Uma expedição internacional que combina ciência, preservação ambiental e formação de jovens navegadores está prestes a iniciar uma longa jornada com destino à Antártica. Com participação de equipes do Brasil, da Itália e de outros países, a iniciativa utilizará duas embarcações para desenvolver pesquisas sobre os oceanos, documentar ecossistemas marinhos e promover atividades educacionais durante o percurso.
Antes da partida, prevista para as próximas semanas, os navios permanecem atracados na Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, no Rio de Janeiro, onde passam pelos últimos preparativos logísticos e técnicos.
A missão será realizada pelo veleiro Guppy, comandado pela exploradora holandesa Laura Dekker, e pela Nave Santa Maria, liderada pelo explorador italiano Simone Sacco.
Rota inclui litoral brasileiro, Atlântico Sul e Antártica
A viagem começará pelo litoral brasileiro e seguirá em direção ao Uruguai, Argentina e Terra do Fogo, região considerada a porta de entrada para a Antártica.
Depois dessa etapa inicial, cada embarcação seguirá um roteiro próprio, embora ambas permaneçam integradas ao mesmo projeto científico.
O Guppy navegará até a Península Antártica, onde realizará atividades de monitoramento ambiental e observação científica. Em seguida, continuará a viagem pela Patagônia, Polinésia e Nova Zelândia.
Já a Nave Santa Maria cruzará o Atlântico Sul passando pelas Ilhas Malvinas, Geórgia do Sul e Tristão da Cunha. A primeira fase da missão terminará na Cidade do Cabo, na África do Sul, antes de uma nova expedição rumo a Madagascar.
Ciência e preservação dos oceanos estão no centro da missão
Embora a navegação seja um dos aspectos mais visíveis da expedição, o principal objetivo do projeto é ampliar o conhecimento científico sobre algumas das áreas marinhas menos exploradas do planeta.
Durante a jornada serão realizados levantamentos hidroacústicos, mapeamentos batimétricos tridimensionais, mergulhos científicos, monitoramento da fauna marinha e registros audiovisuais para documentários.
As informações coletadas pelas duas embarcações serão compartilhadas entre as equipes de pesquisa, permitindo uma análise mais ampla das características do Atlântico Sul e das águas antárticas.
Um antigo barco transformado em laboratório flutuante
A Nave Santa Maria representa um dos elementos mais inovadores da expedição.
Administrada pela fundação italiana Secutor, a embarcação foi restaurada ao longo de quatro anos a partir de um antigo barco pesqueiro construído na Holanda em 1964. Hoje, funciona simultaneamente como navio de pesquisa, escola de navegação e plataforma de produção audiovisual.
A bordo convivem equipamentos modernos, como sistemas de sonar, drones marítimos, laboratórios e instrumentos desenvolvidos especialmente para pesquisas submarinas, com métodos tradicionais de navegação, incluindo sextante, radiogoniômetro e telex, preservando conhecimentos históricos da navegação oceânica.
Formação de jovens faz parte da proposta
Além das pesquisas científicas, o projeto possui um forte caráter educacional.
Idealizada por Simone Sacco, a iniciativa seleciona jovens entre 16 e 35 anos de diferentes origens para viver meses embarcados aprendendo navegação, trabalho em equipe, disciplina e atividades científicas.
Os participantes chegam de realidades bastante diversas. Entre eles estão estudantes, tatuadores, ex-motoristas de ônibus, skatistas e pessoas sem qualquer experiência anterior no mar.
Ao longo da viagem, recebem treinamento intensivo e passam a exercer funções técnicas dentro da embarcação, desenvolvendo habilidades que vão muito além da navegação.
Segundo os organizadores, o objetivo é criar oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional, incentivando valores como responsabilidade, cooperação e convivência coletiva.
Guppy aproxima adolescentes da ciência
O veleiro Guppy também mantém uma proposta voltada à educação.
A embarcação recebe adolescentes interessados em aprender técnicas tradicionais de navegação oceânica enquanto convivem com pesquisadores, mergulhadores e especialistas em conservação ambiental.
Parte das atividades será acompanhada por escolas de diferentes países por meio de transmissões ao vivo, permitindo que estudantes acompanhem a rotina da expedição e conheçam de perto os desafios da pesquisa científica em alto-mar.
Brasil desempenha papel estratégico na operação
O Rio de Janeiro foi escolhido como a última grande base logística antes da travessia rumo à Antártica.
Durante essa etapa, a missão conta com apoio da Marinha do Brasil, responsável por fornecer suporte técnico e operacional às embarcações.
A cooperação científica também envolve o Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), parceiro em pesquisas sobre mamíferos marinhos, coleta de DNA de baleias com auxílio de drones e compartilhamento de dados oceanográficos e batimétricos obtidos ao longo da viagem.
Cooperação internacional e inspiração para novas gerações
Apesar da dimensão científica, os organizadores destacam que a missão busca transmitir uma mensagem mais ampla.
Para Laura Dekker e Simone Sacco, navegar representa uma oportunidade de estimular o espírito de exploração, despertar o interesse pela ciência e fortalecer a relação das novas gerações com os oceanos.
A tripulação reúne pessoas de diferentes nacionalidades e forma uma comunidade internacional dedicada ao aprendizado, à cooperação e ao intercâmbio cultural.
Toda a expedição será registrada em documentários e produções audiovisuais voltadas ao público internacional, com o objetivo de aproximar a sociedade das pesquisas desenvolvidas e ampliar a conscientização sobre a importância da preservação dos oceanos.
Ao unir ciência, educação e colaboração entre países, a iniciativa pretende mostrar que a exploração marítima continua desempenhando um papel fundamental na produção de conhecimento e na formação de uma nova geração de pesquisadores, navegadores e defensores do meio ambiente.
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