O banco italiano Monte dei Paschi di Siena (MPS), considerado o mais antigo banco do mundo ainda em operação, lançou nesta sexta-feira (21) uma ofensiva para ampliar significativamente seu tamanho e dificultar uma eventual aquisição pelo Intesa Sanpaolo, maior banco da Itália.
O plano, apresentado pelo CEO do MPS, Luigi Lovaglio, prevê duas operações de troca de ações para adquirir o Banco BPM e a Banca Generali, em uma transação conjunta avaliada em aproximadamente € 34 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 205,8 bilhões.
A proposta foi aprovada pelo conselho de administração do MPS na quinta-feira (20) e comunicada ao mercado nesta sexta.
MPS mira Banco BPM e Banca Generali
A maior parte da operação está concentrada no Banco BPM, quarto maior banco da Itália. O MPS ofereceu aproximadamente € 25,3 bilhões (R$ 153,15 bilhões) pela instituição.
Outros € 8,72 bilhões (R$ 52,8 bilhões) seriam destinados à aquisição da Banca Generali, braço de gestão de patrimônio do grupo Generali, maior seguradora italiana.
As duas operações seriam realizadas por meio de trocas de ações, sem que o MPS precise desembolsar integralmente os valores em dinheiro.
A ofensiva acontece em um momento de forte movimentação no setor bancário italiano, marcado por tentativas de consolidação entre grandes instituições.
Estratégia para bloquear o avanço do Intesa
O movimento do MPS surge como uma resposta direta à oferta apresentada pelo Intesa Sanpaolo.
Em junho, o maior banco italiano formalizou uma oferta de aproximadamente € 30,6 bilhões (R$ 185,2 bilhões) para adquirir o MPS.
A proposta colocou o banco de Siena no centro de uma disputa pelo futuro do sistema financeiro italiano.
Ao anunciar a aquisição simultânea do Banco BPM e da Banca Generali, o MPS pretende aumentar consideravelmente seu valor e sua escala, tornando mais difícil uma eventual tomada de controle por um concorrente.
O plano também prevê a distribuição de aproximadamente € 4 bilhões aos acionistas do MPS, sendo € 1 bilhão em dinheiro e o restante em ações da Banca Generali.
Novo grupo teria € 80 bilhões em valor
Para Luigi Lovaglio, a combinação das três instituições criaria um grupo financeiro italiano de aproximadamente € 80 bilhões, com dimensão suficiente para entrar no grupo dos dez maiores bancos europeus.
Na Itália, o novo conglomerado passaria a ocupar a segunda posição entre os maiores bancos do país, atrás do Intesa Sanpaolo.
“Estamos criando um grupo italiano mais forte, de relevância europeia, enraizado na economia nacional e pronto para competir em um setor em constante evolução”, afirmou Lovaglio durante uma conferência com analistas.
O executivo também demonstrou confiança na possibilidade de concluir as operações.
“Estou profundamente convencido de que as características deste projeto permitirão que essa transação prossiga de forma amigável, pois ela cria um valor enorme”, acrescentou.
Como funcionaria a troca de ações
Para adquirir o Banco BPM, o MPS ofereceu 1,567 ação própria por cada ação do banco concorrente.
No caso da Banca Generali, a proposta é de 6,958 ações do MPS para cada ação da companhia.
A estrutura permite que o Monte dei Paschi utilize suas próprias ações como moeda de troca para financiar as aquisições e, ao mesmo tempo, amplie sua estrutura corporativa.
O acordo, contudo, ainda não está concluído. A operação precisa passar por outras etapas e depende, entre outras condições, da aprovação dos acionistas do MPS.
Participação na Generali também entra na estratégia
O Monte dei Paschi atualmente possui uma participação de aproximadamente 13% na Generali, maior seguradora da Itália.
Com a operação proposta, essa participação seria reduzida para cerca de 4,5%.
A mudança na composição acionária da Generali também pode alterar a dinâmica entre os grandes grupos financeiros italianos e reduzir um dos elementos que tornam o MPS estratégico para seus concorrentes.
A operação, portanto, não envolve apenas o crescimento do banco de Siena, mas também uma reorganização de suas participações no mercado financeiro italiano.
Um banco com quase seis séculos de história
Fundado em 1472, em Siena, o Monte dei Paschi di Siena atravessou uma das crises mais graves de sua história na década passada.
Em 2017, o banco esteve próximo da falência devido à elevada exposição a créditos deteriorados, ou seja, empréstimos com baixa probabilidade de serem pagos pelos tomadores.
O Estado italiano interveio para evitar o colapso da instituição.
Depois de um processo de saneamento financeiro e reestruturação, o MPS voltou a apresentar resultados que o tornaram novamente um ativo cobiçado no mercado bancário italiano.
A atual ofensiva de expansão representa uma mudança significativa em relação ao período em que o banco precisava de apoio estatal para sobreviver.
Compra do Mediobanca mudou o cenário
A estratégia de expansão ganhou força em 2025, quando o MPS adquiriu o Mediobanca, uma das instituições financeiras mais tradicionais e importantes da Itália no segmento de banco de investimento.
A operação chamou a atenção de concorrentes maiores e aumentou o peso do banco de Siena no sistema financeiro nacional.
Pouco depois, o próprio Banco BPM apresentou uma proposta de fusão ao MPS, com o objetivo de criar uma instituição capaz de enfrentar com maior força o duopólio formado por Intesa Sanpaolo e UniCredit.
A proposta, porém, não avançou como planejado.
Banco BPM mudou de posição após oferta do Intesa
Em junho, o Banco BPM apresentou ao MPS uma proposta de fusão em condições de igualdade.
A ideia era unir as duas instituições e criar um grupo bancário italiano de maior escala, capaz de competir diretamente com os dois principais bancos do país.
Dois dias depois, entretanto, o Intesa Sanpaolo apresentou sua própria oferta pública de aquisição pelo MPS.
Diante da nova disputa, o Banco BPM abandonou a proposta de fusão, deixando o Monte dei Paschi novamente no centro de uma possível aquisição.
Agora, o MPS tenta inverter a situação.
Em vez de ser comprado, o banco de Siena pretende comprar dois outros grupos e transformar-se em uma instituição significativamente maior.
Uma nova disputa pelo futuro do setor bancário italiano
A proposta apresentada nesta sexta-feira coloca o sistema bancário italiano diante de uma nova rodada de consolidação.
Se for concluída, a combinação entre MPS, Banco BPM e Banca Generali criará um grupo financeiro com presença relevante no varejo bancário, na gestão de patrimônio e em outros segmentos financeiros.
Além de aumentar a escala do MPS, a operação pode alterar novamente o equilíbrio entre os grandes bancos italianos e dificultar os planos do Intesa Sanpaolo.
O projeto ainda precisa superar as etapas regulatórias e societárias necessárias antes de ser concluído.
Por enquanto, a mensagem de Lovaglio é clara: o Monte dei Paschi di Siena, que já esteve próximo de desaparecer durante a crise financeira, agora tenta se transformar em um dos protagonistas da reorganização do sistema bancário italiano.
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