Comunidade italiana no Brasil é vista como ‘recurso estratégico’ para a Itália

O subsecretário Massimo Dell’Utri destacou o papel estratégico da comunidade italiana no Brasil durante missão oficial ao país. A declaração ocorre após a Itália endurecer as regras para o reconhecimento da cidadania por descendência.

A comunidade italiana no Brasil pode desempenhar um papel estratégico nas relações entre os dois países, segundo Massimo Dell’Utri, subsecretário do Ministério das Relações Exteriores da Itália, a Farnesina, comandada pelo chanceler Antonio Tajani.

Durante uma missão oficial ao Brasil, com compromissos em São Paulo e Porto Alegre, Dell’Utri afirmou que a italianidade presente no país é uma realidade “viva, dinâmica e capaz de construir futuro”.

A declaração ocorre pouco mais de um ano depois da aprovação de mudanças que restringiram o reconhecimento da cidadania italiana por descendência para pessoas nascidas fora da Itália.

Italianidade como ponte entre Brasil e Itália

Dell’Utri está no Brasil desde 17 de setembro e encerra a missão nesta terça-feira (22). Em sua passagem pelo país, o subsecretário destacou a importância da comunidade italiana não apenas como resultado histórico da imigração, mas como uma ligação que permanece ativa entre brasileiros e italianos.

Segundo ele, os descendentes de italianos formam uma comunidade integrada à sociedade brasileira, mas que mantém vínculos culturais, familiares e econômicos com a Itália.

A Farnesina também vem apresentando os italianos residentes no exterior como uma espécie de ponte entre a Itália e os países onde vivem.

Nesse contexto, Dell’Utri classificou a comunidade italiana no Brasil como um “recurso estratégico” para a Itália e destacou sua capacidade de contribuir para o futuro das relações bilaterais.

A fala chama atenção porque ocorre em um cenário de mudanças nas regras para o reconhecimento da cidadania italiana por descendência.

Cidadania passou a ter critérios mais restritivos

A reforma da cidadania entrou em vigor em 2025, inicialmente por meio do decreto-lei nº 36, posteriormente convertido, com alterações, na Lei nº 74, de 23 de maio de 2025.

As novas regras restringiram as possibilidades de transmissão da cidadania italiana para pessoas nascidas no exterior que também possuem outra nacionalidade.

Entre as situações preservadas pela legislação estão os casos em que um dos pais ou avós tenha, ou tivesse no momento da morte, exclusivamente a cidadania italiana. Também existem hipóteses relacionadas à residência do genitor na Itália, conforme as condições estabelecidas pela lei.

A alteração teve impacto especialmente em países com grandes comunidades de descendentes de italianos, como o Brasil.

Foi justamente durante a discussão dessas mudanças que o governo italiano passou a defender a necessidade de estabelecer critérios mais definidos para o reconhecimento da cidadania.

Na época, Tajani afirmou que era necessário estabelecer “limites precisos” para evitar abusos e a “comercialização” de passaportes. O chanceler também defendeu que a cidadania deveria estar associada a um vínculo efetivo com a Itália.

Tajani também destacou os descendentes no Brasil

Apesar das diferenças entre o discurso sobre cidadania e a valorização da comunidade italiana no exterior, as declarações de Dell’Utri não representam uma oposição pública à posição de Tajani.

Durante sua própria passagem pelo Brasil, em setembro, o chanceler também adotou um discurso de valorização dos descendentes de italianos.

Em artigo publicado por ocasião da visita, Tajani afirmou que os cerca de 32 milhões de brasileiros de origem italiana representam um “patrimônio extraordinário”, formado por vínculos familiares, cultura, valores e amizade.

A declaração reforça a importância atribuída pelo governo italiano à comunidade de origem italiana no Brasil, mesmo após o endurecimento das regras para o reconhecimento da cidadania.

Uma relação que vai além da cidadania

As manifestações recentes colocam em evidência duas dimensões da política italiana em relação às comunidades de descendentes no exterior.

De um lado, a Itália busca fortalecer os vínculos culturais, econômicos e diplomáticos com milhões de pessoas que possuem origem italiana. De outro, estabeleceu critérios mais restritivos para que essa ligação familiar resulte no reconhecimento jurídico da cidadania italiana.

Dell’Utri ocupa desde abril de 2026 o cargo de subsecretário de Estado da Farnesina e integra a estrutura política do ministério comandado por Tajani. Sua viagem ao Brasil ocorreu na sequência da missão realizada pelo próprio chanceler em São Paulo.

Ao destacar a italianidade como uma realidade capaz de “construir futuro”, o subsecretário reforçou a ideia de que a relação entre a Itália e seus descendentes no exterior não se limita à memória da imigração.

Para o governo italiano, essa comunidade também pode desempenhar um papel nas relações culturais, econômicas e diplomáticas entre a Itália e os países onde os descendentes vivem.

 

Leia também: UE emite número recorde de autorizações de residência em 2025

Comente

Neste Artigo

Sobre o autor