Uma nova regra passou a valer em toda a União Europeia desde 19 de julho, marcando uma mudança significativa para a indústria da moda. A partir dessa data, grandes empresas não podem mais destruir roupas, calçados e acessórios de vestuário novos que não foram vendidos.
A medida é válida nos 27 países do bloco, incluindo a Itália, onde estão sediadas algumas das maiores marcas de luxo do mundo. A iniciativa integra o Regulamento Europeu de Ecodesign para Produtos Sustentáveis (ESPR), aprovado em 2024, e busca reduzir o desperdício e incentivar práticas mais sustentáveis na produção e no consumo.
Medida busca reduzir desperdício e emissões
Segundo a Comissão Europeia, entre 4% e 9% dos produtos têxteis colocados no mercado europeu nunca chegam a ser utilizados. Em muitos casos, essas peças acabam sendo destruídas antes mesmo de chegarem aos consumidores.
Esse desperdício gera aproximadamente 5,6 milhões de toneladas de emissões de CO₂ por ano, volume comparável às emissões líquidas anuais da Suécia.
Os dados também mostram a dimensão do problema em diferentes países. Na França, cerca de 630 milhões de euros em produtos não vendidos são destruídos anualmente. Já na Alemanha, aproximadamente 20 milhões de mercadorias devolvidas no comércio eletrônico acabam sendo descartadas todos os anos.
Prática não ocorria apenas entre marcas de luxo
Embora a destruição de estoques seja frequentemente associada ao mercado de luxo, especialistas ouvidos pelo Financial Times afirmam que a prática também ocorre entre empresas de fast fashion e outros segmentos do varejo.
No setor de luxo, a eliminação de produtos excedentes era utilizada principalmente para preservar a exclusividade das marcas, evitar liquidações que pudessem reduzir o valor percebido dos itens, impedir que produtos chegassem ao mercado paralelo ou fossem falsificados e diminuir custos de armazenamento.
Um dos casos mais conhecidos ocorreu em 2018, quando a britânica Burberry revelou, em seu relatório anual, que havia destruído mais de 90 milhões de libras em roupas, acessórios e perfumes ao longo de cinco anos. A repercussão negativa levou a empresa a abandonar essa prática ainda naquele ano.
Marcas terão de buscar novas alternativas
De acordo com o Financial Times, grupos como Prada, LVMH, Chanel, Kering e Inditex, controladora da Zara, deverão adaptar sua gestão de estoques à nova regulamentação.
O jornal ressalta, no entanto, que não há evidências de que todas essas empresas destruíssem regularmente seus produtos excedentes, mas destaca que a nova legislação elimina uma alternativa que historicamente era utilizada por parte da indústria.
Especialistas apontam que a tendência é um crescimento de soluções como vendas em outlets, revenda, doações, reciclagem, remanufatura e reaproveitamento de materiais.
Objetivo é acelerar a economia circular
Segundo a Comissão Europeia, a nova regra vai além da proteção ambiental.
A proposta também busca reduzir a superprodução, diminuir o desperdício de matérias-primas, água e energia, cortar as emissões de gases de efeito estufa e estimular um modelo de economia circular para o setor têxtil, considerado um dos que mais consomem recursos naturais e geram resíduos no continente.
Inicialmente, a proibição vale para as grandes empresas.
As médias empresas terão prazo até 19 de julho de 2030 para se adequar às novas exigências. Já micro e pequenas empresas permanecem, por enquanto, isentas da obrigação.
A legislação prevê exceções apenas para produtos contaminados, inseguros, danificados de forma irreparável ou falsificados.
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