Europa adota diferentes estratégias para integrar alunos estrangeiros nas escolas

Países europeus adotam estratégias diferentes para ensinar a língua local a alunos estrangeiros. França e Alemanha usam estruturas específicas, enquanto Espanha e Reino Unido adotam outros formatos de apoio.

A chegada de alunos estrangeiros às escolas tem levado diferentes países europeus a criar mecanismos de apoio linguístico para crianças e adolescentes que ainda não dominam o idioma usado nas aulas. As soluções variam: há sistemas que utilizam classes específicas por determinado período, outros combinam aulas de língua com a permanência na turma regular, enquanto alguns deixam a organização principalmente nas mãos das escolas e autoridades regionais.

Apesar das diferenças, existe um ponto em comum: o aprendizado da língua é tratado como uma das principais ferramentas para permitir que o estudante acompanhe o currículo e participe da vida escolar.

Na França, por exemplo, os alunos recém-chegados que não falam francês podem receber atendimento por meio das UPE2A, unidades pedagógicas destinadas a estudantes alófonos. Na Alemanha, cidades como Berlim mantêm as chamadas “classes de acolhimento”, voltadas a alunos que ainda não dominam o alemão. Já na Espanha, a oferta de apoio linguístico varia entre as comunidades autônomas.

França combina turma regular com aulas intensivas de francês

O modelo francês procura evitar que o estudante recém-chegado fique afastado integralmente da escola regular.

Segundo informações do Ministério da Educação francês, os alunos que chegam sem dominar o idioma são avaliados e matriculados de acordo com sua idade e conhecimentos. Ao mesmo tempo, podem ser encaminhados para uma UPE2A (Unité pédagogique pour élèves allophones arrivants), onde recebem ensino intensivo de francês.

A lógica é combinar as duas experiências. O estudante permanece vinculado à turma regular e frequenta as aulas específicas de língua de acordo com suas necessidades. À medida que desenvolve as competências necessárias, a participação na classe comum aumenta.

Materiais oficiais franceses também destacam a importância de adaptar o acolhimento às características de cada aluno. Em uma iniciativa apresentada pelo Ministério da Educação em 2025, estudantes de uma UPE2A produziram áudios de apresentação da escola em diferentes idiomas para ajudar recém-chegados que ainda não conseguiam compreender as informações em francês.

Alemanha utiliza classes de acolhimento para recém-chegados

Na Alemanha, a organização do ensino é descentralizada, e as regras podem variar entre os estados. Um exemplo é Berlim, onde existem as chamadas Willkommensklassen, ou classes de acolhimento.

Elas são destinadas a estudantes recém-chegados que ainda não conseguem acompanhar as aulas em alemão. O objetivo é desenvolver rapidamente o domínio do idioma e, ao mesmo tempo, familiarizar o aluno com o sistema escolar alemão.

De acordo com o governo de Berlim, os estudantes permanecem nessas classes até adquirir conhecimento suficiente de alemão para passar para uma turma regular adequada à sua idade e capacidade. Em determinados casos, alunos também participam desde o início de disciplinas como música, artes e educação física junto aos demais estudantes.

O modelo também prevê acompanhamento individual. Em vez de receber inicialmente um boletim tradicional, o aluno pode receber uma avaliação escrita sobre seu progresso em alemão e em outras disciplinas. O documento ajuda os professores a decidir quando a transferência para uma turma regular é adequada.

Na Espanha, as soluções variam entre as comunidades autônomas

A Espanha não possui um único modelo nacional de acolhimento linguístico para estudantes estrangeiros. A organização das medidas de apoio é, em grande parte, responsabilidade das administrações educacionais das comunidades autônomas.

Documentos do Ministério da Educação espanhol registram a existência de diferentes modalidades de programas de acolhimento, incluindo aulas de apoio linguístico, aulas de acolhimento e estruturas específicas para estudantes que precisam aprender o idioma utilizado no ensino.

Essas iniciativas podem envolver professores especializados, tutores, tradutores, intérpretes e mediadores interculturais. O formato também varia conforme a região e as características dos alunos.

Em algumas comunidades, são utilizadas aulas de imersão linguística, destinadas especialmente a estudantes que chegaram recentemente ao país e ainda não possuem domínio suficiente da língua de ensino. A proposta é temporária: o objetivo é que o aluno adquira as competências necessárias para acompanhar a turma regular.

O cenário espanhol também mostra o tamanho da presença estrangeira nas escolas. Segundo o Ministério da Educação, os estudantes estrangeiros representavam 13% dos alunos da educação primária e 11,7% da educação secundária obrigatória nos dados utilizados pelo Sistema Estatal de Indicadores da Educação.

Reino Unido prioriza o apoio dentro da escola

No Reino Unido, o tratamento dos estudantes que aprendem inglês como língua adicional segue uma lógica diferente. O conceito de English as an Additional Language (EAL) abrange alunos que utilizam outro idioma além do inglês, inclusive crianças que já nasceram no país.

Em vez de existir uma única estrutura nacional equivalente às UPE2A francesas ou às Willkommensklassen de Berlim, o apoio é organizado pelas escolas e autoridades educacionais, de acordo com as necessidades dos estudantes.

Orientações educacionais britânicas tratam o desenvolvimento do inglês como parte do trabalho da própria escola e destacam a necessidade de avaliar o nível linguístico do aluno, acompanhar seu progresso e garantir acesso ao currículo.

Essa diferença é importante: ter outra língua materna não significa necessariamente ser um aluno recém-chegado ou precisar de uma classe separada. Muitos estudantes bilíngues já possuem domínio suficiente do inglês para acompanhar normalmente as aulas.

Itália amplia o debate sobre língua e integração

Na Itália, a questão ganhou ainda mais espaço no debate educacional recente. O país discute novas medidas relacionadas à presença de estudantes estrangeiros nas escolas, em meio ao crescimento da diversidade linguística em algumas regiões.

A discussão ganhou força em setembro de 2026 após a primeira-ministra Giorgia Meloni defender a criação de um limite para o número de estudantes estrangeiros por turma e medidas relacionadas ao aprendizado do italiano por famílias estrangeiras. O governo ainda não havia apresentado, naquele momento, um número definitivo para o eventual limite.

O debate italiano, portanto, apresenta uma diferença em relação aos modelos de apoio linguístico encontrados em outros países: além das ferramentas pedagógicas para ensinar o idioma, entrou em discussão como distribuir os alunos que ainda não dominam a língua entre as diferentes turmas.

Não existe um único modelo europeu

Os exemplos mostram que a Europa não adota uma solução única para estudantes estrangeiros que chegam sem dominar o idioma local.

A França combina a matrícula na escola regular com períodos de ensino intensivo de francês. A Alemanha utiliza, em algumas regiões, classes específicas de acolhimento antes da passagem para o ensino regular. A Espanha permite diferentes formatos de acordo com cada comunidade autônoma. Já o Reino Unido trabalha principalmente com o conceito de inglês como língua adicional dentro das próprias escolas.

Na prática, os sistemas tentam resolver o mesmo problema: como garantir que uma criança que acabou de chegar ao país consiga aprender a língua sem perder o contato com o currículo, os colegas e a rotina escolar.

A diferença está principalmente na forma como cada país organiza esse processo entre classes específicas, reforço linguístico, integração gradual ou apoio individualizado.

 

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