O caso mais simbólico aconteceu em Vigevano, cidade de aproximadamente 62 mil habitantes localizada no norte da Itália. Conhecida por sua tradição industrial e cercada por áreas agrícolas, a cidade possui cerca de 15% da população formada por estrangeiros, principalmente egípcios e romenos.
Foi ali que a Liga, partido liderado por Matteo Salvini, decidiu incluir dois candidatos muçulmanos em sua lista para a eleição municipal. A estratégia do candidato a prefeito Riccardo Ghia era clara: aproximar o partido de comunidades imigrantes que hoje possuem peso crescente no eleitorado local.
A decisão, porém, provocou reação imediata da direção nacional da legenda. Após críticas vindas de apoiadores e setores ligados à base mais conservadora da Liga, o partido anunciou publicamente que se “distanciava” dos próprios candidatos escolhidos pela sigla em Vigevano.
O episódio rapidamente ganhou repercussão nacional e transformou a eleição local em símbolo das tensões internas enfrentadas pela direita italiana às vésperas das eleições gerais previstas para o próximo ano.
Candidatos relatam ataques e sensação de exclusão
Uma das candidatas envolvidas na polêmica é Hagar Haggag, de 20 anos, ítalo-egípcia e estudante de diplomacia. Desde o anúncio de sua candidatura, ela afirma ter recebido ofensas e ameaças, muitas delas relacionadas ao fato de usar hijab.
Apesar da repercussão negativa, Hagar declarou que nunca sofreu discriminação dentro da seção local da Liga e afirmou que sua candidatura também tinha um objetivo simbólico. Segundo ela, a intenção era “acabar com o clichê de esquerda de que mulheres muçulmanas são ignorantes.”
Ela também revelou interesse em seguir carreira política no futuro, possivelmente até no Egito.
O outro candidato muçulmano da lista da Liga, Ibrahim Hussein, atua como porta-voz do salão de orações da mesquita local. Ao apresentar sua candidatura, escreveu nas redes sociais que concorria “em nome de Allah” e afirmou enxergar a própria trajetória como “um exemplo real de integração.”
Enquanto isso, no campo da centro-esquerda, outra jovem descendente de imigrantes também ganhou destaque durante a campanha. Sabrine Hamrouni, de 23 anos, filha de um tunisiano que chegou à Itália nos anos 1990 para trabalhar na construção civil, resumiu em uma frase o sentimento compartilhado por muitos filhos de imigrantes nascidos no país:
“Nasci aqui. Sempre vivi aqui. Mas ainda sou estrangeira.”
Direita tenta ampliar base sem romper discurso anti-imigração
O episódio de Vigevano reflete uma mudança demográfica que já começa a alterar o cenário político italiano. Os filhos de imigrantes que chegaram ao norte industrial nas últimas décadas agora atingem idade eleitoral e passam não apenas a votar, mas também a disputar cargos públicos.
O sociólogo Maurizio Ambrosini, da Universidade Statale de Milão, observou que partidos conservadores europeus vêm tentando atrair candidatos de origem estrangeira e destacou que “muitos migrantes naturalizados tendem para a direita.”
A situação, no entanto, cria um dilema especialmente delicado para a Liga de Matteo Salvini. O partido construiu sua identidade política ao longo dos anos com um discurso rígido contra imigração irregular e defesa das fronteiras italianas. Ao tentar ampliar sua base eleitoral entre imigrantes integrados à sociedade italiana, parte da legenda teme afastar justamente o eleitorado mais fiel que ajudou a consolidar sua força nacional.
Em Vigevano, essa tensão ficou evidente. A tentativa de abrir espaço para candidatos muçulmanos acabou revelando o conflito entre pragmatismo eleitoral e identidade ideológica dentro da direita italiana.
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