A espera pela nacionalidade portuguesa por tempo de residência chegou a 33 meses no Arquivo Central do Porto, segundo os dados mais recentes reunidos em uma nova ferramenta que acompanha a evolução das filas de processos de nacionalidade em Portugal. O prazo é sete meses superior ao registrado na Conservatória dos Registos Centrais, em Lisboa, onde os processos analisados correspondem a uma fila de 26 meses.
Os dados, referentes a julho de 2026 no Porto e junho de 2026 em Lisboa, revelam uma diferença significativa entre os dois serviços responsáveis pela análise de processos semelhantes. A disparidade também aparece em outras modalidades de nacionalidade, mostrando que o tempo de espera pode variar consideravelmente de acordo com a conservatória responsável pelo pedido.
Ferramenta reúne dados oficiais do IRN
As informações estão disponíveis em uma nova plataforma gratuita criada pelo site Cidadania e Visto, que reúne 27 quadros mensais divulgados pelo Instituto dos Registos e do Notariado (IRN) entre maio de 2024 e julho de 2026.
A ferramenta permite acompanhar, mês a mês, até que período de entrada os processos estavam sendo analisados no Arquivo Central do Porto e na Conservatória dos Registos Centrais, em Lisboa.
Com a reunião dos dados históricos em um único espaço, também é possível observar se as filas avançaram, permaneceram praticamente paradas ou aumentaram ao longo dos meses.
A iniciativa surgiu inicialmente para atender uma necessidade interna da própria empresa. Segundo Fábio Pereira, gerente do Cidadania e Visto, a ideia era criar uma maneira mais simples de explicar aos clientes como funcionam os prazos dos processos de nacionalidade portuguesa.
Durante o desenvolvimento, porém, a equipe percebeu que os dados poderiam ser úteis para um público muito maior, já que o tempo de espera é uma das principais dúvidas de quem está acompanhando um processo de cidadania em Portugal.
Dados do IRN são públicos, mas deixam de estar disponíveis
De acordo com os responsáveis pela plataforma, as informações utilizadas são divulgadas pelo próprio IRN nas respostas automáticas enviadas por e-mail pelo Arquivo Central do Porto e pela Conservatória dos Registos Centrais.
Essas respostas informam a data de entrada dos processos que estão sendo analisados naquele momento, de acordo com cada tipo de pedido de nacionalidade.
O problema é que os dados têm caráter temporário. As informações aparecem nas respostas automáticas, mas não ficam necessariamente disponíveis de forma permanente. No mês seguinte, um novo quadro substitui o anterior.
A plataforma criada pelo Cidadania e Visto funciona, portanto, como um histórico desses registros. Os responsáveis passaram a guardar os quadros mensais e organizá-los de acordo com a conservatória e o tipo de processo.
Entre as categorias acompanhadas estão pedidos de nacionalidade para filhos de portugueses, netos de portugueses, casamento, residência e descendentes de judeus sefarditas, entre outras modalidades.
Porto chega a 33 meses de espera para nacionalidade por residência
O dado que mais chama atenção no levantamento é o tempo de espera para os processos de nacionalidade por residência.
No Arquivo Central do Porto, os dados de julho de 2026 indicam que estavam sendo analisados processos com até 33 meses de espera.
Em Lisboa, por sua vez, o quadro referente a junho de 2026 apontava para uma fila de aproximadamente 26 meses.
Na prática, isso representa uma diferença de sete meses entre os dois serviços para esse tipo de processo.
A diferença mostra que não existe um único prazo de espera para todos os pedidos de nacionalidade portuguesa. O andamento depende, entre outros fatores, do local responsável pela análise e do volume de processos acumulados em cada unidade.
Filas avançam lentamente em algumas modalidades
O levantamento dos dados históricos também permite identificar situações em que a fila praticamente não avança durante longos períodos.
Um dos exemplos é o processo de nacionalidade por casamento na Conservatória dos Registos Centrais, em Lisboa.
Entre outubro de 2024 e junho de 2026, período de 20 meses, a fila desse tipo de processo avançou apenas dois meses, de acordo com os dados reunidos pela plataforma.
Isso significa que o período transcorrido no calendário foi muito superior ao avanço registrado na análise dos processos.
A situação também aparece em pedidos relacionados a descendentes de judeus sefarditas. No período analisado, a fila avançou apenas três meses, enquanto o tempo de espera chegou a 60 meses, ou cinco anos.
Diferença entre Porto e Lisboa também aparece em processos de filhos de portugueses
A disparidade entre as duas unidades não se limita aos pedidos de nacionalidade por residência.
Em julho de 2026, um processo de nacionalidade de filho maior de português apresentava uma espera de aproximadamente 14 meses no Porto.
Em Lisboa, o quadro disponível indicava uma espera de 51 meses para a mesma modalidade.
A diferença chega a 37 meses, ou pouco mais de três anos.
O contraste mostra que uma pessoa que apresenta um processo de nacionalidade com base no mesmo tipo de vínculo familiar pode enfrentar períodos de espera muito diferentes dependendo da conservatória responsável pela análise.
Por que acompanhar os dados históricos é importante?
A divulgação desses números permite que os requerentes tenham uma visão mais realista sobre o andamento das filas.
Isso é especialmente relevante porque o prazo oficial de conclusão de um processo não necessariamente corresponde ao tempo que cada pessoa efetivamente terá de esperar. O volume de pedidos, a capacidade de análise dos serviços e o tipo de nacionalidade solicitada podem influenciar diretamente o ritmo das filas.
Ao reunir os registros mensais, a ferramenta também permite observar tendências que seriam difíceis de identificar consultando apenas o quadro mais recente divulgado pelo IRN.
Em vez de olhar somente para a situação de um determinado mês, o interessado pode comparar os dados anteriores e verificar quanto a fila avançou ao longo do tempo.
Plataforma pretende ampliar o banco de dados
Os responsáveis pelo projeto também querem ampliar o número de informações disponíveis.
A plataforma permite que pessoas que tenham acesso a quadros de meses que ainda não foram incorporados ao sistema, ou informações referentes a outras conservatórias, enviem os dados para inclusão.
A intenção é construir um histórico cada vez mais completo dos prazos de nacionalidade em Portugal.
Segundo os criadores, a proposta é que o acompanhamento deixe de depender exclusivamente de uma única empresa e passe a reunir informações divulgadas pelo IRN em diferentes partes do país.
Com isso, o objetivo é transformar dados que hoje aparecem de maneira dispersa e temporária em um histórico organizado, permitindo que quem aguarda uma decisão sobre a nacionalidade portuguesa consiga acompanhar com mais clareza a evolução das filas.
O que os números mostram
Os dados reunidos até julho de 2026 evidenciam que os processos de nacionalidade portuguesa continuam enfrentando filas bastante diferentes entre as conservatórias.
Na modalidade por residência, o Porto aparece com uma espera de 33 meses, enquanto Lisboa registra 26 meses. Já entre os processos de filhos maiores de portugueses, a situação se inverte: são cerca de 14 meses no Porto contra 51 meses em Lisboa.
Além das diferenças entre unidades, o levantamento mostra que algumas filas avançam de maneira muito lenta. Em determinados casos, meses ou até anos de calendário representam apenas alguns meses de avanço na análise dos processos.
Para quem aguarda a nacionalidade portuguesa, acompanhar a evolução desses dados pode ajudar a entender melhor o estágio das filas e a diferença entre o tempo transcorrido desde o protocolo e o ritmo efetivo de análise pelo IRN.
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