O Banco Central Europeu (BCE) decidiu manter inalteradas as três principais taxas de juro da Zona Euro, mas deixou um recado claro ao mercado: a inflação ainda pode voltar a acelerar nos próximos meses devido ao aumento dos preços da energia provocado pelo agravamento do conflito no Médio Oriente.
A decisão foi anunciada nesta quinta-feira (23), após a reunião de política monetária realizada nos dias 22 e 23 de julho, em Frankfurt. A principal taxa de referência, a taxa de depósito, permaneceu em 2,25%, depois da alta promovida em junho, que interrompeu um ciclo de quase três anos de redução dos juros.
Apesar da manutenção das taxas neste momento, o comunicado do BCE e as declarações da presidente da instituição, Christine Lagarde, indicam que novas altas não estão descartadas caso a inflação continue pressionada.
Juros permanecem estáveis
O Conselho do BCE decidiu manter inalteradas as três taxas diretoras da instituição.
Com isso:
- Taxa de depósito: 2,25%;
- Taxa de refinanciamento: 2,40%;
- Facilidade permanente de cedência de liquidez: 2,65%.
Essas taxas servem de referência para os bancos comerciais da Zona Euro e acabam influenciando diretamente o custo dos financiamentos, empréstimos e, em alguns casos, a remuneração dos depósitos bancários.
Guerra e energia voltam a preocupar o BCE
Embora tenha mantido os juros estáveis, o BCE demonstrou preocupação crescente com os efeitos econômicos da retomada do conflito entre Irã, Israel e Estados Unidos, especialmente após o colapso das negociações de cessar-fogo.
Segundo a instituição, o aumento recente do preço do petróleo e de outras fontes de energia pode provocar uma nova onda inflacionária nos próximos meses.
O preço do barril de petróleo Brent voltou a superar a marca dos US$ 100, refletindo a instabilidade no Oriente Médio e elevando os custos de produção para empresas em toda a Europa.
Para o BCE, os efeitos completos desse choque ainda não chegaram à economia.
“A incerteza continua a ser elevada e o impacto inflacionista total do choque energético ainda não se fez sentir”, afirmou a instituição no comunicado divulgado após a reunião.
Inflação pode permanecer acima da meta
Durante a coletiva de imprensa, a presidente do BCE, Christine Lagarde, reforçou que a inflação ainda deve permanecer acima da meta de 2% por um período mais longo do que o esperado.
Segundo ela:
“Apesar de a inflação dos preços dos produtos energéticos ter descido em junho, é provável que a sua subida desde o retomar do conflito – e o seu impacto na inflação dos preços dos produtos alimentares, bens e serviços – mantenha a inflação bastante acima do nosso objetivo no primeiro semestre de 2027.”
A avaliação do BCE é que o aumento dos custos da energia tende a ser repassado gradualmente para toda a economia, afetando alimentos, bens industrializados e serviços.
Por que o impacto ainda não apareceu totalmente?
O Banco Central Europeu explica que existe um intervalo entre o aumento dos preços da energia e sua chegada ao consumidor final.
Primeiro, empresas passam a pagar mais caro por combustíveis, gás e eletricidade. Depois, esse aumento é incorporado aos custos de produção e transporte. Só então ele chega aos preços cobrados dos consumidores.
Segundo Lagarde:
“O choque energético continua a gerar preços mais elevados e está a tornar-se mais dispendioso para as empresas obter fatores de produção externamente, sendo, portanto, de esperar que subam os preços de venda.”
Ela acrescentou ainda que:
“Embora a evolução da inflação subjacente tenha permanecido contida, ainda não se fizeram sentir os efeitos completos do choque energético.”
BCE deixa caminho aberto para novas altas de juros
Embora o comunicado não anuncie novas elevações, o tom adotado pela autoridade monetária foi interpretado como um sinal de que novos aumentos podem ocorrer caso a inflação continue elevada.
O BCE afirmou que continuará acompanhando atentamente a evolução do conflito e seus reflexos sobre os preços da energia, os salários e as expectativas de inflação.
Segundo Christine Lagarde:
“O conflito continua a ser uma importante fonte de incerteza. Por esse motivo, estamos a acompanhar de perto a magnitude e a persistência do aumento dos preços da energia, bem como a forma como este se repercute na formação de preços e salários, nas expectativas de inflação e na dinâmica geral da economia.”
O objetivo continua sendo controlar a inflação
Apesar da piora no cenário internacional, o BCE reafirmou que seu compromisso permanece o mesmo: levar a inflação de volta à meta de 2% no médio prazo.
Segundo o comunicado, a instituição continuará ajustando sua política monetária conforme a evolução dos indicadores econômicos e do conflito no Oriente Médio.
Enquanto isso, consumidores e empresas da Zona Euro podem enfrentar um cenário de crédito mais caro por mais tempo, caso a inflação continue pressionada e o BCE seja obrigado a voltar a elevar as taxas de juro nos próximos meses.
Leia também: A corte entendeu o próprio erro e leva questão para a corte europeia