociações em Pequim com o ministro chinês do Comércio, Wang Wentao.
O entendimento representa uma tentativa de reduzir as tensões comerciais entre as duas potências por meio da negociação diplomática. Apesar do avanço, líderes europeus defendem medidas mais firmes para corrigir o desequilíbrio nas relações econômicas e proteger a indústria do bloco. Os detalhes do acordo devem ser analisados numa cimeira de líderes europeus prevista para a próxima semana, em Bruxelas.
A União Europeia também admite adotar medidas de retaliação caso os resultados das negociações não correspondam às expectativas.
Acordo prevê redução das exportações de híbridos chineses
A União Europeia enfrenta um défice comercial recorde com a China, estimado em mil milhões de euros por dia. O desequilíbrio ocorre num contexto de aumento das importações de produtos chineses de baixo custo, que intensificam a pressão sobre diferentes setores da indústria europeia.
“Chegámos a um entendimento comum para moderar as exportações da China de híbridos e híbridos plug-in para a União Europeia”, afirmou Šefčovič. “Isto abre a perspetiva de reduzir em mais de metade as exportações chinesas.”
Os veículos híbridos combinam um motor de combustão com um motor elétrico. Já os híbridos plug-in possuem uma bateria que pode ser recarregada por meio de uma fonte externa de energia, permitindo percorrer determinadas distâncias utilizando apenas eletricidade.
O acordo procura, assim, limitar a entrada desses veículos chineses no mercado europeu, num momento em que as fabricantes do bloco enfrentam a concorrência de modelos importados a preços mais baixos.
Produtos europeus podem ganhar espaço no mercado chinês
Além das medidas relacionadas com os automóveis, o entendimento prevê melhorar o acesso de produtos europeus ao mercado chinês. Segundo Šefčovič, a iniciativa abrange mercadorias como “peças automóveis a azeite e calçado”.
Esses produtos representam quase 4 mil milhões de euros em exportações atuais. O comissário afirmou ainda que a melhoria das condições comerciais deverá gerar pelo menos 225 milhões de euros em poupanças com direitos aduaneiros.
O acesso ao mercado tem sido um dos principais pontos de divergência entre Bruxelas e Pequim desde o início das negociações, em junho de 2026. A China procura preservar o acesso ao mercado europeu, que reúne cerca de 450 milhões de consumidores e constitui um destino importante para a sua produção industrial.
Em contrapartida, a Comissão Europeia tem proposto medidas legislativas para restringir o acesso de empresas chinesas a determinados segmentos do mercado europeu, ao mesmo tempo que pressiona Pequim a abrir mais espaço para os produtos e negócios do bloco.
China promete facilitar exportações de terras raras
Outro ponto central do acordo é o fornecimento de terras raras e ímanes permanentes. Esses materiais são fundamentais para diversas tecnologias, incluindo equipamentos ligados à transição energética, à indústria automóvel e à defesa.
Šefčovič afirmou que a China concordou em facilitar os procedimentos para exportar esses recursos.
“Chegámos a um entendimento comum para facilitar ainda mais a concessão de licenças de exportação da China para terras raras e ímanes permanentes”, disse.
As terras raras são um conjunto de elementos químicos utilizados na fabricação de componentes eletrónicos, motores elétricos, equipamentos militares e tecnologias de energia limpa. A concentração de etapas importantes da produção e do processamento desses materiais na China tornou diversos setores europeus dependentes do fornecimento chinês.
Em 2025, Pequim restringiu exportações de terras raras no contexto das tensões comerciais com os Estados Unidos. A medida aumentou a preocupação europeia com a segurança do abastecimento e com a possibilidade de a dependência desses materiais ser utilizada como instrumento de pressão económica.
Líderes europeus pressionam por medidas mais firmes
Šefčovič classificou o entendimento como a conclusão de uma “primeira fase das negociações”. O acordo foi anunciado antes de uma reunião de líderes da União Europeia, marcada para a próxima semana, em Bruxelas, na qual se esperam avanços concretos na relação comercial com a China.
A pressão por uma resposta mais firme tem aumentado entre os países do bloco. Todos os Estados-membros registam atualmente défices comerciais com a China, segundo o texto divulgado.
Na segunda-feira, Alemanha e França pediram à Comissão Europeia que adotasse medidas contra práticas comerciais chinesas consideradas desleais e responsáveis por distorções no mercado europeu.
Num documento conjunto, Paris e Berlim defenderam ações que podem incluir “uma exclusão imediata do mercado interno, se necessário”.
Na quarta-feira, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que apela à adoção de medidas firmes em relação a Pequim.
A pressão também vem de setores industriais. Na sexta-feira, 44 indústrias europeias, incluindo os segmentos químico, de maquinaria, metais, energia solar, vidro e cimento, divulgaram uma declaração conjunta a alertar para os riscos da concorrência considerada desleal.
No documento, os setores afirmaram que “a Europa não pode manter e desenvolver a sua base industrial, empregos de qualidade nem atrair investimento sem capacidade de responder de forma eficaz a práticas comerciais desleais e a distorções”.
O acordo entre Bruxelas e Pequim representa um passo nas tentativas de reequilibrar as relações comerciais. No entanto, a sua eficácia dependerá da implementação das medidas negociadas e da capacidade de ambas as partes de cumprir os compromissos assumidos.
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