O Brasil poderá ficar pelo menos dois anos sem exportar carne bovina para a União Europeia (UE). A estimativa foi apresentada por Eric Thévenard, diretor responsável por saúde e auditorias alimentares da autoridade sanitária europeia, durante uma reunião da Comissão de Agricultura do Parlamento Europeu, realizada na segunda-feira (28).
Segundo Thévenard, mesmo que o governo brasileiro resolva imediatamente as pendências sanitárias apontadas pelo bloco, a retomada das vendas dependerá da implementação de um sistema de rastreabilidade capaz de acompanhar os animais desde o nascimento. Como o ciclo de criação dos bovinos leva aproximadamente dois anos até o abate, a medida pode prolongar a interrupção das exportações.
“O tempo entre o nascimento e o abate, digamos, será de cerca de dois anos. Então vocês podem calcular; nada antes de dois anos, em teoria. Portanto, daqui a dois anos, a carne bovina não deverá vir do Brasil”, afirmou Thévenard aos integrantes da comissão.
A declaração foi feita em resposta a questionamentos do eurodeputado irlandês Ciaran Mullooly sobre as condições necessárias para que a carne brasileira volte a entrar no mercado europeu.
Por que a União Europeia suspendeu as importações?
A suspensão das importações de carne bovina, carne de aves e outros produtos de origem animal brasileiros entrou em vigor em 3 de setembro de 2026. A decisão está relacionada às exigências sanitárias europeias sobre o uso de antimicrobianos na produção pecuária, especialmente substâncias proibidas no bloco como promotores de crescimento.
A medida também ampliou as dúvidas sobre a capacidade do Brasil de garantir que os produtos exportados atendam integralmente às regras europeias.
Durante a reunião, Mullooly afirmou que o país ainda não apresentou garantias suficientes para demonstrar que seus controles sanitários estão de acordo com os padrões exigidos pela UE.
O parlamentar também mencionou problemas relacionados ao controle do estradiol, hormônio cujo uso na pecuária é proibido na União Europeia. Em dezembro de 2025, lotes de carne bovina brasileira foram recolhidos após a identificação da substância.
“Muitos consumidores acreditavam que a carne bovina vendida na UE não continha esse hormônio, já que ele é proibido no bloco. Eles a consumiram antes de serem informados de que ela não estava livre do hormônio, não era segura e deveria ser recolhida”, declarou o eurodeputado.
Rastreabilidade será decisiva para a retomada
Um dos principais obstáculos para a retomada das exportações é a exigência de rastreabilidade individual dos animais desde o nascimento.
A Comissão Europeia confirmou que o sistema precisa permitir o acompanhamento dos bovinos ao longo de toda a cadeia produtiva. Dessa forma, mudanças implementadas agora não seriam suficientes para liberar imediatamente a carne de animais que nasceram antes da adoção das novas medidas.
Na prática, mesmo que o Brasil consiga adequar seus procedimentos sanitários, será necessário comprovar que os animais destinados ao mercado europeu foram identificados e monitorados de acordo com as exigências do bloco.
Durante a audiência, o eurodeputado austríaco Thomas Waitz também questionou os mecanismos brasileiros de controle sobre o uso de medicamentos e a identificação do gado.
“No Brasil você pode comprar antibióticos por quilo em uma loja comum, sem nem precisar dizer se é agricultor ou não”, afirmou.
Waitz argumentou que a ausência de identificação individual dificulta o rastreamento da origem dos animais quando eles chegam aos confinamentos ou frigoríficos.
Além disso, segundo Mullooly, uma nova auditoria europeia sobre os controles brasileiros de antimicrobianos só será agendada quando houver uma perspectiva concreta de retomada do comércio.
“Uma nova entrada da carne bovina brasileira no mercado europeu não deve ocorrer até que seja comprovado o cumprimento de todas as exigências aplicáveis da União Europeia e que esse cumprimento seja verificado de forma independente”, afirmou.
Governo brasileiro prepara medidas para recuperar o mercado
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) trabalha para adequar os controles nacionais às exigências europeias e viabilizar a retomada das exportações.
Entre as iniciativas estão novas regras para definir os medicamentos cujo uso é proibido na produção pecuária, além de procedimentos de rastreabilidade, alerta e bloqueio de lotes em caso de eventual contaminação.
Outra medida é um protocolo privado elaborado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). O documento prevê auditorias em fazendas e frigoríficos habilitados a exportar para o mercado europeu.
O governo brasileiro também aguarda uma auditoria presencial da União Europeia na cadeia produtiva da carne bovina. A inspeção deverá avaliar se os procedimentos adotados pelo país oferecem as garantias sanitárias exigidas pelo bloco.
O resultado dessa avaliação será importante para determinar os próximos passos, embora a implementação de um sistema de rastreabilidade desde o nascimento dos animais possa impedir uma retomada imediata das vendas.
Frango e mel recebem avaliação positiva
Enquanto a cadeia da carne bovina enfrenta restrições, os setores brasileiros de aves e mel receberam uma avaliação favorável das autoridades europeias.
Em relatório divulgado na segunda-feira (28), a Comissão Europeia considerou satisfatórios os controles brasileiros relacionados à produção desses dois segmentos. A auditoria analisou o arcabouço legal, os procedimentos adotados, a capacitação dos fiscais e os mecanismos oficiais de fiscalização.
Segundo o Ministério da Agricultura, o documento concluiu que os sistemas brasileiros são capazes de fornecer as garantias previstas na legislação europeia. Durante a inspeção, realizada entre 24 de agosto e 4 de setembro, as autoridades também verificaram a proibição do uso de antimicrobianos como promotores de crescimento e de aumento de rendimento.
A avaliação positiva, no entanto, não autoriza automaticamente a retomada das exportações. O Brasil ainda depende das etapas administrativas necessárias para voltar à lista de países habilitados a fornecer esses produtos à União Europeia.
A situação é relevante para o comércio exterior brasileiro. Em 2025, o país exportou US$ 1,049 bilhão em carne bovina para o bloco europeu, o equivalente a aproximadamente R$ 5,7 bilhões.
A estimativa de dois anos apresentada por Thévenard, portanto, indica que a recuperação desse mercado dependerá não apenas da solução das pendências sanitárias, mas também da comprovação de que os novos controles de rastreabilidade atendem aos critérios europeus.
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