Novo partido reúne 23 comunidades de imigrantes e quer ampliar participação política na Itália

Partido Assieme defende mudanças nas regras de cidadania, direito ao voto municipal para estrangeiros de fora da União Europeia e reconhecimento de diplomas. País tem 5,56 milhões de residentes estrangeiros, segundo o Istat.

Um novo partido político pretende ampliar a participação de imigrantes e pessoas de origem estrangeira na política italiana. Chamado Assieme, que significa “juntos” em português, o movimento reúne representantes de 23 comunidades e defende mudanças nas regras de cidadania, a ampliação do direito ao voto e medidas para facilitar a integração profissional de estrangeiros.

A iniciativa foi apresentada em reportagem publicada pelo jornal Il Fatto Quotidiano nesta sexta-feira (16). O partido reúne cidadãos italianos, italianos de origem estrangeira e pessoas ligadas a diferentes comunidades culturais.

A proposta surge em um momento em que a população estrangeira representa uma parcela significativa da sociedade italiana. Segundo o Instituto Nacional de Estatística da Itália (Istat), o país tinha 5,56 milhões de residentes com cidadania estrangeira em 1º de janeiro de 2026, o equivalente a 9,4% da população. O número representa um aumento de 188 mil pessoas em relação ao ano anterior.

Apesar dessa presença demográfica, nem todos os residentes estrangeiros têm direito de participar das eleições. A legislação italiana estabelece diferenças entre cidadãos italianos, cidadãos de outros países da União Europeia e pessoas provenientes de países de fora do bloco.

É nesse cenário que o Assieme pretende construir uma representação política própria e transformar as reivindicações dessas comunidades em propostas concretas.

Quem está à frente do partido Assieme?

O partido tem como presidente Sibi Mani Kumaramangalam, que já presidiu o Partido Democrático (PD) em Roma. O secretário da nova formação é Edgar Galiano Cifuentes.

Kumaramangalam tem experiência na política tradicional italiana, mas afirma que a participação de pessoas de origem estrangeira nos partidos existentes nem sempre se traduz em representação efetiva.

Segundo ele, integrantes dessas comunidades são frequentemente procurados durante as campanhas eleitorais para integrar listas de candidatos, sem que suas demandas recebam atenção suficiente depois das eleições.

A criação do Assieme busca mudar essa dinâmica. Em vez de depender exclusivamente da participação em partidos já estabelecidos, o movimento pretende organizar suas próprias propostas e negociar apoio com diferentes forças políticas.

A formação se apresenta como um partido de centro e afirma estar aberta ao diálogo com grupos de diferentes orientações políticas, desde que haja convergência em relação às suas prioridades.

O programa ainda está em elaboração. Os dirigentes estabeleceram 30 de novembro de 2026 como prazo para receber propostas e definir as principais linhas de atuação.

A meta anunciada é chegar a 10 mil filiados até o fim do ano.

Quais são as principais propostas do Assieme?

As prioridades anunciadas envolvem cidadania, participação eleitoral, mercado de trabalho e acesso a oportunidades econômicas.

1. Facilitar o acesso à cidadania italiana para crianças

Uma das principais reivindicações é tornar mais rápido o acesso à cidadania italiana para crianças nascidas ou criadas na Itália, especialmente aquelas que frequentam escolas do país.

A proposta busca beneficiar crianças que crescem na sociedade italiana, falam o idioma, estudam nas escolas locais e desenvolvem vínculos sociais e culturais com o país, mas continuam com nacionalidade estrangeira.

O partido defende que a trajetória escolar seja considerada um elemento importante na definição de critérios mais acessíveis para a obtenção da cidadania.

A ideia, entretanto, depende de mudanças na legislação. Nascer ou estudar na Itália não garante automaticamente a cidadania italiana a filhos de estrangeiros, pois a regra geral do país não adota o nascimento em território italiano como critério suficiente para a nacionalidade.

Existem situações específicas previstas em lei, mas as condições variam conforme a origem dos pais, a situação familiar e outras circunstâncias.

O Assieme pretende colocar essa discussão no centro do debate político, com foco em crianças e jovens que passaram boa parte da vida na Itália.

2. Ampliar o direito ao voto nas eleições municipais

Outra proposta é permitir que estrangeiros residentes legalmente na Itália participem das eleições municipais, mesmo quando não possuem cidadania italiana ou de outro país da União Europeia.

Atualmente, a legislação diferencia os direitos eleitorais conforme a nacionalidade do residente.

Cidadãos de outros países da União Europeia, como romenos, podem votar nas eleições municipais italianas, desde que cumpram os requisitos e solicitem a inscrição nas listas eleitorais correspondentes.

Já cidadãos de países de fora do bloco, como Brasil, Marrocos, China e Índia, em regra não podem votar nas eleições municipais apenas por terem residência legal na Itália. Para participar das eleições parlamentares nacionais, é necessário possuir cidadania italiana.

O Assieme quer mudar esse cenário, ao menos no âmbito municipal.

A justificativa é que pessoas que vivem, trabalham e pagam impostos na Itália também deveriam ter a possibilidade de participar da escolha dos representantes responsáveis por decisões que afetam suas comunidades.

A proposta exigiria mudanças legais. A residência, por si só, não concede atualmente a todos os estrangeiros o direito de votar nas eleições locais.

3. Reconhecer diplomas e qualificações profissionais obtidos no exterior

O partido também pretende facilitar o reconhecimento de diplomas e experiências profissionais adquiridos em outros países.

A questão afeta estrangeiros que chegam à Itália com formação universitária ou experiência especializada, mas encontram dificuldades para exercer a profissão para a qual se prepararam.

Em alguns casos, a ausência de reconhecimento formal das qualificações impede o acesso a determinadas vagas. Em outros, os procedimentos de validação podem ser demorados ou exigir documentação adicional.

O Assieme defende medidas que permitam aproveitar melhor as competências desses profissionais e ampliar suas possibilidades de inserção no mercado de trabalho.

O reconhecimento de diplomas, porém, depende das regras aplicáveis a cada profissão. Atividades regulamentadas podem exigir equivalência acadêmica, registro profissional, exames ou outras condições específicas.

4. Facilitar o acesso ao crédito para empreendedores

Outra prioridade é melhorar as condições de acesso ao crédito para empreendedores de origem estrangeira.

A intenção é reduzir obstáculos enfrentados por pessoas que desejam abrir uma empresa, investir em um negócio ou ampliar uma atividade já existente.

Para o partido, a inclusão econômica deve fazer parte da integração social. O acesso a financiamento pode contribuir para a criação de empresas, a geração de empregos e o desenvolvimento das comunidades.

A proposta ainda precisa ser detalhada em medidas concretas, com definição dos instrumentos que poderiam ser adotados e dos critérios para sua aplicação.

Quantos estrangeiros vivem na Itália?

A dimensão da população estrangeira ajuda a explicar por que a participação política se tornou uma das questões levantadas pelo novo partido.

De acordo com o Istat, a Itália tinha 5,56 milhões de residentes com cidadania estrangeira em 1º de janeiro de 2026. Eles correspondiam a 9,4% da população total.

A distribuição por nacionalidade, no entanto, utiliza uma referência temporal diferente. Os dados detalhados a seguir correspondem a 1º de janeiro de 2025 e não devem ser confundidos com o total atualizado para 2026.

As dez maiores comunidades estrangeiras na Itália

Número de residentes por nacionalidade, em 1º de janeiro de 2025.

Posição Nacionalidade Residentes
1 Romena 1.053.042
2 Albanesa 414.622
3 Marroquina 412.457
4 Chinesa 311.250
5 Ucraniana 287.187
6 Bangladense 213.622
7 Egípcia 174.141
8 Indiana 171.429
9 Paquistanesa 171.179
10 Filipina 153.455

Os números se referem à nacionalidade dos residentes em janeiro de 2025. Pessoas que adquiriram a cidadania italiana deixam de integrar as estatísticas de residentes com nacionalidade estrangeira.

Os romenos formam a maior comunidade estrangeira do país, seguidos por albaneses e marroquinos.

A presença de diferentes nacionalidades também demonstra que a população estrangeira não constitui um grupo homogêneo. As comunidades têm trajetórias migratórias, condições econômicas, interesses e experiências distintas.

Além disso, os dados populacionais não indicam quantas pessoas poderiam votar caso a legislação fosse alterada. O total inclui crianças, pessoas sem idade eleitoral e residentes que não necessariamente atenderiam aos critérios de uma eventual reforma.

Os estrangeiros poderiam eleger representantes?

A ampliação do direito ao voto municipal poderia aumentar o eleitorado em cidades com grandes comunidades de imigrantes. No entanto, isso não significa que todos os estrangeiros passariam automaticamente a votar ou que apoiariam o mesmo partido.

Para que uma mudança produza efeitos eleitorais, seria necessário definir critérios de elegibilidade, como idade, situação de residência e eventuais períodos mínimos de permanência no país.

Também seria necessário considerar a distribuição geográfica dos eleitores, a participação nas urnas e as regras de eleição dos representantes municipais.

A concentração de residentes estrangeiros em determinadas cidades poderia aumentar sua influência sobre debates locais, mas não permite prever quantos votos uma formação como o Assieme conseguiria obter.

Outro ponto importante é que os 5,56 milhões de residentes estrangeiros não correspondem a 5,56 milhões de eleitores atualmente impedidos de votar. Parte dessa população é formada por menores de idade, enquanto cidadãos da União Europeia já podem participar de determinadas eleições mediante o cumprimento dos requisitos legais.

A proposta do partido está direcionada especialmente aos residentes de países de fora da União Europeia, que hoje não possuem o mesmo direito de participação nas eleições municipais.

Como o Assieme pretende disputar eleições?

O partido pretende começar pelas eleições municipais, buscando construir uma estrutura política local e estabelecer diálogo com outras forças partidárias.

A estratégia pode permitir que a formação apresente candidatos e propostas em cidades onde consiga reunir apoio suficiente, respeitando as exigências previstas na legislação eleitoral.

Uma candidatura autônoma nas eleições parlamentares nacionais, por outro lado, apresenta obstáculos adicionais, incluindo as exigências legais para apresentação de listas e coleta de assinaturas.

Por isso, os dirigentes consideram a construção de uma base de filiados e a participação nas disputas municipais etapas importantes para o crescimento do movimento.

A meta de alcançar 10 mil integrantes até dezembro de 2026 faz parte desse esforço de organização.

O partido também afirma que pretende dialogar com diferentes grupos políticos. A intenção é apoiar iniciativas alinhadas às suas propostas, sem estabelecer previamente um compromisso exclusivo com um único bloco.

O que a criação do partido representa para a política italiana?

O surgimento do Assieme acrescenta uma nova iniciativa ao debate sobre integração, cidadania e representação política na Itália.

A movimentação parte de uma questão central: a presença de milhões de estrangeiros na sociedade italiana não se traduz automaticamente em participação nas decisões eleitorais.

Seus dirigentes defendem que pessoas que vivem há anos no país tenham mais oportunidades de influenciar políticas públicas, especialmente aquelas relacionadas à educação, ao trabalho, à cidadania e aos serviços municipais.

Ao mesmo tempo, o tamanho da população estrangeira não deve ser interpretado como uma força eleitoral unificada. As comunidades têm interesses diversos, e sua transformação em representação política depende de organização, participação e capacidade de construir propostas comuns.

O desafio do Assieme será converter suas reivindicações em um programa definido, ampliar sua base de filiados e conquistar espaço nas instituições.

Por enquanto, o partido está em fase de organização e elaboração de propostas. A possibilidade de ampliar o direito ao voto para estrangeiros de fora da União Europeia e de alterar as regras de cidadania dependerá de mudanças legislativas e do apoio político necessário para aprová-las.

 

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