As duas maiores comunidades de descendentes italianos fora da Itália (Brasil e Argentina), deram um passo inédito ao oficializar uma articulação conjunta voltada à defesa de direitos e ao fortalecimento da representação política no exterior.
A iniciativa foi formalizada na última quinta-feira (9), em Buenos Aires, dentro da estrutura da União Sul-Americana dos Imigrantes Italianos (USEI), reunindo lideranças políticas e empresariais ligadas à diáspora italiana.
Fim da atuação isolada
A proposta surge após anos em que brasileiros e argentinos atuaram separadamente na política italiana, sem coordenação estratégica.
Segundo Marcelo de Carvalho Fragali, que assume a vice-presidência da organização, essa fragmentação enfraqueceu a atuação das comunidades ao longo do tempo.
“O movimento nasce do fato de que as duas maiores comunidades italianas fora da Itália estão no Brasil e na Argentina. Juntas, somamos cerca de 50 milhões de ítalo-descendentes, mas, historicamente, essas comunidades atuavam de forma totalmente separada e desorganizada”, afirmou.
Ele destaca que, até então, cada país elegia seus representantes de forma independente, sem alinhamento político.
“A Argentina elegendo seus representantes, o Brasil os seus, sem nenhuma coordenação estratégica comum.”
Reação a mudanças no direito à cidadania
A união também surge como resposta a medidas recentes que impactam o reconhecimento da cidadania italiana por descendência (ius sanguinis).
Fragali afirma que a articulação busca criar uma frente comum diante dessas mudanças.
“Diante do ataque a nossos direitos, ficou evidente a necessidade de uma articulação para unificar Brasil e Argentina em torno de uma pauta comum. Criar uma estrutura de atuação coordenada, com liderança e estratégia.”
Críticas ao chamado “Decreto Tajani”
Outro ponto central do movimento é a resistência a propostas que restringem direitos dos descendentes italianos no exterior.
O ex-deputado Luis Roberto Lorenzato afirma que iniciativas semelhantes já haviam surgido anteriormente.
“A Farnesina tentou aprovar as mesmas cláusulas do Decreto Tajani ainda em 2019. Na época, consegui interceptar o texto e retirar termos que prejudicariam os descendentes”, relatou.
Lorenzato também criticou a condução atual da política externa italiana e a visão sobre o direito à cidadania.
“Dizem que a lei italiana é única no mundo, o que é mentira. Todos os países da União Europeia seguem o direito de sangue. O problema é que a Itália não percebeu a potência que tem no exterior.”
Ele reforça que a nova articulação pretende ter impacto concreto:
“Essa nossa união não é simbólica, é decisiva.”
Estratégia vai além da cidadania
A iniciativa não se limita à defesa jurídica. O grupo pretende ampliar sua atuação para áreas econômicas e institucionais, fortalecendo a relação entre a Itália e sua diáspora.
Fragali aponta que a burocracia italiana ainda é um obstáculo para investimentos.
“O futuro que defendemos não é apenas jurídico. É econômico, institucional e estratégico. Precisamos de mecanismos de ‘fast track’ e acesso ao sistema financeiro para os ítalo-descendentes.”
Ele também destacou o potencial econômico pouco explorado na relação com a Itália.
“Estamos falando de construir um novo ciclo de relação entre a Itália e a diáspora, com foco na atração de investimentos. Por exemplo, somente nos Estados Unidos há mais de 200 bilhões de dólares em investimentos brasileiros, enquanto na Itália esse volume é insignificante.”
Falta de representação política
Outro ponto levantado pelas lideranças é a baixa influência política dos representantes eleitos no exterior.
Segundo Fragali, esse cenário contribui para a perda de direitos.
“A política funciona com base em pesos e contrapesos. Sempre que um direito é retirado, isso ocorre porque não houve força suficiente para impedir.”
Ele critica a atuação atual no Parlamento italiano:
“No caso dos ítalo-descendentes, o problema central é evidente: a total falta de representação efetiva no Parlamento italiano.”
E conclui destacando a necessidade de presença real nos centros de decisão:
“Política não se resolve com eventos, debates ou manifestações simbólicas. Política se resolve com capacidade de bloquear iniciativas prejudiciais, impulsionar medidas favoráveis e presença efetiva nos centros de decisão.”
Nova fase para a diáspora italiana
A aliança entre Brasil e Argentina, que reúne uma base de cerca de 2,5 milhões de cidadãos inscritos no AIRE, marca uma tentativa de reorganizar a atuação política da comunidade italiana no exterior.
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