A Itália caminha para registrar um novo recorde negativo de nascimentos em 2026, aprofundando uma crise demográfica que se estende há quase duas décadas. Dados divulgados nesta quarta-feira (21) pelo Instituto Nacional de Estatística da Itália (Istat) mostram que o número de bebês nascidos no país caiu 1,1% entre janeiro e julho, na comparação com o mesmo período de 2025.
Nos primeiros sete meses deste ano, foram registrados 196.864 nascimentos. Se a tendência de queda continuar, o país poderá terminar 2026 com um resultado ainda menor do que o recorde negativo alcançado no ano anterior.
Em 2025, a Itália contabilizou 355.772 nascimentos, aproximadamente 14 mil a menos do que em 2024. O resultado foi o menor já registrado no país, reforçando uma tendência de redução que começou em 2008 e ainda não foi revertida.
Itália perdeu mais de 38% dos nascimentos desde 2008
A queda da natalidade italiana tornou-se um dos principais desafios demográficos do país. Em 2008, nasceram aproximadamente 576 mil crianças na Itália. Desde então, o número anual de nascimentos diminuiu mais de 38%.
A redução prolongada afeta a estrutura etária da população e contribui para o envelhecimento demográfico. Com menos crianças nascendo e uma expectativa de vida elevada, a proporção de idosos aumenta, enquanto diminui o contingente de pessoas em idade ativa.
Esse cenário pode gerar consequências para o mercado de trabalho, a arrecadação de impostos e a sustentabilidade dos sistemas de previdência e assistência social.
A redução da população em idade produtiva também pode dificultar a reposição de profissionais em diferentes setores da economia. Em algumas regiões, a diminuição do número de habitantes já representa um desafio para a manutenção de serviços públicos, escolas e atividades econômicas.
Taxa de fecundidade atinge mínimo histórico
Outro indicador que evidencia a dimensão da crise é a taxa de fecundidade, que mede o número médio de filhos por mulher.
Em 2025, o índice italiano caiu para 1,14 filho por mulher, ante 1,18 em 2024, segundo os dados apresentados pelo Istat. O resultado representa o menor nível da série histórica.
A taxa está muito abaixo do patamar de aproximadamente 2,1 filhos por mulher geralmente associado à reposição populacional em países com baixa mortalidade, desconsiderando os efeitos da migração.
A idade média das mulheres no nascimento do primeiro filho também reflete as mudanças no comportamento reprodutivo: na Itália, ela chegou a 32 anos.
O adiamento da maternidade pode estar relacionado a diferentes fatores, como a instabilidade profissional, as dificuldades de acesso à moradia, o custo de criação dos filhos e a necessidade de conciliar trabalho e vida familiar.
Quando a decisão de ter filhos é adiada, algumas pessoas acabam tendo menos crianças do que planejavam inicialmente. Além disso, a diminuição da população em idade reprodutiva significa que há menos mulheres potencialmente disponíveis para ter filhos, o que pode contribuir para a continuidade da queda mesmo quando a fecundidade individual não diminui na mesma proporção.
Governo Meloni tenta estimular a natalidade
A primeira-ministra Giorgia Meloni considera a reversão da queda dos nascimentos uma “prioridade absoluta” de seu governo.
A administração italiana tem adotado medidas de apoio às famílias, incluindo benefícios fiscais para mães que trabalham e iniciativas voltadas à redução dos custos associados à criação dos filhos.
Apesar dessas ações, os indicadores continuam em queda. O desafio é estrutural e envolve fatores econômicos, sociais e culturais que não podem ser revertidos apenas com incentivos financeiros pontuais.
A segurança no emprego, a disponibilidade de creches, o acesso à moradia, a estabilidade da renda e a divisão das responsabilidades familiares estão entre as questões que podem influenciar a decisão de ter filhos.
A dificuldade de conciliar a maternidade com a carreira profissional também é apontada como um obstáculo. Em um país onde as mulheres frequentemente enfrentam desafios para permanecer no mercado de trabalho após ter filhos, ampliar os benefícios à parentalidade é uma das questões centrais do debate demográfico.
Além disso, mesmo políticas bem-sucedidas podem levar anos para produzir efeitos significativos sobre a população. A tendência atual resulta de mudanças acumuladas ao longo de décadas, o que torna a recuperação da natalidade um processo complexo.
Itália pode perder 13 milhões de habitantes até 2080
As projeções demográficas indicam que a crise pode ter consequências profundas nas próximas décadas.
Uma estimativa recente do Istat aponta que a Itália poderá perder cerca de 13 milhões de habitantes até 2080, o equivalente a mais de 20% de sua população atual.
A perspectiva está associada à combinação entre baixa natalidade, envelhecimento populacional e o saldo entre imigração e emigração.
A migração pode influenciar o ritmo dessa redução, mas não elimina automaticamente os efeitos de uma fecundidade persistentemente baixa. O resultado dependerá também da evolução da mortalidade, dos movimentos migratórios e do comportamento dos nascimentos nos próximos anos.
A diminuição da população poderá afetar de maneira desigual as regiões italianas. Áreas que já enfrentam perda de habitantes, especialmente em localidades menores, podem sofrer com o fechamento de escolas, a redução da oferta de serviços e a dificuldade de manter atividades econômicas.
Nas grandes cidades, por sua vez, os efeitos podem aparecer de outras formas, como o aumento da proporção de idosos e a necessidade de adaptar os serviços de saúde, transporte e assistência social.
Crise demográfica continua sem sinais de reversão
Os números de 2026 reforçam a dificuldade da Itália para interromper a queda dos nascimentos. A redução registrada entre janeiro e julho ainda não determina, por si só, o resultado definitivo do ano, mas indica que a tendência permanece.
A evolução dos próximos meses será decisiva para confirmar se o país estabelecerá um novo recorde negativo.
Leia também: Papa Leão XIV retoma audiência geral oito dias após cirurgia para remover tumor no pulmão