Portugal teme impacto no turismo por possível falta de combustível aéreo

A Comissão Europeia alertou que uma possível escassez de combustível para aviação pode atingir fortemente a economia portuguesa, altamente dependente do turismo internacional. O governo português diverge sobre os riscos, enquanto Bruxelas prevê desaceleração econômica, inflação mais alta e impactos no setor turístico caso o problema se agrave durante o verão europeu.

A forte dependência do turismo colocou Portugal em alerta diante de um possível problema no abastecimento de combustível para aviação na Europa. A Comissão Europeia (CE) advertiu que uma eventual escassez de querosene utilizado em aviões poderá provocar um impacto significativo na economia portuguesa, sobretudo durante o verão, período de maior fluxo turístico no país.

O alerta aparece nas novas previsões económicas da primavera divulgadas nesta quinta-feira, 21 de maio, em Bruxelas. Segundo a Comissão, “o balanço de riscos mantém-se desfavorável e ainda mais agravado pela incerteza relativa ao fornecimento de combustível de aviação, uma vez que o vasto sector turístico de Portugal depende fortemente do transporte aéreo”.

A preocupação já havia sido manifestada há duas semanas pelo ministro das Finanças de Portugal, Joaquim Miranda Sarmento, durante reuniões em Bruxelas. Na ocasião, o ministro afirmou que “se isso suceder, e tendo em conta que poderá suceder no verão, terá um impacto muito significativo na economia portuguesa”.

Segundo o governante, a dependência do transporte aéreo para o turismo internacional torna o cenário especialmente delicado. “Mais de 90%, 96% ou 97% dos turistas que chegam a Portugal, e no caso das regiões autónomas até mesmo 100%, vêm de avião, e, portanto, se não houver jet fuel [querosene, combustível usado na aviação] a nível europeu, mesmo que haja nos aeroportos portugueses, os aviões não chegarão a Portugal e, portanto, os turistas não chegarão”, advertiu.

“Se isso acontecer, teremos um choque económico muito significativo” porque “o turismo é uma indústria muito importante, quer na receita, quer no emprego”, acrescentou o ministro.

Governo diverge sobre riscos para o turismo

Apesar do alerta do Ministério das Finanças e da própria Comissão Europeia, o ministro da Economia português, Manuel Castro Almeida, adotou um tom mais otimista em relação ao impacto da possível crise no fornecimento de combustível.

De acordo com o ministro, “tudo indica que não vai ser um problema para Portugal, com os dados que nós temos hoje, não será um problema o turismo [proveniente do estrangeiro] por causa desse efeito”.

Ao comentar a situação econômica das famílias portuguesas, pressionadas pela inflação e pelos juros elevados, Castro Almeida também minimizou os possíveis impactos sobre o turismo interno. “As pessoas farão as férias que puderem fazer”, declarou.

Economia portuguesa desacelera em meio a crises

Mesmo diante das incertezas relacionadas ao turismo e ao setor energético, a Comissão Europeia avalia que a economia portuguesa ainda demonstra alguma resistência em 2026. O cenário, no entanto, é de desaceleração.

Bruxelas prevê crescimento econômico real de 1,7% neste ano, abaixo dos 2% projetados pelo Ministério das Finanças português no relatório enviado à União Europeia em abril.

A inflação também preocupa. A Comissão Europeia estima que os preços ao consumidor avancem cerca de 3% em 2026, acima dos 2,5% anteriormente previstos pelo governo português.

No relatório, a CE destaca que “a economia portuguesa enfrentou uma série de choques inesperados no início de 2026, começando por fortes tempestades em janeiro e fevereiro, seguidas por uma acentuada subida dos preços da energia em março e abril”.

Segundo Bruxelas, “consequentemente, o sentimento económico deteriorou-se e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) abrandou, passando de 0,9% em termos trimestrais no 4.º trimestre de 2025 para uma estagnação no 1.º trimestre de 2026”.

Bruxelas aposta em recuperação gradual

Apesar da deterioração no cenário econômico, a Comissão Europeia acredita que Portugal poderá recuperar parte do ritmo de crescimento ao longo dos próximos meses, principalmente com investimentos ligados ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

O relatório afirma que “embora as vendas a retalho tenham permanecido resilientes, a confiança dos consumidores caiu para o nível mais baixo dos últimos dois anos”. Em contrapartida, “os indicadores de confiança empresarial, em particular no setor dos serviços, recuperaram após a queda registada em janeiro”.

A expectativa da Comissão é de uma recuperação gradual impulsionada pelas obras de reconstrução após as tempestades e pela utilização mais intensa dos recursos europeus do Mecanismo de Recuperação e Resiliência.

Ainda assim, Bruxelas alerta que “os preços elevados da energia devem continuar a exercer pressão negativa, sobretudo no 2.º trimestre de 2026”.

Nas previsões atuais, a Comissão projeta que o crescimento português fique em 1,7% em 2026 e avance ligeiramente para 1,8% em 2027, sustentado principalmente pelos investimentos públicos e pelos fundos europeus destinados à recuperação econômica.

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