Os estoques subterrâneos de gás da União Europeia encerraram agosto em um nível historicamente baixo. No dia 31, os depósitos estavam preenchidos em 65,39% da capacidade, o menor percentual registrado para essa época do ano desde o início da série histórica, em 2011.
O volume armazenado era de aproximadamente 71,5 bilhões de metros cúbicos, cerca de 14 bilhões de metros cúbicos abaixo do registrado um ano antes.
Os dados, baseados nas informações da Gas Infrastructure Europe (GIE), mostram que as reservas europeias chegaram ao fim do verão muito abaixo do padrão observado nos últimos anos. Em relação à média dos cinco anos anteriores, o nível estava cerca de 16,8 pontos percentuais abaixo.
A situação aumenta a atenção sobre a preparação da Europa para o inverno, período em que a demanda por gás tende a crescer devido ao aquecimento e ao maior consumo de energia.
Situação varia bastante entre os países
Apesar do quadro geral da União Europeia, os níveis de armazenamento são bastante diferentes entre os países.
A Letônia aparece entre os casos mais baixos, com seus depósitos em aproximadamente 45%. Na outra ponta, a Polônia já ultrapassava os 92% de preenchimento.
Essa diferença é importante porque a capacidade de armazenamento não é distribuída de maneira uniforme pela União Europeia. Alemanha, França, Itália e Países Baixos estão entre os países com maiores capacidades de armazenamento, enquanto alguns Estados-membros não possuem instalações próprias e dependem de acordos de solidariedade com outros países.
Por isso, o percentual de armazenamento da União Europeia como um todo não representa sozinho a situação de cada país. A infraestrutura disponível, as conexões entre os mercados e a possibilidade de importar gás por gasodutos ou na forma de GNL também influenciam a segurança do abastecimento.
A meta europeia de 90% continua valendo
A União Europeia mantém uma meta de 90% de preenchimento dos estoques de gás antes do período mais frio.
A regra foi criada durante a crise energética provocada pela redução do fornecimento russo e busca garantir uma reserva suficiente para atender residências e empresas durante o inverno.
A legislação, porém, foi modificada em 2025 para dar mais flexibilidade aos países.
O objetivo de 90% permanece vinculante, mas deixou de existir uma data única e rígida em 1º de novembro. Agora, os Estados-membros podem atingir o nível exigido em qualquer momento entre 1º de outubro e 1º de dezembro.
Também foi criada uma margem de flexibilidade de 10% em determinadas situações de dificuldade para o preenchimento dos depósitos. Em condições de mercado persistentemente desfavoráveis, a Comissão Europeia pode autorizar uma flexibilidade adicional de até 5%.
Comissão Europeia considera 80% suficiente para o inverno
Apesar da meta legal de 90%, a Comissão Europeia avaliou ao longo de 2026 que um nível inferior poderia ser suficiente para garantir o abastecimento durante o próximo inverno.
Em julho, o Gas Coordination Group, grupo que reúne a Comissão Europeia, os Estados-membros e representantes do setor, afirmou que 80% de armazenamento seria suficiente para garantir o fornecimento de gás no inverno de 2026/27. Na mesma ocasião, o grupo disse não haver preocupação imediata com a segurança do abastecimento europeu.
Uma avaliação anterior, divulgada em abril pela Comissão, também indicava que a infraestrutura europeia teria condições de levar os estoques a pelo menos 80% até 1º de novembro, dependendo principalmente da disponibilidade de GNL.
A Comissão destacou ainda que a expansão da capacidade de regaseificação desde 2022 aumentou a flexibilidade do sistema europeu e pode ajudar a compensar níveis de armazenamento mais baixos no início do inverno.
O que preocupa é a distância para a média histórica
O problema, portanto, não está apenas no número absoluto de bilhões de metros cúbicos armazenados, mas também no ritmo de reposição das reservas.
No fim de agosto de 2025, os estoques europeus estavam em aproximadamente 77,7%, contra 65,39% neste ano. A diferença mostra que a Europa entra no período de preparação para o inverno com uma quantidade significativamente menor de gás armazenado.
O nível atual também está muito abaixo da média para o período. Segundo dados baseados na série da GIE, o estoque em 31 de agosto estava cerca de 16,8 pontos percentuais abaixo da média dos cinco anos anteriores.
Isso não significa, por si só, que haverá falta de gás durante o inverno. A segurança energética depende também das importações, da infraestrutura de GNL, dos fluxos entre os países europeus, da demanda e das condições climáticas.
Itália entra no inverno em posição mais confortável
A situação italiana é mais favorável do que a média europeia.
Em meados de agosto, os estoques de gás da Itália já estavam próximos de 78%, enquanto a média europeia estava em torno de 60%.
Além disso, a empresa italiana Snam informou em abril que a capacidade de armazenamento contratualmente destinada ao próximo inverno já havia atingido o equivalente a pelo menos 90% da capacidade disponível. Naquele momento, os depósitos físicos italianos estavam preenchidos em mais de 46,5% e ainda se encontravam na fase de injeção.
A posição da Itália, portanto, é diferente da de países que chegam ao fim do verão com reservas muito mais baixas.
Europa depende cada vez mais de uma estratégia diversificada
O cenário atual também precisa ser analisado dentro das mudanças ocorridas no mercado europeu de gás desde a crise energética.
A União Europeia reduziu significativamente sua dependência do gás russo e ampliou a utilização de outras fontes de abastecimento, incluindo o gás natural liquefeito.
Segundo a Comissão Europeia, a participação combinada do gás russo, GNL e gás transportado por gasodutos, nas importações europeias caiu de 45% em 2021 para 12% em 2025. O bloco também adotou em 2026 novas medidas para eliminar progressivamente as importações de gás russo.
Isso significa que os estoques subterrâneos continuam sendo uma peça importante da segurança energética, mas não são a única fonte disponível para atender à demanda durante os meses frios.
Um inverno difícil, mas ainda sem alerta de falta de gás
O baixo nível das reservas aumenta a vulnerabilidade europeia a eventos inesperados, como uma onda de frio prolongada, interrupções no fornecimento internacional ou uma forte alta na demanda por GNL.
Por outro lado, as avaliações oficiais mais recentes não apontam para uma ameaça imediata de desabastecimento.
A Comissão Europeia afirmou em julho que não havia preocupação imediata com a segurança do fornecimento para o inverno e que o sistema europeu permanecia capaz de lidar com o cenário.
O desafio agora é recuperar parte desse déficit antes que o inverno avance. Com os estoques em 65,39% no fim de agosto, a Europa ainda precisa aumentar significativamente suas reservas, e terá de fazer isso dentro de uma janela que combina a meta de 90% com as flexibilidades previstas pelas novas regras.
Assim, o dado mais preocupante neste momento não é necessariamente a possibilidade de uma falta imediata de gás, mas o fato de a Europa estar entrando na temporada fria com reservas muito abaixo do padrão recente, o que pode deixar o mercado mais sensível a novas interrupções de oferta e a aumentos de preços.
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