Florença cria primeiro centro da Itália contra dependência digital entre jovens

Florença lança o Discover – Fuori dal Guscio, primeiro centro italiano dedicado à prevenção da dependência digital. O projeto oferecerá apoio a jovens, famílias e educadores, com foco em educação digital, equilíbrio entre vida online e offline e uso consciente da tecnologia.

A cidade de Florença deu um passo inédito no enfrentamento da dependência digital. Foi assinado nesta semana o acordo que cria o Discover – Fuori dal Guscio, primeiro centro especializado da Itália dedicado à prevenção do uso abusivo da tecnologia e à promoção de um uso mais consciente do ambiente digital.

A iniciativa é fruto de uma parceria entre a Asl Toscana Centro, a Prefeitura de Florença e a cooperativa ReteSviluppo. O objetivo é oferecer apoio a crianças, adolescentes e jovens diante dos desafios provocados pelo uso excessivo de telas, redes sociais e outras plataformas digitais.

O centro deve começar a funcionar após o verão europeu e atenderá jovens de 10 a 25 anos, além de oferecer suporte a pais, educadores e profissionais da área.

Projeto aposta na prevenção, não na proibição

Ao contrário de outros países europeus que vêm adotando restrições ao acesso às redes sociais por menores de idade, a iniciativa italiana prioriza a educação digital e o equilíbrio entre o mundo online e a vida offline.

Segundo a responsável pelas Políticas para a Juventude da Prefeitura de Florença, Letizia Perini, a tecnologia faz parte da realidade dos jovens e deve ser utilizada de forma equilibrada.

“As tecnologias digitais fazem parte do quotidiano de rapazes e raparigas e representam uma oportunidade extraordinária. Precisamente por isso temos o dever de os acompanhar para um uso cada vez mais consciente, ajudando-os a encontrar um equilíbrio entre o tempo passado online e o tempo vivido nas relações, no desporto, na cultura e em experiências partilhadas.”

A proposta é incentivar hábitos saudáveis de utilização da tecnologia, sem recorrer a medidas exclusivamente restritivas.

O que será oferecido pelo centro?

O Discover funcionará como um espaço de acolhimento, prevenção e orientação.

Entre as atividades previstas estão:

  • Orientação individual para jovens e famílias;
  • Gabinete de apoio especializado;
  • Oficinas de educação digital e media literacy;
  • Jogos de tabuleiro e atividades em grupo;
  • Oficinas manuais e recreativas;
  • Ações voltadas ao fortalecimento da convivência social.

Além dos jovens, o espaço também será aberto a pais, professores e educadores que desejem compreender melhor os impactos do ambiente digital na saúde mental e no desenvolvimento dos adolescentes.

Nos casos considerados mais complexos, como isolamento social, retraimento ou sofrimento psicológico, a Asl Toscana Centro poderá encaminhar os jovens aos serviços especializados já existentes na região.

Objetivo é transformar jovens em protagonistas do próprio tempo

A presidente da cooperativa ReteSviluppo, Ester Macrì, afirma que o projeto pretende ir além da simples limitação do uso de dispositivos eletrônicos.

“Não queremos propor simples proibições, mas sim uma abordagem inovadora assente em dois pilares: a desconexão orientada e a promoção de um uso consciente da tecnologia, para transformar os jovens de consumidores passivos em protagonistas ativos do seu tempo.”

Ela explica que o Discover pretende atuar também como um centro de pesquisa e formação para toda a comunidade.

“O Centro Discover pretende ser um ponto de ligação aberto ao território, para analisar o fenómeno, desencadear intervenções e laboratórios práticos e formar a comunidade educativa, reconstruindo aquele tecido social que o isolamento digital corre o risco de desfazer.”

Europa endurece regras para proteger menores

A criação do centro acontece em um momento em que diversos países discutem formas de reduzir os impactos das redes sociais sobre crianças e adolescentes.

Na Europa, cresce o movimento em favor de regras mais rígidas para o acesso de menores às plataformas digitais.

A França tornou-se recentemente o primeiro país da União Europeia a aprovar uma lei que proíbe o uso de redes sociais por menores de 15 anos, com entrada em vigor prevista para setembro.

No Reino Unido, o governo anunciou um plano para implantar um “toque de recolher” noturno nas redes sociais para adolescentes de 16 e 17 anos, embora a proposta ainda seja alvo de debates sobre sua eficácia.

Outros países, como Grécia, Eslovênia, Suécia e Espanha, também estudam estabelecer restrições ao acesso de menores de 14 ou 16 anos às plataformas digitais.

Além disso, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, já defendeu a adoção de medidas para reforçar a proteção de crianças e adolescentes no ambiente online, diante de estudos que apontam riscos relacionados ao uso excessivo das redes sociais.

Itália segue um caminho diferente

Enquanto vários países apostam em restrições legais, a Itália decidiu iniciar sua estratégia por outro caminho.

O Discover concentra seus esforços na prevenção, no fortalecimento das relações presenciais e na educação digital, buscando ensinar jovens a desenvolver uma relação mais saudável com a tecnologia sem recorrer, inicialmente, à proibição do acesso às plataformas.

Segundo o diretor da Asl Toscana Centro, Valerio Mari, a criação do espaço preenche uma lacuna importante na região.

“Era um centro necessário, que faltava no nosso território e que compromete todos nós, entidades signatárias, a manter viva a partilha de estratégias e projetos. Um valor acrescentado fundamental é a possibilidade de integrar as atividades de prevenção com um contacto permanente com os serviços competentes. Tudo isto numa perspetiva de responsabilização, bem distante de lógicas de proibição ou de simples veto.”

Com a iniciativa, Florença torna-se a primeira cidade italiana a contar com um centro dedicado exclusivamente à prevenção da dependência digital, em um momento em que o uso excessivo da tecnologia e das redes sociais ocupa um espaço cada vez maior no debate sobre saúde mental, educação e desenvolvimento dos jovens na Europa.

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