O vice-primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, voltou a defender publicamente as mudanças promovidas pelo governo nas regras de cidadania italiana. Durante a abertura da Conferência dos Cônsules da Itália no Mundo, realizada na Farnesina, em Roma, o chanceler afirmou que a cidadania deve estar ligada a uma relação concreta com o país e criticou o que considera um uso instrumental do passaporte italiano.
Diante de mais de 150 representantes consulares, Tajani sustentou que a reforma buscou restabelecer o valor do reconhecimento da cidadania, tema que continua gerando debate entre comunidades italianas no exterior, especialmente na América do Sul.
Ao abordar o assunto, o ministro utilizou novamente uma expressão que já havia empregado em outras ocasiões para descrever o cenário anterior às mudanças promovidas pelo governo.
“Era inaceitável ver anunciada a Black Friday para conceder (a palavra correta é reconhecer) a cidadania italiana.”
Segundo Tajani, havia situações em que pessoas procuravam os consulados apenas interessadas no passaporte, sem demonstrar qualquer ligação cultural ou linguística com a Itália. O ministro afirmou ainda que alguns requerentes “se recusavam a falar italiano quando iam ao Consulado e exigiam o passaporte”.
Passaporte europeu não pode ser objetivo final, diz ministro
Durante o discurso, Tajani também enfatizou que a cidadania italiana envolve elementos de identidade, história e pertencimento nacional.
Para o chanceler, o reconhecimento da cidadania deve estar associado ao conhecimento da cultura italiana e ao sentimento de pertencimento ao país.
“A cidadania não é um instrumento para ir a Miami com mais facilidade porque é um passaporte europeu.”
Em seguida, reforçou a crítica ao uso da cidadania como ferramenta de mobilidade internacional.
“Não serve para fazer turismo com mais facilidade.”
As declarações foram feitas em tom irônico e, segundo registros em vídeo do evento, não provocaram manifestações da plateia presente.
Discurso já havia sido utilizado em 2025
Não é a primeira vez que Tajani recorre à comparação com a Black Friday para justificar as mudanças nas regras de cidadania.
Em março de 2025, quando apresentou o decreto que alterou os critérios de reconhecimento, o ministro já havia utilizado a mesma metáfora para defender a necessidade de restringir aquilo que considerava um uso excessivamente amplo do direito à cidadania italiana.
Na ocasião, o foco das discussões esteve principalmente na América do Sul, região que concentra algumas das maiores comunidades de descendentes italianos fora da Europa. O Brasil, em especial, figura entre os países com maior número de pedidos de reconhecimento da cidadania.
A repetição do discurso mais de um ano depois indica que o tema continua sendo um dos pilares da argumentação do governo italiano para justificar a reforma.
Contraste com elogios à diáspora italiana
As declarações do ministro chamaram atenção por contrastarem com outras mensagens apresentadas durante o mesmo evento.
Pouco antes de abordar a questão da cidadania, Tajani destacou a importância da comunidade italiana no exterior, classificando os mais de 7 milhões de cidadãos residentes fora da Itália como um “grandíssimo recurso” para o país.
O ministro também recordou a existência de aproximadamente 80 milhões de ítalo-descendentes espalhados pelo mundo, ressaltando a relevância histórica e cultural dessa presença internacional.
A mesma linha foi adotada pelo presidente da República, Sergio Mattarella, cuja mensagem foi lida durante a cerimônia. No texto, o chefe de Estado definiu a diáspora italiana como um “patrimônio humano e profissional”.
As declarações evidenciam o equilíbrio que o governo busca estabelecer entre a valorização das comunidades italianas no exterior e a defesa de critérios mais rígidos para o reconhecimento da cidadania.
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