A presença de pesquisadores indígenas brasileiros em universidades europeias tem crescido nos últimos anos. O movimento se consolidou como uma importante ferramenta de cooperação internacional, produção de conhecimento e valorização dos saberes ancestrais.
Um exemplo é a parceria entre a Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), no Mato Grosso do Sul, e a Universidade Paris 8, na França. A iniciativa promove intercâmbios acadêmicos voltados para estudantes e pesquisadores indígenas.
O programa integra ações de cooperação científica entre instituições brasileiras e francesas. O objetivo é ampliar o acesso dos povos originários ao ensino superior e fortalecer o diálogo entre diferentes formas de conhecimento.
Segundo o reitor da UFGD, Jones Dari Goettert, a presença indígena na pós-graduação representa uma transformação importante para a produção acadêmica brasileira. “É fundamental garantir aos povos indígenas o reconhecimento de sua trajetória, de sua luta e de sua resistência, após séculos de políticas de não inclusão”, afirmou.
A cooperação conta com programas desenvolvidos pela Embaixada da França no Brasil e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). A parceria permite que indígenas participem não apenas da graduação, mas também de cursos de mestrado, doutorado e pós-doutorado.
Sobre a UFGD
Criada em 2005, a UFGD desenvolveu políticas de inclusão voltadas para populações indígenas, quilombolas e comunidades do campo. Ao longo de duas décadas, a instituição registrou um crescimento significativo no número de estudantes indígenas formados.
Segundo dados apresentados pelo reitor, há cerca de vinte anos a universidade tinha aproximadamente 20 indígenas graduados. Atualmente, o número se aproxima de 500 formados, principalmente entre os povos Guarani, Kaiowá e Terena.
Além disso, cerca de 50 indígenas já concluíram o doutorado. Novos pesquisadores também ingressam todos os anos nos programas de pós-graduação.
Da condição de objeto de pesquisa ao protagonismo acadêmico
As pesquisas desenvolvidas pelos estudantes indígenas abrangem áreas como História, Geografia, Sociologia, Antropologia, Educação e Letras. Grande parte dos trabalhos busca compreender a realidade das comunidades indígenas e suas relações com a sociedade não indígena.
“As pesquisas tendem a se concentrar na compreensão e análise das realidades no interior das aldeias, mas também nas relações às vezes tensas e complicadas, assim como de reciprocidade, entre a aldeia e a não aldeia”, explicou Goettert.
Segundo ele, trata-se de “um olhar ancestral que vem contribuindo enormemente para o diálogo com os saberes ocidentais”.
Para o reitor, uma das mudanças mais importantes das últimas décadas está relacionada ao papel dos indígenas na produção do conhecimento científico.
“Essa me parece ser a grande virada antropológica e cultural dessa participação dos indígenas nas universidades”, destacou.
“Agora, não é mais possível falar da realidade indígena no Brasil sem a participação e a autoria, sem o protagonismo de intelectuais indígenas, e o papel dos mestrados e doutorados é fundamental para isso”, observou.
Além da formação acadêmica, a participação em programas internacionais amplia oportunidades de mobilidade. Historicamente, essas experiências estiveram concentradas em grupos sociais mais privilegiados.
Nas comunidades indígenas, o avanço educacional também fortalece lideranças locais. Além disso, promove novas formas de diálogo com a sociedade.
Universidades europeias buscam ampliar diálogo com saberes ancestrais
A experiência na França revelou um interesse crescente de universidades europeias em estabelecer parcerias com pesquisadores indígenas brasileiros.
Segundo Goettert, há uma percepção cada vez maior sobre a necessidade de reconhecer a contribuição histórica dos povos originários para a construção do conhecimento.
“Percebemos que as universidades europeias reconhecem essa dívida que não apenas o Brasil, mas o mundo inteiro tem com os povos originários ou ancestrais”, afirmou durante entrevista à RFI.
“A vinda à França faz parte de uma reparação histórica fundamental”, acrescentou.
O reitor avalia que a cooperação acadêmica internacional ajuda a construir pontes entre diferentes formas de compreender o mundo. Isso é especialmente relevante em temas ligados ao meio ambiente, à sustentabilidade e à relação com os territórios.
“Há uma necessidade também de a Europa Ocidental começar a escutar e aceitar um diálogo profundo com outros modos de habitar o mundo, outras formas de viver os territórios, naquilo que chamamos de mundo comum”, apontou.
Ele destaca que os conhecimentos indígenas podem oferecer contribuições importantes para debates globais contemporâneos.
“Às vezes são experiências muito diferentes, algumas até antagônicas e contraditórias ao modelo hegemônico. Nesse sentido, os povos indígenas têm muito a contribuir ao apresentarem suas cosmologias, suas cosmografias e apontarem outros caminhos para questões emblemáticas da atualidade, como a questão ambiental e o aquecimento global”, avaliou.
Ao retornarem aos seus territórios, esses pesquisadores levam novas experiências e perspectivas. Dessa forma, fortalecem uma participação cada vez mais ativa nos debates científicos e sociais.
“O retorno desses indígenas possibilita um novo olhar e uma nova posição, não mais de subalternidade, mas, de fato, de protagonismo”, concluiu o reitor.
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