Sentença revela como Brasil abastecia rede de tráfico de cocaína ligada à máfia italiana

As motivações da sentença da Operação Samba detalham como uma organização criminosa conectava fornecedores brasileiros, integrantes do PCC e grupos ligados à 'Ndrangheta para abastecer o mercado europeu de cocaína. A investigação aponta uso de tecnologia, criptomoedas e lavagem de dinheiro para manter o esquema em funcionamento.

As motivações da sentença da Operação Samba, divulgadas recentemente pelo Tribunal de Turim, revelam detalhes sobre uma organização criminosa que utilizava o Brasil como um dos principais pontos de saída de cocaína destinada ao mercado europeu.

Segundo a decisão judicial, a rede atuava de forma estruturada entre os dois países, conectando fornecedores brasileiros a grupos criminosos na Itália. A investigação aponta que o esquema movimentava toneladas de cocaína, milhões de euros e uma complexa estrutura financeira voltada à lavagem de dinheiro.

O conteúdo da sentença foi repercutido pela imprensa italiana e detalha como a organização conseguiu manter suas atividades mesmo após operações policiais e a prisão de integrantes considerados estratégicos.

Brasil era um dos principais pontos de origem da droga

De acordo com a investigação, os carregamentos saíam principalmente de portos brasileiros com destino à Europa, tendo como um dos principais pontos de entrada o porto de Gioia Tauro, na região da Calábria.

Além desse terminal, outras cargas eram encaminhadas para portos italianos e do norte da Europa, de onde a droga era distribuída para diferentes mercados do continente.

A Justiça italiana afirma que o esquema aproveitava a extensa malha marítima internacional para esconder os carregamentos em navios cargueiros que atravessavam o Oceano Atlântico.

Diferença de preço explicava os altos lucros

A sentença também mostra por que o tráfico internacional de cocaína continua sendo uma atividade extremamente lucrativa.

Segundo a reconstrução feita pelos investigadores, cada quilo da droga era adquirido no Brasil por cerca de 5 mil euros.

Após chegar à Europa, esse mesmo produto podia ser comercializado por valores superiores a 20 mil euros por quilo, multiplicando significativamente os lucros obtidos pela organização criminosa.

Justiça aponta ligação entre PCC e grupos mafiosos italianos

As investigações identificaram que o esquema reunia diferentes organizações criminosas em uma mesma cadeia de abastecimento.

Segundo o processo, fornecedores brasileiros atuavam em conjunto com integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), apontado pelas autoridades como a maior organização criminosa do Brasil, além de grupos ligados à ‘Ndrangheta, considerada atualmente uma das organizações mafiosas mais influentes no tráfico internacional de cocaína.

Também participavam das operações financiadores europeus responsáveis por investir nas cargas e dividir os riscos e os lucros do esquema.

Investigação aponta papel de intermediário entre Brasil e Itália

No centro da investigação está Vincenzo Pasquino.

Segundo a Justiça italiana, ele era um dos principais responsáveis por intermediar negociações entre fornecedores brasileiros e integrantes da ‘Ndrangheta.

Antes de colaborar com as autoridades, Pasquino teria coordenado carregamentos de cocaína, organizado negociações internacionais e mantido contato direto tanto com traficantes brasileiros quanto com famílias mafiosas italianas.

Organização continuou operando mesmo após prisões

Um dos pontos destacados nas motivações da sentença é a capacidade da organização de manter suas atividades mesmo após grandes operações policiais.

Segundo os investigadores, a prisão, em 2019, dos principais integrantes da família Assisi, no Brasil, não interrompeu o funcionamento da estrutura criminosa.

Familiares e colaboradores teriam assumido funções ligadas à coordenação das operações, administração financeira e cobrança de dívidas, garantindo a continuidade do esquema.

Para a Justiça italiana, esse comportamento demonstra um elevado nível de planejamento e organização da rede.

Tecnologia e criptomoedas mudaram a atuação do crime organizado

A investigação também revela uma mudança no perfil das organizações criminosas envolvidas no tráfico internacional.

Em vez de estruturas rígidas, como os antigos cartéis, os grupos passaram a operar por meio de redes descentralizadas, utilizando celulares criptografados, criptomoedas, empresas de fachada e comunicação digital para coordenar operações em diferentes países.

Segundo os investigadores, esse modelo tornou as organizações mais flexíveis e mais difíceis de serem desarticuladas pelas autoridades.

Cooperação entre Brasil e Itália levou à Operação Samba

A Operação Samba foi resultado de uma ação conjunta entre autoridades brasileiras e italianas.

Em dezembro de 2024, uma operação simultânea realizada nos dois países resultou em dezenas de prisões e permitiu identificar parte da estrutura logística e financeira utilizada pela organização.

As primeiras condenações foram proferidas em março de 2026.

No entanto, as investigações continuam para identificar outros envolvidos, financiadores e possíveis esquemas de lavagem de dinheiro relacionados ao grupo criminoso.

Mensagens codificadas ajudaram investigadores

As mais de cem páginas que compõem as motivações da sentença mostram que boa parte das provas foi construída a partir da análise conjunta de mensagens, viagens internacionais e movimentações financeiras.

Os investigadores identificaram o uso de expressões aparentemente comuns para esconder conversas relacionadas ao tráfico.

Entre elas estava a frase “os sapatos das crianças”, utilizada, segundo a investigação, como código para tratar de ordens, pagamentos ou movimentações ligadas às operações criminosas.

Analisadas isoladamente, as mensagens pareciam não ter relação com atividades ilícitas. No entanto, cruzadas com interceptações telefônicas, registros financeiros e deslocamentos internacionais, tornaram-se peças importantes para reconstruir uma das maiores rotas de tráfico de cocaína entre Brasil e Itália dos últimos anos.

 

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