Deputadas do Chega invadem rádio universitária em Portugal e interrompem debate político

Grupo de 17 integrantes do partido, incluindo Rita Matias e Madalena Cordeiro, entrou nas instalações da Rádio Universitária de Coimbra após ser impedido de participar presencialmente de um debate; polícia foi acionada.

Um grupo de 17 integrantes do partido português Chega entrou à força nas instalações da Rádio Universitária de Coimbra (RUC), em Portugal, na manhã de segunda-feira (12), e interrompeu a transmissão de um debate político. Entre os participantes estavam as deputadas Rita Matias e Madalena Cordeiro.

O programa reunia representantes de juventudes partidárias para discutir os impactos do Orçamento do Estado de 2027 para os estudantes do ensino superior. O Chega, partido de direita radical liderado por André Ventura, havia sido convidado a participar remotamente, mas não presencialmente.

A restrição está relacionada a uma decisão da Associação Acadêmica de Coimbra (AAC), responsável pelo edifício onde funcionam os estúdios da rádio. Em fevereiro, a entidade aprovou uma deliberação que proíbe integrantes do partido de entrar na sede e participar de eventos promovidos pela associação.

Em reação à restrição, integrantes do Chega foram pessoalmente ao local e exigiram participar do debate. A situação provocou a interrupção da emissão e levou ao acionamento da Polícia de Segurança Pública (PSP).

Como ocorreu a interrupção do debate?

Segundo Jaime Raposo, responsável pelo departamento de informação da RUC, a equipe decidiu ignorar inicialmente a presença dos integrantes do Chega e continuar o programa.

A situação mudou quando, de acordo com o jornalista, Rita Matias pegou um microfone do estúdio. Diante da tentativa de interferência na transmissão, Raposo decidiu interromper a emissão.

Integrantes do partido gravavam a situação com seus celulares. A equipe da rádio pediu que eles parassem de gravar e deixassem o estúdio, mas, segundo o responsável, o grupo se recusou a sair e insistiu em participar do programa.

Os integrantes do Chega só deixaram o local após a chegada de três agentes da Polícia de Segurança Pública, acionados para atender à ocorrência.

Em comunicado, a Associação Acadêmica de Coimbra afirmou que os acontecimentos representaram “um claro desrespeito para com a soberania da Associação Académica de Coimbra”.

Segundo a entidade, o episódio provocou cerca de uma hora de tensão. O grupo teria permanecido no interior do edifício, ocupando os estúdios da rádio e os gabinetes da direção-geral.

Por que o Chega foi proibido de entrar na associação?

A restrição foi aprovada em 25 de fevereiro, durante uma Assembleia Magna da Associação Acadêmica de Coimbra. A deliberação recebeu 273 votos favoráveis, três contrários e 30 abstenções.

A medida impede integrantes do Chega de acessar a sede em atividades eleitorais, políticas e institucionais, além de proibir a participação do partido em eventos e iniciativas promovidos pelos órgãos e estruturas da associação.

A decisão não foi apresentada pela AAC como uma resposta a um episódio específico. Segundo a entidade estudantil, a medida foi motivada pelo que considera ser um discurso de ódio e xenofobia promovido pelo partido.

A associação citou declarações e posicionamentos relacionados a minorias étnicas, incluindo as comunidades cigana e sul-asiática, que, na avaliação da entidade, expressam uma visão desigual da sociedade.

A deliberação foi proposta pela direção da AAC no início de fevereiro e aprovada por ampla maioria dos participantes da Assembleia Magna.

Chega acusa associação de censura política

O partido rejeitou as acusações de racismo e xenofobia e classificou as justificativas da associação como “difamatórias e infundadas”.

Na ocasião em que a proibição foi estabelecida, representantes do Chega em Coimbra consideraram a decisão um ato de censura política e intolerância ideológica.

Após a entrada na rádio, Rita Matias também defendeu a ação em um vídeo publicado nas redes sociais. A deputada afirmou que o Chega é “incancelável” e justificou a presença do grupo nas instalações como uma forma de defender a participação do partido no debate.

“Proibido de estar fisicamente no debate, por isso decidiu ir fisicamente às instalações para debater por via das ideias”, declarou Matias no vídeo.

A manifestação faz parte do argumento do partido de que a restrição impede seus representantes de participar de atividades políticas em condições iguais às dos demais grupos.

O que está em discussão no caso?

O episódio reúne duas questões centrais: os limites da liberdade de expressão e de participação política e a autonomia de uma organização estudantil para estabelecer regras de acesso às próprias instalações.

De um lado, o Chega afirma que a proibição representa exclusão política e censura ideológica. De outro, a Associação Acadêmica de Coimbra sustenta que a decisão foi tomada com base em seus princípios institucionais e na avaliação de que o discurso do partido é incompatível com esses valores.

A restrição aprovada pela AAC diz respeito ao acesso às instalações e à participação em atividades organizadas pela entidade. O episódio, portanto, não representa uma proibição geral do partido de participar de debates políticos em Portugal.

A entrada do grupo na Rádio Universitária de Coimbra, porém, levou o conflito para dentro de um espaço de comunicação, interrompendo um debate que já estava em andamento.

O caso amplia a discussão sobre como instituições e organizações podem lidar com partidos cujas posições consideram incompatíveis com seus princípios, sem deixar de lado o debate sobre pluralismo político e liberdade de expressão.

 

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