A Copa do Mundo voltou a impulsionar o mercado de apostas esportivas.
Segundo dados da plataforma Placar das Bets, os brasileiros movimentaram cerca de R$ 530,2 milhões em casas de apostas apenas nos primeiros 20 dias do torneio, reforçando as preocupações sobre o impacto das chamadas bets no orçamento das famílias.
O alerta foi feito pelo Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), que afirma que grandes eventos esportivos ampliam significativamente a exposição da população à publicidade das plataformas de apostas.
Segundo o instituto, o fenômeno não atinge apenas apostadores habituais, mas também consumidores ocasionais e pessoas em situação de maior vulnerabilidade.
Mercado pode crescer 50% nesta Copa
A preocupação ganhou força após a divulgação de um estudo da empresa Softswiss, fornecedora internacional de tecnologia para plataformas de apostas.
A pesquisa estima que a Copa deste ano poderá elevar em 50% o volume global de apostas esportivas em relação ao Mundial de 2022.
Se a projeção se confirmar, o mercado poderá movimentar cerca de US$ 52 bilhões, contra aproximadamente US$ 35 bilhões registrados na edição anterior.
Segundo a empresa, fatores como o aumento do número de seleções, o crescimento dos mercados regulamentados e a popularização das apostas por celular explicam esse avanço.
Brasil pode representar 10% das apostas
Estimativas do setor apontam que os apostadores brasileiros podem responder por aproximadamente 10% do volume global de apostas durante o torneio.
Esse percentual pode crescer caso a seleção brasileira avance às fases decisivas da competição.
A ampliação da Copa para 48 seleções e 104 partidas também contribui para aumentar o número de oportunidades de apostas.
Valor médio das apostas aumentou
Dados do Placar das Bets, plataforma de monitoramento baseada em informações do Open Finance, mostram que o gasto médio dos brasileiros também aumentou.
Antes do início da Copa, cada apostador desembolsava, em média, R$ 188.
Agora, esse valor já alcança R$ 242 por pessoa.
Idec alerta para riscos
Para o Idec, o crescimento das apostas não representa apenas uma expansão do mercado, mas também um problema de saúde pública.
A entidade afirma que campanhas publicitárias intensas, influenciadores digitais, clubes, atletas e patrocinadores contribuem para normalizar o hábito de apostar, muitas vezes apresentando a atividade como uma forma simples de entretenimento e de ganho financeiro.
Segundo o instituto, esse discurso costuma minimizar riscos já observados no Brasil, como superendividamento, perda de renda e impactos na saúde mental.
Especialista aponta “ilusão de controle”
O professor Ahmed El Khatib, doutor em Finanças e docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que grandes eventos esportivos despertam emoções que favorecem decisões impulsivas.
Segundo ele, muitos torcedores acreditam conhecer suficientemente os times e jogadores para prever resultados, desenvolvendo uma sensação de controle que não corresponde à realidade.
“O jogo cria a ilusão de que é possível antecipar o resultado das partidas, quando, na verdade, trata-se de uma atividade baseada no acaso”, afirma.
Debate passa pela regulação
Para o especialista, o desafio atual não é apenas discutir a proibição das apostas, mas fortalecer mecanismos de proteção aos consumidores.
Entre as propostas estão campanhas permanentes de educação financeira, limites para apostas, regras mais rígidas para publicidade e uso de inteligência artificial pelas plataformas para identificar comportamentos compulsivos.
Segundo El Khatib, medidas preventivas tendem a ser mais eficazes e menos custosas para a sociedade do que o tratamento dos problemas causados pelo vício em jogos.