Serra Negra vira cenário de documentário sobre imigração italiana no Brasil

Serra Negra, no interior de São Paulo, foi escolhida como cenário de “O Canto da Cucagna”, documentário ítalo-brasileiro que aborda a imigração italiana, a memória e a identidade cultural. A produção reúne profissionais e instituições do Brasil e da Itália e utiliza locais como a réplica da Fontana di Trevi da cidade.

Serra Negra, no interior de São Paulo, entrou no roteiro de uma produção cinematográfica dedicada a contar uma parte importante da história da imigração italiana no Brasil. A cidade foi escolhida como um dos cenários de “O Canto da Cucagna”, documentário que busca investigar as marcas deixadas pelos imigrantes italianos no país e as conexões culturais que permanecem entre as comunidades de descendentes e suas origens.

Parte das gravações foi realizada em pontos turísticos e históricos de Serra Negra, incluindo a Fontana di Trevi local, monumento inspirado na famosa fonte de Roma e construído como uma homenagem à cultura italiana.

O projeto é produzido pela italiana Scrigno Production e reúne profissionais e instituições do Brasil e da Itália. Entre os parceiros brasileiros estão o Eccolo Coworking Criativo, de São Carlos, e o Museu da Imigração de São Paulo.

Segundo as informações divulgadas pela produção, o filme ainda está em desenvolvimento e, até o momento, não possui uma data oficial de lançamento.

Uma viagem entre Itália e Brasil

A história de “O Canto da Cucagna” parte de um dos personagens mais conhecidos da literatura de imigração italiana no Brasil: Nanetto Pipetta.

Criado pelo frei Aquiles Bernardi, Nanetto surgiu em 1924 nas páginas do jornal Staffetta Riograndense. O personagem representa o imigrante italiano que deixa sua terra natal em busca de uma vida melhor na América.

A expressão “cucagna”, ou Cocanha, está relacionada justamente ao imaginário de uma terra de fartura e prosperidade. Para muitos imigrantes, a América era vista como um lugar onde seria possível recomeçar, trabalhar e construir uma nova vida.

No documentário, essa figura ganha uma nova interpretação. Nanetto é apresentado como um adolescente veneziano que embarca clandestinamente em um navio que parte de Gênova com destino ao Brasil.

Durante a viagem, ele encontra Padre Enzo, um missionário siciliano que vive há mais de três décadas na Amazônia e que está retornando para Porto Velho.

O encontro entre os dois personagens serve como ponto de partida para uma narrativa que pretende abordar temas como migração, identidade, transformação cultural e memória.

Nanetto Pipetta e o sonho da “Cucagna”

A escolha de Nanetto Pipetta não é apenas uma referência literária. O personagem se tornou uma representação simbólica da experiência de milhares de italianos que atravessaram o Atlântico em busca de novas oportunidades.

As histórias publicadas no Staffetta Riograndense retratavam, muitas vezes com humor, as dificuldades enfrentadas pelos imigrantes e os contrastes entre o imaginário construído sobre a América e a realidade encontrada no Brasil.

Essa perspectiva também ajuda a explicar o título do documentário. A “Cucagna” representa o sonho de uma terra onde haveria abundância, mas a trajetória dos imigrantes foi marcada também por trabalho, adaptação, dificuldades e reconstrução de suas próprias identidades.

É justamente entre esse sonho e a realidade que o filme pretende construir sua narrativa.

Serra Negra e a presença da cultura italiana

A escolha de Serra Negra como cenário está diretamente relacionada à forte influência da imigração italiana na formação cultural da região.

A cidade paulista preserva referências dessa herança em sua arquitetura, gastronomia, tradições familiares e manifestações culturais. A presença italiana também faz parte da memória de diferentes famílias que se estabeleceram no interior de São Paulo ao longo dos processos migratórios.

Entre os locais utilizados pela equipe está a Fontana di Trevi de Serra Negra, atração turística que reproduz parte da estética da famosa fonte romana.

A réplica possui aproximadamente 40% das dimensões da Fontana di Trevi original, localizada em Roma, e foi construída como uma homenagem à cultura italiana.

A presença do monumento no documentário ajuda a estabelecer uma ligação visual entre a Itália de onde partiram os imigrantes e o Brasil onde eles construíram suas novas vidas.

Produção reúne profissionais brasileiros e italianos

Durante as gravações realizadas em Serra Negra, a equipe contou com profissionais de diferentes áreas e nacionalidades.

Entre os integrantes que passaram pela cidade estavam o diretor Edoardo Mariani, o diretor de fotografia Andrea Sorini, a roteirista Sabrina Scansani, a atriz Elsa Lanzalotta e Maria Alice Torres, CEO do Eccolo.

Também participaram das atividades os profissionais Luiz Salles e Daniela Santos.

A equipe internacional reforça a proposta do projeto de estabelecer uma ponte entre as duas culturas, utilizando a linguagem audiovisual para investigar como a imigração italiana continua presente na sociedade brasileira.

Documentário será falado em português e talian

Um dos elementos que chama atenção na produção é a utilização do talian, língua de imigração preservada principalmente por comunidades de descendentes de italianos no Brasil.

O talian surgiu a partir do contato entre diferentes variedades linguísticas trazidas pelos imigrantes, especialmente variedades do vêneto, e o português brasileiro.

Ao longo das gerações, a língua passou a fazer parte da identidade cultural de comunidades do Sul do Brasil e de outras regiões que receberam grandes contingentes de imigrantes italianos.

A presença do talian no filme contribui para aproximar a produção da memória dos descendentes e das formas de comunicação utilizadas por comunidades que mantiveram tradições linguísticas herdadas dos antepassados.

Uma narrativa que mistura realidade e ficção

Apesar de partir de acontecimentos e personagens ligados à história da imigração, “O Canto da Cucagna” não será apresentado apenas como um documentário histórico tradicional.

De acordo com a Scrigno Production, a produção combina documentário observacional, performance e elementos de realismo mágico.

A proposta permite que o filme transite entre registros históricos, memórias e representações ficcionais, criando uma narrativa sobre a experiência de migrar e sobre as transformações provocadas pelo deslocamento entre países.

A trajetória de Nanetto e Padre Enzo funciona, nesse contexto, como uma forma de conectar diferentes gerações, regiões e experiências de imigração.

Da memória familiar para as telas

A origem do projeto também está ligada à história pessoal do diretor Edoardo Mariani.

Segundo a Scrigno Production, Mariani começou a desenvolver “O Canto da Cucagna” depois de encontrar um livro raro sobre a imigração italiana no Brasil que havia pertencido ao seu bisavô.

O objeto familiar acabou despertando o interesse do diretor pela trajetória dos italianos que atravessaram o oceano e pelas relações construídas entre a Itália e o Brasil.

A partir dessa descoberta, a produção passou a investigar não apenas os acontecimentos históricos relacionados à imigração, mas também a maneira como essa história continua sendo transmitida dentro das famílias e comunidades de descendentes.

Projeto conecta instituições da Itália e do Brasil

Além da Scrigno Production e dos parceiros brasileiros, “O Canto da Cucagna” reúne instituições italianas ligadas à memória da migração.

Entre elas estão o Galata Museo del Mare, de Gênova, e o Museo Nazionale dell’Emigrazione Italiana, também localizado na cidade italiana.

O projeto conta ainda com a participação da CNA Puglia e com o patrocínio institucional da Embaixada do Brasil em Roma.

A produção também foi selecionada para o Ventana Sur, mercado audiovisual realizado em Buenos Aires em 2025, ampliando a circulação internacional do projeto ainda durante seu processo de desenvolvimento.

A imigração italiana como parte da identidade brasileira

A história retratada por “O Canto da Cucagna” ultrapassa a trajetória de quem deixou a Itália para viver no Brasil.

A imigração italiana teve impacto em diferentes áreas da sociedade brasileira, influenciando comunidades, costumes, culinária, agricultura, indústria, arquitetura e tradições familiares.

No interior de São Paulo, a chegada de imigrantes italianos esteve especialmente relacionada à expansão da agricultura e ao trabalho nas fazendas de café. Em outras regiões do país, os imigrantes participaram da formação de comunidades que preservaram tradições e variedades linguísticas próprias.

Décadas depois, essa herança continua presente em sobrenomes, festas, receitas, histórias familiares e manifestações culturais.

É nesse espaço entre passado e presente que o documentário pretende se concentrar.

Serra Negra ganha destaque em produção internacional

Ao receber parte das gravações, Serra Negra passa a integrar uma produção que busca apresentar ao público uma visão contemporânea da imigração italiana e de seus efeitos no Brasil.

A presença da equipe italiana e brasileira na cidade também reforça o papel de locais que preservam referências culturais da imigração como espaços de memória.

A Fontana di Trevi de Serra Negra, por exemplo, funciona não apenas como atração turística, mas como elemento visual capaz de representar a ligação simbólica entre a Itália e as comunidades formadas no Brasil.

Ainda sem data de estreia anunciada, “O Canto da Cucagna” segue em desenvolvimento. A expectativa é que a produção contribua para recontar a experiência da imigração italiana a partir de uma perspectiva que combina memória familiar, literatura, história e linguagem cinematográfica.

 

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