Cinco dos principais sistemas europeus de pagamentos digitais deram um novo passo para integrar suas plataformas. Bancomat, da Itália, Bizum, da Espanha, Wero, da European Payments Initiative (EPI), SIBS-MB WAY, de Portugal, e Vipps MobilePay, presente nos países nórdicos, criaram a European Network for Payments (Enp).
A nova empresa terá como objetivo administrar e desenvolver a interoperabilidade entre as soluções participantes. Na prática, a proposta é permitir que uma pessoa utilize seu sistema de pagamento habitual para fazer uma transação em outro país europeu, sem precisar necessariamente recorrer a uma plataforma diferente.
Segundo comunicado conjunto divulgado pelas empresas, a criação da Enp representa “uma etapa fundamental rumo a um ecossistema europeu de pagamentos mais autônomo e interconectado”.
As soluções participantes poderão oferecer gradualmente pagamentos transfronteiriços entre países europeus, tanto entre pessoas quanto em estabelecimentos físicos e no comércio eletrônico. Cada plataforma, porém, continuará mantendo sua própria marca, funcionalidades e experiência de utilização.
Integração pretende conectar sistemas nacionais
A iniciativa parte de uma realidade comum no mercado europeu: diferentes países desenvolveram seus próprios sistemas de pagamentos instantâneos e carteiras digitais.
O Bancomat é uma das principais soluções de pagamento da Itália, enquanto o Bizum é amplamente utilizado na Espanha. Em Portugal, o MB WAY permite transferências e pagamentos pelo celular. Já o Wero, desenvolvido pela EPI, vem sendo implementado em diferentes mercados europeus, e o Vipps MobilePay atua principalmente nos países nórdicos.
A ideia da Enp é conectar essas estruturas sem eliminar as plataformas nacionais.
Em fevereiro de 2026, as cinco empresas já haviam assinado um memorando de entendimento com o objetivo de acelerar a criação de soluções de pagamentos paneuropeias interoperáveis. Na ocasião, as companhias estabeleceram como ambição permitir pagamentos transfronteiriços de forma integrada até 2027.
Testes entre países já foram realizados
A criação da Enp ocorre depois de testes que demonstraram que diferentes sistemas podem funcionar de maneira integrada.
Em abril, Bancomat, EPI e SIBS-MB WAY realizaram uma prova de conceito para pagamentos em lojas entre diferentes países. O teste utilizou códigos QR e permitiu que usuários de cada uma das plataformas efetuassem pagamentos em estabelecimentos associados às outras soluções.
Segundo as empresas, a experiência confirmou a viabilidade de um modelo central de interoperabilidade para pagamentos móveis entre diferentes sistemas europeus.
O objetivo agora é ampliar essa integração e disponibilizá-la progressivamente aos usuários.
Pagamentos entre pessoas e compras
A interoperabilidade deverá contemplar diferentes tipos de transações.
A primeira possibilidade envolve pagamentos entre pessoas, conhecidos como P2P (peer-to-peer). Isso permitiria, por exemplo, que uma pessoa na Itália envie dinheiro para alguém na Espanha utilizando seu sistema habitual de pagamentos, desde que as duas plataformas estejam integradas à rede.
A proposta também prevê a utilização em lojas físicas e no comércio eletrônico. Dessa forma, a mesma infraestrutura poderá ser usada tanto para transferências quanto para compras.
O desenvolvimento do Wero oferece um exemplo de como esse modelo vem avançando. A solução já permite pagamentos entre pessoas e está sendo expandida para compras online e pagamentos presenciais. Em setembro, a EPI informou que mais de 48 mil estabelecimentos na Bélgica, França, Alemanha, Luxemburgo e Holanda já haviam processado transações com Wero.
Projeto envolve até 130 milhões de usuários
A integração reúne sistemas que já possuem uma base significativa de usuários em diferentes mercados europeus.
Segundo informações apresentadas ao Parlamento Europeu em fevereiro, a iniciativa poderia alcançar aproximadamente 130 milhões de usuários em 13 países da União Europeia e da Noruega, correspondendo a até 72% da população da UE. Esses números se referem ao potencial de cobertura indicado para a plataforma interoperável e não significam que todos esses usuários já tenham acesso aos pagamentos transfronteiriços integrados.
A expansão também ocorre em um momento de crescimento dos pagamentos digitais na Europa. A EPI, responsável pelo Wero, afirma que sua plataforma busca oferecer uma solução baseada em pagamentos instantâneos diretamente entre contas bancárias.
Movimento busca ampliar autonomia europeia
Além da praticidade para consumidores e empresas, a iniciativa tem uma dimensão estratégica para o setor financeiro europeu.
As empresas envolvidas afirmam que a integração pretende contribuir para um ecossistema de pagamentos europeu mais autônomo, reduzindo a fragmentação entre os sistemas nacionais.
A EPI afirma que o Wero foi criado com o objetivo de fortalecer a autonomia estratégica e a resiliência do sistema europeu de pagamentos. A plataforma utiliza a infraestrutura europeia de pagamentos instantâneos SEPA e possui regras próprias desenvolvidas na Europa.
A iniciativa privada também ocorre paralelamente ao projeto do euro digital, desenvolvido pelo Banco Central Europeu. São projetos diferentes: a Enp reúne empresas e sistemas de pagamento existentes, enquanto o euro digital é uma iniciativa do Eurosistema para criar uma forma digital de moeda de banco central.
Integração será implementada gradualmente
Apesar da criação da Enp, os pagamentos integrados não estarão necessariamente disponíveis de forma simultânea em todos os países e serviços.
As empresas afirmam que a oferta será implementada progressivamente pelas soluções participantes. A expansão dependerá da integração técnica entre as plataformas, da adesão de bancos e comerciantes e dos requisitos regulatórios de cada mercado.
O avanço registrado em 2026, porém, mostra que a interoperabilidade já deixou a fase exclusivamente conceitual. Testes de pagamentos entre sistemas diferentes foram realizados e plataformas como o Wero continuam ampliando sua presença em países europeus.
A expectativa das empresas é transformar essas iniciativas nacionais em uma rede capaz de permitir pagamentos digitais mais simples entre diferentes países da Europa, mantendo as marcas e os aplicativos que os consumidores já utilizam.
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