O futuro do empreendedorismo feminino e os desafios do acesso a investimentos estiveram no centro de um dos debates mais acompanhados da NovaNext, conferência internacional de tecnologia e inovação realizada em Aveiro, Portugal.
O painel reuniu lideranças empresariais de diferentes países para discutir os obstáculos enfrentados por mulheres que lideram negócios e startups em mercados ainda predominantemente masculinos.
Entre as participantes estavam as brasileiras Thaiane Maciel, fundadora do Instituto Ecocria – Canal Novo Mundo, e Millena Araújo, CEO da Inteligência Educacional, além da holandesa Marleen Evertsz, da Nxchange, e da empresária Mayara Marinov, do DTL Group.
“Capital não é só dinheiro”
Uma das declarações mais marcantes do debate veio de Thaiane Maciel.
Segundo a empreendedora brasileira, o problema vai além da simples disponibilidade de recursos financeiros.
“Capital não é só dinheiro. É permissão. É a diferença entre implorar por uma cadeira e, de fato, ser dona da sala”, afirmou durante o evento.
A frase sintetizou uma das principais discussões da conferência: a dificuldade das mulheres em acessar espaços de decisão e influência no ecossistema de investimentos.
Mulheres recebem menos recursos apesar dos resultados
Os números apresentados durante o painel reforçam essa realidade.
De acordo com o Female Innovation Index 2025, negócios liderados por mulheres recebem menos de 3% do investimento global em capital de risco.
Ao mesmo tempo, estudos indicam que empresas fundadas por mulheres costumam apresentar desempenho financeiro competitivo e, em muitos casos, retorno superior ao de empresas lideradas exclusivamente por homens.
A CEO da Inteligência Educacional, Millena Araújo, destacou que o problema não está na capacidade das empreendedoras.
“O problema não é que as mulheres não estejam prontas. É onde o capital está estruturalmente posicionado”, afirmou.
Portugal e Europa seguem tendência global
Segundo os dados debatidos no evento, apenas 12% do capital captado por startups na Europa em 2024 foi destinado a empresas fundadas por mulheres.
Em Portugal, aplicando essa proporção aos investimentos realizados no país, estima-se que pouco mais de 53 milhões de euros tenham chegado a startups lideradas por mulheres.
O cenário é semelhante em diversas regiões do mundo.
Na América Latina, negócios liderados por mulheres receberam cerca de 18% dos investimentos em grandes rodadas de financiamento.
Nos Estados Unidos, startups fundadas exclusivamente por mulheres continuam a captar apenas uma pequena parcela do capital disponível.
Brasil registra crescimento do empreendedorismo feminino
Apesar das dificuldades de acesso ao crédito e ao investimento, o empreendedorismo feminino segue em crescimento no Brasil.
Dados apresentados durante o debate mostram que as mulheres responderam por quase metade dos empreendedores iniciantes no país em 2024.
Além disso, mais de dois milhões de novos pequenos negócios foram abertos por mulheres em 2025.
No entanto, o acesso aos recursos financeiros ainda não acompanha esse avanço.
Segundo informações citadas no painel, empresas lideradas por mulheres recebem menos de um terço do crédito disponível no mercado brasileiro.
Quem decide para onde vai o dinheiro?
Outro ponto levantado pelas participantes foi a baixa presença feminina nos cargos responsáveis pela gestão de fundos de investimento.
Dados do setor indicam que as mulheres ocupam uma parcela reduzida das posições de decisão no mercado de venture capital.
Para as empreendedoras presentes no debate, ampliar a participação feminina nesses espaços pode ser um passo importante para tornar o ecossistema mais diverso e acessível.