Forza Nuova quer consulados ajudando italianos no exterior a voltar para a Itália

A Forza Nuova propõe ampliar a atuação dos consulados italianos no exterior para ajudar cidadãos que desejam retornar à Itália a encontrar emprego e moradia antes da mudança. A iniciativa, defendida por Roberto Fiore, faz parte de uma campanha do movimento pelo retorno de italianos e descendentes e está relacionada ao debate sobre demografia, imigração e mercado de trabalho no país.

A Forza Nuova quer ampliar o papel dos consulados italianos no exterior para que eles também possam auxiliar cidadãos interessados em retornar definitivamente à Itália na busca por emprego e moradia antes da mudança.

A proposta foi apresentada pelo secretário nacional do movimento, Roberto Fiore, em comunicado encaminhado ao Italianismo pela seção brasileira da Forza Nuova, representada por Gabriel Maragno.

Segundo o texto, a partir de setembro o movimento pretende pressionar pela simplificação dos procedimentos relacionados ao retorno de italianos que vivem fora do país.

“Que os consulados sejam pontos de referência para todos aqueles que desejam retornar à Pátria de origem”, afirma o comunicado atribuído a Fiore.

A ideia, portanto, não seria criar um novo direito de entrada na Itália para cidadãos italianos, esse direito já existe, mas ampliar a assistência oferecida aos italianos residentes no exterior para que o retorno seja acompanhado também de condições mínimas de reinserção econômica e habitacional.

Proposta pretende transformar consulados em pontos de apoio ao retorno

A proposta da Forza Nuova parte de uma questão prática: embora um cidadão italiano possa retornar livremente à Itália, a mudança de país não significa, automaticamente, ter emprego, residência ou estrutura para recomeçar a vida.

Por isso, Fiore defende que os consulados italianos passem a desempenhar um papel mais ativo na preparação do retorno.

Na formulação apresentada pelo movimento, o cidadão interessado poderia procurar a representação consular ainda no país onde reside e receber apoio para identificar oportunidades de trabalho e alternativas de moradia na Itália antes de embarcar.

A proposta também está inserida em uma campanha mais ampla da Forza Nuova em defesa do retorno de italianos e descendentes que vivem no exterior.

A campanha pelo retorno dos italianos

A ideia não surgiu agora.

Em dezembro de 2025, a Forza Nuova publicou um comunicado intitulado “2026, ano do retorno dos italianos do exterior”. Na ocasião, Roberto Fiore afirmou que o movimento pretendia promover o retorno de aproximadamente 500 mil ítalo-americanos por ano, mencionando ainda a atuação de seções da organização no Brasil e na Argentina.

Na declaração, o movimento relacionou o retorno ao problema demográfico italiano e apresentou a volta de italianos que vivem no exterior como uma das medidas que, em sua avaliação, poderiam contribuir para a recuperação populacional do país.

O posicionamento também faz parte de uma estratégia política mais ampla da organização, que defende políticas voltadas ao crescimento da população italiana e ao fortalecimento dos vínculos entre a Itália e suas comunidades emigradas.

A proposta de envolver os consulados representa, nesse contexto, uma mudança no foco da campanha: em vez de apenas incentivar o retorno, a Forza Nuova pretende que o Estado italiano participe da preparação prática para essa mudança.

O que muda para quem já é cidadão italiano?

Para cidadãos italianos residentes no exterior, é importante separar duas questões.

A primeira é o direito de retornar à Itália. Um cidadão italiano não precisa de visto ou de uma autorização de trabalho para viver e trabalhar em seu próprio país.

A segunda é a organização da residência após o retorno.

No caso de italianos inscritos no AIRE – Anagrafe degli Italiani Residenti all’Estero, o estabelecimento definitivo da residência na Itália envolve a comunicação ao município italiano onde a pessoa pretende morar. O procedimento resulta na atualização do registro anagráfico e na inscrição na população residente.

Ou seja, a proposta da Forza Nuova não cria um mecanismo de entrada para cidadãos italianos. O que o movimento pretende é acrescentar uma etapa de assistência à reinserção, principalmente nas áreas de trabalho e habitação.

Consulados já prestam assistência a italianos no exterior

As representações diplomáticas e consulares italianas já exercem diversas funções relacionadas à assistência aos cidadãos residentes fora do país.

Em situações específicas, os consulados também podem atuar em casos de repatriação, especialmente quando existem condições de grave dificuldade econômica ou situações envolvendo menores e outras circunstâncias que exigem intervenção das autoridades.

A proposta apresentada por Fiore é mais ampla: transformar o consulado em uma espécie de ponto de referência para o planejamento do retorno, incluindo informações e apoio relacionados às condições encontradas pelo cidadão na Itália.

Ainda seria necessário definir, caso a proposta avançasse, quais órgãos seriam responsáveis por procurar vagas de emprego, identificar imóveis e estabelecer critérios para esse tipo de atendimento.

Crítica ao Decreto Flussi

O projeto político da Forza Nuova também está ligado à crítica do movimento à atual política migratória italiana.

No comunicado, Fiore questiona o chamado Decreto Flussi, mecanismo utilizado pelo governo italiano para estabelecer anualmente as entradas de trabalhadores estrangeiros de países de fora da União Europeia.

O movimento apresenta a entrada de trabalhadores estrangeiros como um problema relacionado ao declínio demográfico italiano e defende que parte da demanda por mão de obra seja atendida por italianos que vivem no exterior.

A interpretação política de que a política migratória teria como objetivo “substituir” a população italiana é uma posição da Forza Nuova e não corresponde à justificativa oficial apresentada pelo governo para o Decreto Flussi.

Quase 500 mil entradas de trabalhadores estrangeiros em três anos

O Decreto Flussi 2026–2028 prevê 497.550 entradas de cidadãos de países terceiros para trabalho na Itália.

A distribuição oficial é de:

  • 164.850 entradas em 2026;
  • 165.850 em 2027;
  • 166.850 em 2028.

As vagas contemplam trabalho subordinado sazonal e não sazonal e trabalho autônomo.

Segundo o Ministério do Trabalho italiano, a programação foi elaborada considerando as necessidades apresentadas pelo setor produtivo e as solicitações de autorização de trabalho registradas nos anos anteriores. O governo apresenta o mecanismo como uma forma de organizar os fluxos regulares de trabalhadores e atender às necessidades de mão de obra da economia italiana.

Assim, o número correto previsto para o período de três anos é 497.550, e não cerca de 400 mil por ano.

Governo italiano criou uma via específica para descendentes

Enquanto a Forza Nuova defende o retorno de cidadãos italianos, uma medida adotada pelo governo italiano em 2025 criou uma possibilidade adicional para descendentes de italianos que ainda não possuem cidadania italiana.

Um decreto interministerial de 17 de novembro de 2025 identificou sete países com grandes comunidades italianas no exterior para uma modalidade de entrada para trabalho subordinado fora das cotas ordinárias do Decreto Flussi.

A lista inclui:

  • Argentina;
  • Brasil;
  • Estados Unidos;
  • Austrália;
  • Canadá;
  • Venezuela;
  • Uruguai.

O próprio texto oficial afirma que a medida busca favorecer a chamada “imigração de retorno dos descendentes de cidadãos italianos”.

A regra utiliza uma previsão específica do Texto Único da Imigração e permite, em determinadas condições, que descendentes de cidadãos italianos desses países entrem e permaneçam na Itália para trabalho subordinado sem ocupar uma das cotas ordinárias do Decreto Flussi.

Brasil está entre os países contemplados

O Brasil possui uma das maiores comunidades de cidadãos italianos registrados no exterior.

Dados utilizados pelo governo italiano na elaboração do decreto apontavam que, em 31 de dezembro de 2024, havia 682.300 cidadãos italianos inscritos no AIRE no Brasil.

Na mesma data, Argentina, Estados Unidos, Austrália, Canadá, Venezuela e Uruguai também possuíam comunidades italianas superiores a 100 mil pessoas, razão pela qual foram incluídos inicialmente na medida.

A escolha desses países foi baseada, segundo o decreto, na dimensão das comunidades italianas residentes no exterior.

Cidadão italiano e descendente sem cidadania são situações diferentes

A distinção é importante para compreender a proposta.

Um cidadão italiano residente no Brasil, por exemplo, já possui o direito de viver e trabalhar na Itália. Seu principal desafio ao retornar pode ser encontrar emprego, moradia e organizar novamente sua residência no país.

Já um descendente de italiano que não possui cidadania italiana reconhecida é, juridicamente, um estrangeiro. Para trabalhar e morar na Itália, precisa utilizar uma das vias migratórias previstas na legislação, salvo se posteriormente obtiver o reconhecimento da cidadania.

A medida aprovada em 2025 criou justamente uma possibilidade específica de entrada para trabalho subordinado destinada a descendentes de italianos residentes nos sete países selecionados.

Por isso, a medida do governo e a proposta da Forza Nuova possuem pontos de contato, ambas tratam da chamada imigração ou retorno de pessoas de origem italiana, mas não são a mesma política.

A proposta ainda depende de mudanças na atuação dos consulados

Até o momento, a iniciativa apresentada por Roberto Fiore é uma proposta política da Forza Nuova.

Para que os consulados passassem efetivamente a intermediar empregos e moradias para italianos interessados em retornar, seria necessário definir competências, recursos, procedimentos e a forma de cooperação entre as representações consulares, municípios, órgãos de emprego e demais instituições italianas.

A proposta, portanto, deve ser entendida como uma reivindicação para ampliar a atuação das estruturas italianas no exterior, e não como um serviço consular já disponível nesses termos.

O ponto central defendido por Fiore é que o retorno não deveria terminar no momento em que o italiano desembarca no país. Para a Forza Nuova, o Estado deveria ajudar a preparar a mudança ainda no exterior, especialmente em dois aspectos considerados fundamentais pelo movimento: trabalho e moradia.

Uma campanha que une demografia, imigração e retorno

A iniciativa também mostra como o tema da emigração italiana passou a ser utilizado pela Forza Nuova dentro de um debate mais amplo sobre a demografia do país.

A organização relaciona o envelhecimento e a redução da população italiana à necessidade de incentivar famílias italianas a permanecerem no país e de estimular o retorno de cidadãos e descendentes que vivem no exterior.

Em dezembro de 2025, ao lançar sua campanha para 2026, o movimento apresentou o retorno de aproximadamente meio milhão de italianos do exterior por ano como uma de suas principais propostas demográficas.

Agora, com a defesa de uma participação mais direta dos consulados, a Forza Nuova procura transformar essa campanha em uma proposta de política pública: identificar quem quer voltar, ajudá-lo a encontrar trabalho e moradia e facilitar sua reinserção na sociedade italiana antes mesmo do retorno.

A iniciativa, no entanto, ainda está no campo da proposta política e não representa uma mudança nas atribuições atuais dos consulados italianos.

 

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